O radialista Waldebrando Silva, 78 anos, que faleceu na cidade de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, no domingo (21/02), era um apaixonado pelo rádio. Notabilizou-se apresentando a “Oração da Ave Maria”, entre às 18h e 18h30min, mas também fez sucesso nas madrugadas, quando abria programação da rádio Jornal Fluminense (hoje Absoluta), apresentando um programa de variedades. Foram mais de 50 anos à frente do microfone. Um recorde, pode-se dizer.
Muitos ouvintes acordaram no Norte Fluminense ouvindo Waldebrando fazendo os mais variados comentários, mandando abraços e sempre repetindo a hora. Numa época em que não havia celular na cabeceira da cama, mas apenas despertador ou relógio de pulso, o estilo funcionou, projetando o radialista para conquistar um mandato de vereador e posteriormente o de vice-prefeito em Campos, na chapa de José Carlos Vieira Barbosa.
O ouvinte de rádio mudou ao longo dos anos. Rádio AM – nas ondas em que o moço de fé surfava -, foi sangrada pelas FMs; o meio também perdeu público para a internet, TV e uma multiplicidade de plataformas, mas Waldebrando manteve o estilo e soube cativar sua parcela de admiradores. Sobreviveu aos tempos modernos.
Figura solidária, prestativa aos extremos, o radialista também tinha o seu lado contraditório, muito bem definido pelo seu colega de profissão, Nilson Maria, em texto postado no Facebook.
Confira:
O HOMEM QUE RECUSAVA HOMENAGENS
Por Nilson Maria
Perdemos Waldebrando Silva! Convivi com ele por décadas e aprendi a gostar dele com todas as suas contradições. Era alguém de coração generoso que adorava fazer o bem e não media esforços para agradar as pessoas. Por outro lado era dono de um temperamento difícil e, constantemente, agredia àqueles que o queriam bem. Cometia a grosseria e, imediatamente, se arrependia.
Um dos períodos mais tristes de minha história recente aconteceu quando pretendi entregar a ele o Troféu Ouro da Terra, que eu criei na Fundação Trianon para homenagear personalidades ainda em vida. O projeto foi concebido para o Teatro de Bolso, pois era minha intenção revitalizá-lo e prestigiá-lo. Ele estava fechado há 01 ano, quando assumi a presidência do Trianon (tristemente está fechado novamente). Falei de minha intenção com Waldebrando e ele, aparentemente, aceitou. Surpreendi-me quando, no seu programa de domingo, o comunicador reclamou de forma colérica e criticou a minha intenção com um argumento insólito:
“ Quer conhecer um homem, dê um cargo a ele! Como mudou esse Nilson Maria! Assumiu um cargo na Prefeitura e se acha no direito de humilhar as pessoas. Quer me fazer homenagem no Teatro de Bolso. Eu não sou homem de receber homenagem no Teatro de Bolso. Se quiser homenagear-me tem que ser no Trianon.”
Procurei por ele e expliquei que o Projeto havia sido projetado para o Teatro de Bolso e que um evento dessa natureza jamais encheria um Teatro das dimensões do Trianon. Nessa época, ao sair pelas ruas era constantemente abordado por ouvintes de Waldebrando que se dirigiam a mim de forma agressiva:
“Puxa vida, Nilson Maria! Isso é coisa que se faça com o Waldebrando? Você está se recusando a fazer homenagem a ele no Trianon? Ele não merecia esse tratamento!”
Waldebrando ficou um bom tempo sem falar comigo. Um dia, na Campos Difusora, enviei-lhe um recado, esclarecendo que grandes nomes como Andral Tavares, Waldir Carvalho, Dr. Fernando da Silveira, José Sales, Sonia Maria, etc., receberam o mesmo troféu no palco do Teatro de Bolso, sem problemas. Considerava o Projeto Ouro da Terra algo tão importante que fazia questão de vê-lo transmitido pela TV Educativa, no intuito de que os campistas conhecessem um pouco mais as suas personalidades mais importantes.
Disse, na ocasião, que considerava Waldebrando Silva acima do bem e do mal e por mais que falasse de mim nada faria mudar o carinho que eu continuava tendo por ele.
Voltamos a nos falar e retomamos a nossa amizade.
De outra feita, o Deputado João Peixoto pretendeu entregar a ele a Medalha Tiradentes, maior honraria da Assembleia Legislativa do Estado do Rio. Seria para coroar os 50 anos de sua Oração da Ave-Maria. Para tal, bastaria preparar um curriculo simples, com os dados e uma síntese do trabalho de Waldebrando. Nada difícil para alguém que foi Vereador, Vice Prefeito, Radialista há bem mais de 50 anos com décadas de campanhas de Cadeira de Rodas e Oração da Ave Maria. Waldebrando recusou-se a fazer o currículo. Ofereci-me para fazer por ele, que encerrou definitivamente o assunto:
“Faça isso e nunca mais falo com você!”
Quem conheceu Waldebrando Silva sabe que ele era extremamente tímido e não aceitava receber honrarias. Dificilmente comparecia a um evento social, mas adorava receber as pessoas em seu sítio.
Assim era o “Moço de Fé”. Contraditório, mas generoso!
Que Deus o tenha, querido amigo!








