Com medo de contrair Covid-19, pacientes com outras enfermidades estão deixando de procurar serviços médicos para consultas rotineiras. Isso tem elevado o número de óbitos por doenças como câncer, infarto do miocárdio e Acidente Vascular Cerebral (AVC), segundo informa reportagem da BBC News.
Esses pacientes deixam de procurar atendimento ao sentir os primeiros sintomas, quando o recomendável é procurar atendimento médico para um diagnóstico precoce de eventuais agravamento do quadro, o que em determinados casos podem evitar a morte.
Só que diante da pandemia e com os serviços de saúde focados nos casos de Covid-19, esses pacientes retardam a busca por auxílio médico ou enfrentam superlotação nas unidades de emergência.
A reportagem da BBC cita o caso do empresário Miguel da Rocha Correia Lima, de 55 anos, que deu entrada na emergência do hospital Uberlândia Medical Center (UMC), em Uberlândia, Minas Gerais, depois de desmaiar em casa.
Na unidade ele passou por um procedimento cardíaco que durou cerca de uma hora, e, apesar dos esforços da equipe médica, acabou não resistindo. O paciente teve um infarto do miocárdio do ventrículo direito.
“No dia anterior, meu pai sentiu uma dor no peito, mas, como foi fraca, não deu muita importância, e também achou que não valia o risco de ir ao hospital por causa do coronavírus”, relatou a filha Anna Paula Graboski, de 31 anos.
Nesse caso específico, os médicos relataram aos familiares que se o paciente tivesse procurado ajuda logo, assim que a dor começou, provavelmente estaria vivo, mas, como esperou muito tempo, o coração não aguentou.
O distanciamento desses pacientes de risco dos consultórios está se tornando um dos efeitos colaterais mais preocupantes da pandemia do novo coronavírus no Brasil.
O caso do empresário que morreu de infarto se deu na cidade de Minas, mas em todas as regiões do país têm registrado quedas brutais nos números de consultas, exames e cirurgias e, consequentemente, aumento de mortes por outras enfermidades que não a covid-19.
A reportagem da BBC cita um levantamento do epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Em março, a capital paulista contabilizou 743 mortes – excluindo homicídios e acidentes em geral – a mais que a média para o mesmo mês dos últimos cinco anos.
“No período, tivemos 277 óbitos confirmados por covid-19 e 466 por não covid-19, e vários destes, mesmo não tendo sido causados diretamente pela doença, podem ser atribuídos a ela”, afirma o médico.
A explicação é que o vírus, além de agravar a condição de pessoas já debilitadas pelas mais diversas razões, tem feito muitas delas não apenas desmarcarem consultas e até cirurgias e desistirem de ir às clínicas ou pronto-socorros quando não estão se sentindo bem, mas também não serem atendidas por conta da superlotação e do foco no combate à pandemia.
“Soube do caso de uma moça com aneurisma que não conseguiu ser operada porque o centro cirúrgico do hospital que ela procurou foi transformado em UTI para receber pacientes com covid-19. A razão imediata da morte dela não foi o coronavírus, mas de forma indireta foi”, afirma Lotufo.








