Uma das feições mais evidentes da vida moderna é a disseminação do plástico em todos os componentes da sociedade humana. O fato é que o plástico é uma daquelas invenções que oferecem uma multitude de funções, e os produtos baseados nesse composto estão por todo o lado e, por isso, os seus produtos e derivados se tornaram rapidamente uma daquelas coisas que ninguém se pergunta sobre os efeitos de seu consumo, em especial em relação às consequências negativas sobre a saúde humana.
A onipresença dos produtos plásticos é tão grande que 90% do lixo produzido no mundo é composto por materiais feitos à base de plástico. Diante disso, torna-se inevitável que existam consequências práticas, ainda que as mesmas estejam sendo lentamente mapeadas.
Apesar de já se saber que a sociedade humana espalhou compostos plásticos por toda a superfície do planeta, desde os picos do Himalaia até as grandes profundidades oceânicas nas Fossas Marianas, pouco se conhece sobre a assimilação de seus compostos por organismos vivos, incluindo seres humanos.
PICADINHOS DE PLÁSTICO NA ÁGUA E NA COMIDA
Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Newcastle da Austrália mostra que estamos consumindo mundialmente em média algo próximo a 2.000 pequenos pedaços de plásticos todas as semanas, o equivalente a um cartão de crédito, que nos chegam via a água que consumimos, os alimentos que ingerimos e até o ar que respiramos.
Em breve, os seres humanos estarão com quantidades de plástico em suas vias circulatórias com potencial para iniciar uma série de distúrbios e doenças que afetarão principalmente as próximas gerações se nada for feito para diminuir a nossa despreocupação com a contaminação ambiental que nosso modo vida atual está causando.
Obviamente o nível de contaminação varia de acordo por país e o nível de consumo que ocorre em cada lugar, mas dois fatos colaboram para que a contaminação vá além do ponto de descarte: a circulação atmosférica global serve como uma espécie de elemento democratizador da poluição alheia, e o efeito similar que é cumprido pelas correntes marinhas que realizam uma distribuição das águas oceânicas por todo o planeta.
POLUIÇÃO DISSEMINADA
Em outras palavras, a concentração média de plástico pode até variar em função do grau de consumo e dos mecanismos de controle do descarte, mas a poluição está ocorrendo e está sendo disseminada por todo o planeta, fazendo de todos nós uma espécie de consumidores indiretos do plástico alheio.
Mas se nos ativermos apenas ao caso brasileiro, veremos que estamos fazendo um trabalho muito pobre para diminuir os riscos de contaminação por plástico. Segundo dados fornecidos pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, o Brasil produz cerca de 76 milhões de toneladas de lixo ao ano, 30% tem potencial de reciclagem, mas apenas 3% são de fato reaproveitados.
Como o aqui a presença de compostos plásticos é ampla, isto nos leva a uma conclusão: estamos dentre os países onde a contaminação plástica não só é alta, mas como tende a aumentar em função do atraso da execução das políticas estabelecidas para minimizar os problemas do lixo, a começar pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), estabelecida pela Lei No 12.305 de 2010, cuja adoção em nível municipal está bastante atrasada em todo o Brasil.
LEIS ESTADUAIS
Para minimizar os efeitos do atraso da adoção da PNRS e da inexistência de políticas em nível municipal que melhorem a gestão do lixo, várias leis estão sendo aprovadas em nível estadual para dificultar o acesso a artefatos plásticos de uso único, como é o caso das sacolas plásticas que são distribuídas por estabelecimentos comerciais.
No caso do Rio de Janeiro, está previsto para o dia 26 de junho o início efetivo da aplicação da Lei Estadual No 69 de 2019 de autoria do deputado estadual Carlos Minc. Ainda que esta lei não seja um instrumento que possa reverter por si só o cenário atual de contaminação por plásticos, a sua existência é melhor do que nada.
Entretanto, a pressão pelo uso de produtos recicláveis na produção de sacolas deveria partir da própria população, já que somos todos vítimas potenciais da contaminação que o descarte de plástico no ambiente acaba causando.
Apesar de parecer algo utópico em um contexto de graves dificuldades econômicas, sociais e políticas pelo qual o Brasil atravessa neste momento, não há como adotar uma postura de resignação frente os problemas associados ao uso e descarte de plástico.
É que os danos ambientais são tão graves que seria uma completa irresponsabilidade assistir passivamente a um problema do qual somos todos coparticipantes. E é preciso ficar claro de uma vez por todas que a questão do plástico não deixa muito espaço para omissão. Ou agimos ou teremos graves problemas em um futuro muito distante.








