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‘Lembra o início do HIV’: a estigmatização da varíola dos macacos

redacao Por redacao
05/08/2022 - 09:20
em Política
A A
vARIOLA DO MACACO: ESTIGMATIZAÇÃO FAZ LEMBRAR EPIDEMIA DO HIV

(Foto: Getty Images)

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O primeiro atendimento médico que Carlos*, de 38 anos, recebeu ao informar que poderia estar infectado com a varíola dos macacos em um hospital particular da Grande São Paulo foi “vago e genérico”, como ele mesmo descreve.

“Comuniquei a suspeita ao enfermeiro, ele colocou luvas e me levou para uma sala de isolamento, e admitiu que tinha desconhecimento da doença e que faltava protocolo dentro do hospital para isso. Me senti como uma cobaia”, relata.

Carlos precisou tirar toda roupa e passar por uma inspeção íntima detalhada e invasiva em busca das pequenas feridas que caracterizam a doença.

“Tive que tirar toda roupa, ficar nu, e os médicos olhando, procurando, mandava virar, procurava em regiões que eu nem enxergava. Nas partes íntimas, na região do ânus. Não sabia que aquele seria o protocolo”, completa.

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Na ocasião, no dia 18 de julho, o Brasil apresentava pouco mais de 400 casos confirmados da Monkeypox, a varíola símia ou popularmente chamada de varíola dos macacos.

Três semanas depois e quase 1.000 casos a mais, ainda não há por parte do governo federal uma campanha de conscientização e informação sobre os riscos da varíola dos macacos, quem são os grupos mais vulneráveis à doença no momento ou mesmo como se prevenir.

Somente no dia 1º de agosto — quase 2 meses após o 1º caso registrado no Brasil, no dia 9 de junho — o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica com orientações para profissionais da saúde com recomendações sobre a varíola dos macacos.

Falta de informações sobre a varíola dos macacos

“Eu fui obter mais informações sobre a doença depois que já estava quase 2 semanas em isolamento e muito por minha conta. De início, recebi a orientação que precisaria ficar 21 dias isolado, sem ter contato algum. Muito depois, consultei um outro médico que me informou que poderia realizar certas atividades diárias desde que tomasse as medidas corretas para isso”, conta Carlos.

A falta de informação oficial abre um espaço para a desinformação e ignorância, principalmente em uma sociedade que ainda vive um cenário pandêmico da Covid-19.

“Existe aquela famigerada fala de que ‘não se pode criar pânico’, mas que, na verdade, é um grande pretexto para não se falar as coisas com clareza, com ética e para não se tocar nesse assunto, principalmente em um ano eleitoral”, destaca José David Urbaez Brito, presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal.

Na avaliação do especialista, falta ao Ministério da Saúde tomar as rédeas da coordenação do combate à varíola dos macacos no Brasil. Tal qual como aconteceu com o novo coronavírus no início de 2020, casos da Monkeypox já se espalhavam pela Europa e alarmavam os governos sobre quais medidas seriam necessárias para enfrentá-la.

“Está sendo visto de maneira superficial pelo governo. Isso já estava sendo avisado há tempos, começou na Europa e com um grupo delimitado que, no momento, é o maior alvo da doença. Não foi feito nada pelo Ministério da Saúde até agora”, lamenta Urbaez Brito, que também integra a Câmara Técnica de Infectologia da Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

Além das campanhas, também existe a necessidade de mobilizar as estruturas das redes públicas e particulares de saúde para realização de testes, rastreamento e monitoramento de contatos.

Em relação a essas medidas, o Brasil se encontra em posição crítica, afirmam grupo de epidemiologistas em em artigo pré-print publicado nesta segunda (1º) na Revista Brasileira de Epidemiologia.

O país conta com quatro laboratórios para testagem das amostras de casos suspeitos da varíola dos macacos. O cenário de aumento de casos no Brasil já começa a sobrecarregar esses quatro centros e especialistas apontam a necessidade do aumento de laboratórios credenciados.

“Os casos estão dobrando a cada semana. Hoje, a rede de laboratórios credenciados pelo Ministério da Saúde trabalha numa perspectiva de entregar os resultados dos exames no prazo de 1 semana ou mais. Na verdade, esse tempo deveria ser em 24 horas ou 48 horas, no máximo”, completa o especialista.

Carlos recebeu o resultado positivo 8 dias após a coleta em um hospital particular.

O risco de estigmatização da varíola dos macacos

Outro ponto que fundamenta a necessidade da campanha de conscientização da varíola dos macacos é o risco de estigmatização da doença. Até o momento, os diagnósticos no Brasil, assim como no mundo, estão concentrados em homens.

“Por enquanto, há uma população vulnerável à disseminação. Temos observado uma frequência quase que absoluta em HSH, ou em homens que fazem sexo com homens”, explica Urbaez Brito.

O termo HSH, inclusive, foi utilizado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) ao declarar a varíola dos macacos como emergência pública de preocupação global, no dia 23 de julho.

A forma do comunicado, no entanto, gerou críticas pelo risco da abordagem gerar um estigma ao mesmo tempo em que prejudica a contenção da doença, semelhante ao que aconteceu com o HIV/Aids no início da década de 1980.

“Dentro da campanha de informação e conscientização, existe um repertório de medidas de comunicação e temos a oportunidade de agir para que se reduza a transmissão enquanto ela ainda ocorre, por sua maioria, em um grupo delimitado”, ressalta o especialista.

“Por exemplo, não se fala ‘comportamento de risco’ ou ‘grupo de risco’, porque coloca essas pessoas como responsáveis pela existência do problema e sim ‘grupo em vulnerabilidade’ ou ‘grupo alvo’. Ninguém fala que uma pessoa idosa, de 90 anos, teve um comportamento de risco ao andar e quebrar um osso se ela, por exemplo, cair. É a mesma coisa”, completa.

Apesar da concentração de casos estar dentro desse grupo, o Brasil já possui ao menos 5 casos registrados em crianças e adolescentes abaixo dos 12 anos, e outros dois em mulheres grávidas. “Daqui a pouco, todas as pessoas vão estar passíveis de infecção”, destacou David Uip, secretário de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do estado de São Paulo.

Isso porque a transmissão da varíola dos macacos não se dá somente durante o ato sexual e sim por qualquer contato, toque ou proximidade das lesões na pele, além de gotículas infectadas espalhadas no ar.

A varíola dos macacos é transmitida a partir do contato com:

lesões de pele

gotículas ou secreções respiratórias

objetos usados por pessoas infectadas

Também é possível que o vírus seja passado de mãe para filho durante a gestação, através da placenta.

“Do jeito que a informação está correndo hoje, estigmatiza muito. É como foi o início do HIV nos anos 80, quando rotularam que era uma ‘doença de gay’. Hoje tem criança com a doença. Se você, por acaso, for um homem, hétero, casado e teve contato com alguém infectado, você pode receber um rótulo de ‘ah, olha, esse aí é casado, mas se encontra com homens escondido’. Estigmatiza demais”, lamenta Carlos.

O que diz o Ministério da Saúde?

Varíola dos macacos: especialistas têm criticado a falta de coordenação do Ministério da Saúde no combate à doença. (Foto: Getty Images)

De acordo com o Yahoo Notícias, o Ministério da Saúde informou que a campanha publicitária e informativa a respeito da varíola dos macacos estará disponível “entre o meio e o fim do mês de agosto” e está “em fase final de aprovação”.

“Nós estamos pensando em uma campanha de publicidade na mídia, nas rede sociais, na TV, rádio para explicarmos cada vez mais o que é a varíola dos macacos, e como se prevenir, e qual os cuidados que devem ser tomados”, afirmou o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Medeiros, em coletiva de imprensa realizada em Brasília (DF), na sexta-feira (29).

O Ministério da Saúde anunciou a encomenda de 50 mil doses da vacina Jynneos, produzida pela famacêutica dinamarquesa Bavarian Nordic. O pedido foi feito via Opas (Organização da Saúde Pan-Americana), que prevê doses limitadas para 2022. Segundo o ministério, as doses serão destinadas para profissionais de saúde que manipulam o vírus e pessoas que tiveram contatos com infectados.

No mesmo dia 29, o Brasil confirmou seu primeiro óbito pela varíola dos macacos. O paciente, segundo o Ministério da Saúde, tinha “imunidade baixa e comorbidades, incluindo um câncer (linfoma), e que o levaram ao agravamento do quadro”. A morte foi anunciada como a primeira no mundo a acontecer fora do continente africano.

A Secretaria de Saúde de Minas Gerais, no entanto, investiga se a morte ocorreu, de fato, em decorrência das complicações da doença. A investigação, segundo a SES-MG, está sendo acompanha pela pasta federal. Questionado a respeito da investigação, o Ministério da Saúde não respondeu.

*nome fictício a pedido do entrevistado

Tags: #Varíola do MacacoHIV
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