*Com Sputnik Mundo
Desde junho deste ano, o site The Intercept Brasil está divulgando o conteúdo de milhares de mensagens trocadas por meio do aplicativo Telegram, envolvendo o atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o procurador Deltan Dallagnol, ambos figuras chave da operação Lava Jato.
A divulgação do conteúdo das conversas levantou suspeitas sobre o trabalho de Moro no período em que atuava como juiz em Curitiba e Dallagnol no âmbito das investigações de atos de corrupção e o julgamento dos acusados.
As mensagens apontam indícios de irregularidades na operação que tinha como objetivo julgar casos de suborno de empresas brasileiras e o uso indevido de recursos da Petrobrás.
As investigações resultaram na prisão de políticos brasileiros, dentre os quais o ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva.
Uma das primeiras irregularidades apresentadas pelo The Intercept seria a forma secreta com que Sérgio Moro teria colaborado com os investigadores na formulação das acusações contra Lula.
Por lei, as autoridades investigativas trabalham separadas do juiz. O magistrado não deve se envolver nos trabalhos de acusação.
TRABALHO DESAFIADOR
O detalhamento das mensagens transformou-se em um verdadeiro desafio para uma pequena equipe de profissionais. Com apenas dez jornalistas, o The Intercept passou a enfrentar ameaças e muita pressão do governo.
Bem antes da #VazaJato, em 2016, a equipe liderada por Andrew Fishman, editor do The Intercept, em 2016, já tinha iniciado uma grande aventura no jornalismo investigativo.
“Em 2016, quando estava em curso o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Congresso, publicamos um artigo que foi visto por mais de 400 mil vezes. Em pouco tempo, 15% de nossa audiência se tornou brasileira e recebemos centenas de e-mails pedindo para abrirmos um site no Brasil”, disse Fishman em entrevista à Sputnik Mundo.
Com a Vaza Jato, nome dado ao vazamento das mensagens, o site atingiu grande audiência. O número de inscritos cresceu consideravelmente, enquanto gigantes da mídia, como a Folha de São Paulo, Veja, El País e o Buzzfeed, começaram a cooperar com o The Intercept.
Esta teria sido a segunda maior investigação do site depois da divulgação das revelações feitas por Edward Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, sobre as operações de vigilância dos EUA no mundo.
A investigação rendeu a Glenn Greenwald, um dos fundadores do The Intercept, o prêmio Pulitzer, considerado o Oscar do jornalismo.
TRABALHO DESAFIADOR
Embora o The Intercept ganhasse notoriedade, muitos desafios vieram pela frente. Mesmo diante da pressão do governo e ações de intimação, os jornalistas continuaram seu trabalho acreditando que a verdade seria a sua melhor defesa.
O caminho mais seguro foi checar a integridade do conteúdo vazado antes de torná-los público. A equipe teria verificou cuidadosamente as mensagens, evitando assim qualquer manipulação.
“Uma pessoa teria que levar anos para criar toda essa informação. Não há evidência de nenhum tipo de manipulação e há áudios com as vozes de todos eles, de maneira que fabricar essas gravações seria impensável”, acrescentou Fishman.
A reação do governo foi mais no campo das palavras do que com violência. No entanto, a guerra informacional pode ser muito daninha. Fishman lembrou durante a entrevista que sua equipe foi chamada de “criminosa”, “cúmplice de hackers”, assim como teriam sofrido ameaças de prisão.
Além disso, uma de suas conversas em um bar teria sido gravada e editada para desacreditar o grupo.
FALSO COMBATE À CORRUPÇÃO
Uma das últimas revelações do The Intercept seria a parcialidade de agentes públicos na Lava Jato.
“Dallagnol tinha sete casos contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas usou a única que já havia prescrito, sabendo que não chegaria a lugar nenhum, para que a imprensa não dissesse que ele não era imparcial”, conta Fishman.
Ao mesmo tempo, Dallagnol teria dito em uma de suas mensagens que lamenta ter que investigar bancos. Ao mesmo tempo, ele teria recebido grandes quantias de dinheiro de palestras feitas para certos bancos.
“Eles tinham favoritos e decidiram não ir atrás de certos casos e de certas pessoas, assim como os bancos […] esta é mais uma das muitas peças de evidência que temos de que estavam abusando de seu poder”, realçou o jornalista.
TECNOLOGIA E FAKE NEWS
Durante a corrida presidencial de 2018, a difusão de fake news no WhatsApp sobre diferentes candidatos teria dado vantagem ao candidato Bolsonaro, segundo Fishman. Para ele, tal estratégia foi financiada por milhões de dólares.
No entanto, o jornalista diz que notícias falsas não é uma coisa nova. A manipulação da propaganda está presente na história da política há muito tempo. O fator diferenciador seriam as tecnologias de comunicação presentes no atual século.
Fishman diz que o mais importante não é desvendar as mentiras difundidas, mas descobrir a fonte do dinheiro que financia as mentiras.








