O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que organizações classificadas pelo governo norte-americano como terroristas poderão ser consideradas “alvos legítimos” em operações realizadas em parceria com países da América Latina. A declaração foi feita durante uma agenda no Panamá e amplia a discussão sobre o alcance da nova estratégia de Washington contra o crime organizado na região.
A fala tem repercussão direta para o Brasil porque o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho foram incluídos, em junho, na lista norte-americana de Organizações Terroristas Estrangeiras, conhecida pela sigla FTO. As duas facções também possuem a classificação de Terroristas Globais Especialmente Designados, ou SDGT.
Isso não significa, porém, que os Estados Unidos tenham anunciado ataques ao PCC ou ao CV em território brasileiro. Hegseth falava sobre operações coordenadas com governos parceiros e respondia a uma pergunta relacionada especificamente à possibilidade de ações militares conjuntas na Colômbia.
O tema surgiu depois que o novo governo colombiano autorizou operações militares conjuntas com os Estados Unidos no combate a grupos armados ligados ao narcotráfico. Entre os possíveis alvos estão o Exército de Libertação Nacional e dissidências das antigas Farc, organizações que atuam no território colombiano e também possuem designações relacionadas ao terrorismo em Washington.
Questionado sobre a possibilidade de ataques conjuntos, Hegseth confirmou que o assunto havia sido discutido e afirmou que organizações terroristas designadas poderiam ser tratadas como alvos pelos Estados Unidos quando houvesse cooperação com o governo do país envolvido.
A declaração faz parte de uma política mais ampla do governo Donald Trump para aproximar a luta contra o narcotráfico das estratégias tradicionalmente utilizadas no combate ao terrorismo. Desde o início do atual mandato, a Casa Branca ampliou mecanismos para permitir que cartéis e outras organizações criminosas transnacionais sejam enquadrados como ameaças à segurança nacional.
No caso brasileiro, a mudança de classificação ocorreu em duas etapas. No fim de maio, PCC e Comando Vermelho foram enquadrados pelo Departamento do Tesouro como Terroristas Globais Especialmente Designados. Em 5 de junho, a lista oficial foi atualizada para incluir também a classificação como Organizações Terroristas Estrangeiras.
Na prática, a medida amplia as ferramentas jurídicas e financeiras disponíveis aos Estados Unidos. Pessoas e empresas vinculadas às organizações podem enfrentar bloqueio de ativos sob jurisdição norte-americana, restrições financeiras e outras sanções. A classificação também aumenta as consequências para quem fornece apoio material aos grupos.
O governo norte-americano já vinha adotando medidas financeiras contra o PCC antes da nova classificação. Em julho, o Departamento do Tesouro anunciou sanções contra pessoas e empresas apontadas como integrantes de uma rede ligada à facção e afirmou que o grupo representa uma ameaça crescente à segurança dos Estados Unidos.
A nova postura, entretanto, vai além do bloqueio financeiro. Nesta semana, Trump também autorizou a criação de um programa que poderá permitir a empresas privadas norte-americanas participar de operações cibernéticas contra organizações criminosas transnacionais. PCC e CV estão entre os grupos que podem ser alcançados por esse tipo de iniciativa.
Mesmo assim, uma eventual ação militar dentro do Brasil envolveria questões muito mais complexas relacionadas à soberania nacional, ao direito internacional e à necessidade de autorização ou cooperação do governo brasileiro. A declaração de Hegseth, portanto, não deve ser interpretada como autorização automática para que forças norte-americanas atuem no país.
Por enquanto, o movimento mais concreto ocorre na Colômbia. O país aderiu ao chamado Escudo das Américas, coalizão liderada pelos Estados Unidos para ampliar a cooperação contra narcotráfico, terrorismo e organizações criminosas transnacionais. Washington também anunciou US$ 1 bilhão em assistência de segurança ao novo governo colombiano.
A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas eleva, no entanto, o grau de pressão internacional sobre as duas maiores facções brasileiras. Além das consequências financeiras já existentes, elas passam a integrar formalmente o mesmo conjunto de organizações que o governo norte-americano afirma poder tratar como alvos de sua estratégia antiterrorismo — desde que as condições políticas e jurídicas para uma operação estejam presentes.
*Da Agência Fonte Exclusiva








