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Brasileira tem black power examinado em aeroporto na Itália

Gessica Borges retornava de uma viagem à Roma com o namorado, Rodrigo Gonzalez, quando foi parada no aeroporto

redacao Por redacao
24/10/2021 - 18:39
em Política
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Brasileira tem black power examinado em aeroporto na Itália: “Como se tivesse levado um tapa”

Gessica Borges (Foto: Reprodução / Instagram)

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Gessica Borges, de 30 anos, estava voltando de uma viagem à Roma, em comemoração aos 7 anos de namoro com Rodrigo Gonzalez. A redatora, que vive há quatro anos em Portugal, passou por uma situação constrangedora no aeroporto, enquanto seguida para a sala de embarque da companhia aérea.

A brasileira contou que na hora de passar pela segurança do aeroporto de Roma, ouviu um apito e foi impedida de seguir por uma funcionária do aeroporto, que pediu permissão para “checar” seus cabelos.

“A segurança ficou apalpando ele um tempo, procurando para ver se sentia algo. Não sei quanto tempo se passou, um minuto talvez, mas pareceu muito mais”, contou. “Eu realmente não estava acreditando naquilo, fiquei estática, torcendo pra acabar logo, me sentindo um objeto sem vida, apesar do coração disparado. Eu senti que aquilo era errado, mas não consegui dizer nada, porque temi que, se reclamasse, a situação se agravaria pro meu lado”, relatou à Marie Claire.

Esta foi a primeira vez que passou por uma situação preconceituosa em um aeroporto. No entanto, ela lembra que já vivenciou situações semelhantes em outros lugares. “Onde moro, sou seguida por seguranças de supermercado com alguma frequência, raramente me sinto à vontade. Uma vez saindo de uma loja, no shopping, a porta apitou, tive que mostrar as sacolas, as notas fiscais, precisei tirar a blusa, a bota, passar na porta várias vezes só de meias para provar que não tinha roubado nada”, lamentou.

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Confira o relato na íntegra:

“Eu estava voltando de uma viagem para Itália, que fiz com o meu namorado, Rodrigo (Rod), em comemoração aos nossos 7 anos de namoro. Foi na última quarta-feira, dia 20 de outubro. Na hora de passar na parte da segurança do aeroporto de Roma, fui na frente e Rod atrás.

Quando passei no detector, ele apitou. Apesar de ser supercuidadosa com a minha bagagem, deixar sempre líquidos e aparelhos eletrônicos separados, não usar nada de metal no corpo, sempre sou parada. Por isso, não estranhei. Ali mesmo no detector, a segurança (mulher, branca) perguntou se eu falava italiano ou inglês, respondi inglês, então ela pediu que eu esticasse as mãos, passou uma fitinha branca nelas, colocou numa máquina e depois disse: ‘Preciso checar o seu cabelo’. Eu arregalei os olhos, porque achei superestranho, mas tudo estava acontecendo muito rápido, e a fila atrás estava esperando. Eu respondi, relutante: “ok”. Olhei pro Rodrigo, que estava logo atrás de mim, com cara de assustada e disse “Babe!” querendo dizer “não acredito no que estão fazendo!”. Ele não soube o que fazer também, penso que não se deu conta do que estava acontecendo.

A segurança passou a tal fitinha branca no meu cabelo, e depois ficou o apalpando por um tempo, procurando para ver se sentia algo. Não sei quanto tempo se passou, um minuto talvez, mas pareceu muito mais.

Eu realmente não estava acreditando naquilo, fiquei estática, torcendo pra acabar logo, me sentindo um objeto sem vida, apesar do coração disparado. Eu senti que aquilo era errado, mas não consegui dizer nada, porque temi que, se reclamasse, a situação se agravaria pro meu lado. Ser uma pessoa negra na Europa não é uma coisa tranquila, então muitas assumimos a postura de “melhor não arrumar confusão”, com medo de ser mal interpretada, de sofrer represália, qualquer coisa do tipo.

Quando a segurança parou de mexer no meu cabelo, disse que era pra eu ir pra uma outra moça, que informou que precisava abrir minha mochila. Perguntou para onde eu ia, eu respondi “Portugal, eu moro lá.”. Ela não respondeu, passou de novo as tais fitas na minha bolsa, mas só olhou a superfície, tudo bem rápido, depois disse que estava OK, que eu podia seguir.

Naquele momento, eu estava revoltada, ofendida. Rodrigo, que é branco, não foi parado, estava me esperando naquelas mesas onde a gente pode arrumar as bolsas. Olhou pra mim e perguntou “o que aconteceu?”, respondi “nada… Ou o de sempre”. Não sabia mais o que dizer. Só queria me afastar daquele espaço, como se pudesse me afastar da humilhação.

Todo o resto do tempo antes de embarcarmos eu fiquei quietinha, tentando não pensar no assunto. Fiquei tentando justificar a atitude: é procedimento padrão / realmente você poderia estar escondendo algo no cabelo / etc, etc… Mas depois vi que não fazia sentido. Quantas pessoas brancas podem dizer que tiveram seus cabelos revistados/apalpados na revista do aeroporto? Por que é tão comum, para nós, pessoas negras, sermos paradas neste tipo de situação?

Quando já estávamos no ar, voando, a cena veio de novo na minha mente e o gatilho foi enorme. Tive que controlar o choro porque estava sentada entre duas estranhas e me senti envergonhada. Lembrei de outras situações de racismo que vivi, perseguições no supermercado, pessoas tocando no meu cabelo sem autorização, nomes pejorativos que já me chamaram, olhares desconfortáveis… Acabei deixando a dor escoar um pouquinho, chorei baixinho, me sentindo sozinha. Por isso até depois decidi partilhar, porque sei que não estou sozinha.

Eu alisei meu cabelo dos 11 até os 24 anos de idade e, depois da transição, foram mais alguns anos para aceitar que ele é bonito assim. Que eu sou bonita assim. Que eu não preciso machucar o meu couro cabeludo com química para tentar evitar que as pessoas me machuquem. Mas ainda assim essa situação doeu como se tivesse levado um tapa”.

Gessica Borges e Rodrigo Gonzalez (Foto: Reprodução / Instagram)

Seguida no mercado

“Foi a primeira vez que aconteceu de pedirem para revistar o meu cabelo. Mas, como disse antes, é muito comum eu ser parada em aeroportos, aqui da Europa especialmente. Onde moro, sou seguida por seguranças de supermercado com alguma frequência, raramente me sinto à vontade (e, quando sinto, geralmente estou com o Rod — que é um homem branco — do meu lado.

Como se a presença dele pudesse proteger ou validar a minha). Uma vez saindo de loja, no Shoping Alameda, no Porto, a porta apitou, tive que mostrar as sacolas, as notas, tirar a blusa, tirar a bota, passar na porta várias vezes de meia pra provar que não tinha roubado nada. Me senti péssima também.

Eu sinto que vivo num constante estado de alerta. Meu coração acelerou de um jeito que até parecia que estava fazendo algo errado. Inclusive, ao sair do hotel antes de ir pro aeroporto de Roma, pensei: tô pouco “arrumada”, meu cabelo tá muito volumoso, isso pode dar problema por aí. Infelizmente, é uma preocupação que tenho sempre que saio de casa. O medo de ser julgada, incriminada, maltratada, me faz pensar demais na minha aparência, em que tipo de coisa estou carregando na bolsa, no meu comportamento, gestos, maneiras. Evito abrir bolsa dentro de lojas pra pegar alguma coisa, por exemplo.”

Um desejo

“Que as estruturas sociais, políticas e econômicas não permitissem que as pessoas fossem maltratadas ou feridas por serem diferentes. Mas o sistema permite, e inclusive estimula essa discriminação. Se depender das pessoas, a mudança pode levar muito mais tempo, ou não acontecer nunca. São raras as que saem do seu lugar de privilégio e repensam o mundo em volta. É por isso que — quando coisas desse tipo acontecem, e pelo que recebi de mensagem, não são raras as vezes — sempre terá alguém para encontrar uma justificativa que minimize a experiência de sofrimento.”

Tags: #AeroportosRacismo
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