Comissão de Direitos Humanos da Câmara pede que o Procurador Rodrigo Janot receba denúncias, cita prisão abusiva e diz que apura denúncias de ameaças
E meio as delações da Operação Lava Jato existem denúncias complementares e anteriores aos escândalos que atualmente pipocam nos noticiários. Elas trarão consequências imprevisíveis no cenário político do Estado do Rio de Janeiro. Um desses ingredientes indigestos para investigados é o dossiê com milhares de páginas que está em poder do ex-governador do Rio, Anthony Garotinho e encaminhado aos órgãos de controle externo. É algo devastador.
Na última sexta-feira (16/12), o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, o deputado Padre João (PT-MG), enviou ofício ao Procurador Geral da República (PGR), Rodrigo Janot, solicitando que receba documentação com denúncias do ex-governador.
PETIÇÃO INICIAL da notícia-crime protocolada pelo ex-governador Anthony Garotinho na Procuradoria Geral da República, no dia 4 de novembro deste ano | Foto: blog do Garotinho
O material descreve o modus operandi de uma organização criminosa com comando e ramificações nos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e em alguns órgãos de controle externo, como o Ministério Público do Estado do Rio. São ao todo 27 denunciados numa notícia-crime protocolada no dia 4 de novembro na PGR.
Em postagem em seu blog neste domingo (18/12), Garotinho destaca que “em 2012 deu entrada numa notícia-crime contra Sérgio Cabral e outros junto à Procuradoria Geral da República em Brasília”.
Na época, segundo ele, ainda exercia mandato deputado federal. “Àquela época denunciei a maioria dos fatos que levou o ex-governador e parte de sua quadrilha a ser presa em duas operações, Calicute e Lava Jato”, destaca Garotinho.
No dia 4 de novembro, portanto, 13 dias antes da Operação Calicute, o ex-governador diz ter retornado à Procuradoria em Brasília para saber as providências que tinham sido tomadas em relação às denúncias de 2012.
“Para minha surpresa e dos meus assessores, Thiago Godoy e Daniel Jorge, lotados no meu gabinete de deputado federal na época da primeira denúncia, fui informado que não havia sido encontrada em nenhuma gaveta da PGR a documentação que entreguei em 2012. Para não ser uma viagem perdida fui ao gabinete da minha filha, deputada Clarissa Garotinho, no próprio dia 4 e reimprimi as denúncias de 2012, acrescentando alguns fatos novos e mais nomes envolvidos nas falcatruas”, disse.
DENUNCIADOS POR GAROTINHO
ANTHONY GAROTINHO, em 2012, na Câmara dos Deputados, quando encaminhou denúncias contra o então governador Sérgio Cabral e parte do grupo que foi preso na Operação Calicute, no Rio de Janeiro. Neste domingo (18/12), o governador comentou o episódio em seu blog e manifestou preocupação com a própria segurança. Garotinho também lembra que entre os denunciados constam o nome de Pezão e Luiz Zveiter: “No dia 28 de novembro o Subprocurador Geral da República, José Bonifácio Borges de Andrada me envia um documento datado do dia 28 de outubro de 2016 afirmando que a documentação não encontrada no dia 4 de novembro havia sido analisada e enviada para o Rio de Janeiro já que naquela ocasião (2012) o único dos denunciados por mim que detinha foro de prerrogativa, Sérgio Cabral, não era mais governador, e os documentos tinham que ser analisados agora pela Procuradoria no Rio. Esqueceu o nobre Subprocurador de falar dos documentos entregues no dia 4 de novembro que contém denúncias graves contra duas pessoas com foro de prerrogativa, o atual governador Pezão e o desembargador Luiz Zveiter. Entendo o momento complicado e atribulado que a PGR vive com centenas de delações, denúncias pipocando no Brasil inteiro, mas os fatos levados por mim são gravíssimos do ponto de vista criminal, e creio que também provocaram uma reação com sérias consequências para a minha integridade física pessoal”.
Sérgio Cabral (já preso)
Luiz Fernando Pezão
Regis Fichtner
Wilson Carlos (já preso)
Sérgio Côrtes
José Mariano Beltrame
Hudson Braga, o Braguinha (já preso)
Carlos Emanuel, o Avestruz (já preso)
Wagner Victer
Armando Costa Vieira Júnior
Andrea Pereira Neves
Adriana Ancelmo (já presa)
Jorge Picciani
Paulo Melo
Eduardo Paes
Luiz Carlos Bezerra (já preso)
Hans Dohnan
Fernando Cavendish (já preso)
Rodrigo Bethlem
Arthur Cesar de Meneses Soares Filho, o Rei Arthur
George Sadala
Ronald de Carvalho
O EX-PRESIDENTE do TJ, Luiz Zveiter é um dos denunciados na notícia-crime encaminhada pelo ex-governador do Rio
Cesar Romero Viana Júnior
Nelson Côrtes
Ary Ferreira da Costa Filho, o Aryzinho
Desembargador Luiz Zveiter
TESTEMUNHAS ARROLADAS
OFÍCIO ENVIADO pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ao Procurador Geral da República Rodrigo Janot
A denúncia arrola diversas testemunhas, algumas delas já presas. Garotinho pede a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico de 104 pessoas e empresas, entre elas, Maurício Cabral (irmão do ex-governador), H. Stern, Cristina Bonner (dona da Investiplan, que participou do Mensalão do Distrito Federal e que comandou o Rio Poupa Tempo junto com George Sadala), Coelho e Ancelmo Advogados Associados, Werner Coiffeur, Termas Monte Carlo, Terma Solarium Ltda, Pedro Lino da Câmara e Souza, Lavouro Factoring, Saquarema Vip Serviços Especiais, Agrobilara Comércio e Participações, além de outros.
O Rio de Janeiro vive um momento turbulento por conta da falência da administração Estadual e uma investigação ampla, geral e irrestrita que ainda poderá provocar a prisão de vários figurões da política fluminense. Na condição de denunciante, o ex-governador já teme pela própria segurança e não é por menos.
“Os fatos levados por mim são gravíssimos do ponto de vista criminal, e creio que também provocaram uma reação com sérias consequências para a minha integridade física pessoal”, disse.
No documento enviado a PGR, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara pede cita ao Procurador Geral da República o episódio envolvendo a remoção do ex-governador da enfermaria do Hospital Souza Aguiar para o Complexo Penitenciário de Bangu, por determinação do juiz Glaucenir Silva de Oliveira e a execução do mandado por parte de agentes da Polícia Federal sob o comando do delegado Paulo Cassiano, atuação que abusou da truculência.
A Operação Lava Jato, que já produziu filhotes como a Operação Calicute, é daquelas invernadas que todos poderão lembrar o dia, hora e local em que começou, mas que é impossível precisar data, hora e local para terminar.