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Desenvolvimentismo tocado a todo custo

redacao Por redacao
02/11/2016 - 17:45
em Cidade
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Apesar dos brutais avanços das tecnologias do conhecimento e da informação, jovens jornalistas continuam seduzidos pelo discurso do “progresso”

Por Martinho Santafé

O primeiro jornal que trabalhei foi O Fluminense em Niterói, em meados de 1970, alguns meses antes de entrar na faculdade, preenchendo duas páginas semanais sobre educação e aprendendo a driblar a censura, pois priorizava a cobertura dos diretórios acadêmicos da UFF que eram focos da resistência contra a ditadura no antigo RJ. Nunca sofri censura da direção do jornal em mais de uma década de trabalhos sobre diversos temas, apesar do conservadorismo de sua linha editorial. Testemunhei naquela época alguns shows memoráveis interrompidos no meio por agentes do temido DOPS, como os de Chico Buarque e de Milton Nascimento no DCE, com tentativas mal sucedidas de entrevistá-los, pois não havia clima, apenas raiva, frustração e falta de perspectiva para um futuro que demoraria a chegar.

Na imagem acima | Porto do Açu, no 5º Distrito de São João da Narra, no Norte Fluminense: empreendimento provocou degradação ambiental e desalojou centenas de pequenos produtores rurais, que tiveram terras desapropriadas sem receber indenização do Estado

Alguns anos depois, retornando ao Brasil após um breve exílio voluntário, fui convidado pelo mesmo jornal a fazer o que considero um dos conjuntos da obra mais consistentes de minha carreira profissional: o Plantão de Municípios. Vivíamos o período de pós-fusão e o discurso oficial era de que os antigos estados do Rio e Guanabara deslanchariam social e economicamente com a integração que se vislumbrava. Era a fase do “Pra frente, Brasil” e do “Ame-o ou deixe-o”.

Acompanhado de motorista e fotógrafo, viajei por dois anos, duas vezes por semana, conhecendo todos os municípios e a maioria dos distritos fluminenses, escutando pessoas, revirando “causos” escondidos, abordando as características econômicas, sociais, culturais, ambientais e, de quebra, escrevendo uma página extra para a edição de domingo sobre algo curioso ou relevante que “descobria” nos locais visitados.

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No decorrer deste longo trabalho, acabei por desmistificar o discurso dos que defendiam a fusão, pois estava acontecendo exatamente o contrário: as cidades do interior se esvaziaram mais rapidamente, o campo perdeu centenas de milhares de trabalhadores, os recursos públicos quase nunca chegavam e barbaridades contra o meio ambiente foram cometidas em nome do “progresso” que beneficiava grupos restritos e, consequentemente, ampliava as desigualdades.

E desde então fui me “vacinando” contra a sedutora ideologia desenvolvimentista que tantos males causou e vem causando ao estado, ao país e à vida no planeta. Lamentavelmente, depois de tanto tempo na estrada, e apesar dos brutais avanços das tecnologias do conhecimento e da informação, vejo que jovens jornalistas continuam seduzidos pelo discurso do “progresso” ao abordarem determinados temas de relevância socioeconômica e ambiental sem o mínimo de senso crítico.

Dentre os exemplos deploráveis, cito um que ocorreu recentemente: um repórter noticiou a perspectiva de construção de mais um porto na região, dessa vez no litoral de Carapebus, sem questionar que a área mencionada está situada exatamente no meio do Parque Nacional de Jurubatiba. Seria o mínimo que o profissional deveria fazer… E também a maciça cobertura jornalística “oficial” sobre o super-porto do Açu, quando a grande maioria dos repórteres mencionou a possibilidade de transformar o quinto distrito de São João da Barra num novo “eldorado do emprego e do desenvolvimento”, sem citar as arbitrariedades cometidas contra pequenos agricultores e os crimes contra o meio ambiente.

E agora a cena se repete em relação ao terminal portuário de Macaé. Poucos são os profissionais do jornalismo que ousam questionar o que esse mega empreendimento irá significar para a configuração urbanística e social da cidade e os riscos que trará para o meio ambiente de seu entorno. Sabemos que hoje a censura é mais sutil (às vezes nem tanto), mas é preciso dar asas à ousadia. Ou seria melhor mudar de profissão!

PS: Para refletir: Se petróleo fosse uma solução socioeconômica tão óbvia quanto parece, o Estado do Rio de Janeiro e a maioria dos municípios da nossa região não estariam falidos!

*Martinho Santafé é jornalista

Tags: DegradaçãoDesenvolvimentoMacaé-RJPorto
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