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Que saudade da procissão, fogueiras e bandeiras de São João 

Entenda como os preparativos da festa caipira unia diferentes famílias na cidade de Campos, no interior do Estado do Rio

João Vicente Por João Vicente
27/06/2020 - 10:55
em Cultura
A A
Festa de São João

Foto: Agência Brasil

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Quantos balões caberiam nos céus na noite de São João? É verdade que as estrelas seriam engolidas pelas bandeirinhas? Olha o balão! Ele está subindo, é muito grande e bonito. A lua poderá desaparecer! Quem vai proteger a Lua? 

Eram perguntas e preocupações que eu alimentava dentro de mim, como um segredo que não seria revelado nunca. Um problema de cosmologia que me acompanhava ao longo do ano, na capacidade que fora possível a um menino de 9/10 anos de idade, e explodia com os festejos juninos.

Os preparativos para o encontro na festa popular demandavam dois meses de antecedência. Os adultos estavam sempre empenhados em realizar a melhor festa a cada ano, sem se esquecer dos balões, bandeirinhas, a fogueira e a queima de fogos, ponto alto da festa.

Os detalhes da festa eram enumerados em itens e sempre checados, até às vésperas do acontecimento:

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  • Fechar a rua;

  • Armação da fogueira
  • Acender a fogueira
  • Os fogos de artifício
  • As batatas para assar
  • Esticar as bandeirinhas
  • Confecção dos balõezinhos
  • Preparar o espaço para dançar a quadrilha
  • Erguer as barraquinhas
  • As roupas (um detalhe: a saia das moças não poderiam estar acima dos joelhos)

  • Os músicos

  • O ensaiador

Nada podia dar errado! Nada se surpresas e improvisos! Na rua Silva Pinto (Campos (RJ), rua sem saída, com início na Rua João Maria e interrompida pela chácara de Dr. Mary Fernandes, se transformava num enorme salão para bailes. Esse acidente topográfico facilitava o controle do espaço e a sua ornamentação. Éramos cinco famílias à frente da organização da festa – nossa família, a família Terra, a família Coelho, Seu Nelson e a família Quintanilha. 

Cada qual, com sua tarefa específica. Minha família cedia o terreno de frente da residência, onde acontecia o baile da quadrilha; a família Terra se encarregava dos balões e bandeirnhas que, coladas em um barbante, era esticado, cobrindo toda a área da festa; a família de seu Nelson era quem estendia as bandeirinhas e os balões; a família Quintanilha armava a fogueira com muito zelo, porque ela deveria queimar até nos longes da madrugada. 

Usava todas de madeira e, no  momento de ser acendida, todos se reuniam a sua volta, como num ritual de forte emoção. As batatas e os milhos já estavam preparados para ir à fogueira. A família Quintanilha cuidava do foguetório também. 

A fogueira ardia soltando gigantes labaredas, e as chamas se alteavam ao som de seus estalido. Não era só acender a fogueira. Sua manutenção exigia prática e técnica, acumuladas de alguns tantos anos de festeiro.

Movidos por muita ansiedade, estávamos mergulhados no dia 24 de junho, Dia de São João, primo de Cristo, nascido seis meses antes do Salvador. São João é o único santo, cujo nascimento é lembrado, além de sua morte (29 de agosto). Tudo isso fazia que nos considerássemos muito importantes e protegidos do mal. Éramos convidados assíduos na festa do aniversário do primo de Cristo. Quanta alegria e entusiasmo para saudar o santo!

Não se via nenhum sinal de manifestação de sincretismo religioso. Ainda não se falava de inclusão e nem de respeito às minorias religiosas, principalmente as de matriz africana. No Candomblé, São João é o mesmo Xangô, Orixá da Justiça. 

PROCISSÃO RELIGIOSA 

A procissão em seu louvor, que reunia centenas de fiéis, saía da Igreja do Bairro do Capão, acompanhada por uma banda que dava o ritmo daquela enorme fileira de homens, mulheres, crianças, jovens e idosos. Uma sincera demonstração de fé, levando o andor com o Santo, que mais parecia flutuar. 

A plateia que se formava nas margens da rua, pia e reverente, batia Palmas para São João e gritavam vivas. A procissão começava a se movimentar às 19h e a festa na Silva Pinto iniciava às 20h.

A quadrilha já estava a postos para o primeiro sinal do marcador. Dado o sinal, as meninas segurando a barra da saia, de braços dados com os cavalheiros  numa movimentação bonita e sensua,, espontânea, “pra frente, pra trás” – “a anavan, anarriê, tu balançê…” A euforia tomava o coração de toda a gente. As crianças preferiam soltar estalinhos nos pés da meninas e senhoras, correndo entre as barracas de doces e quitutes, e em torno da fogueira. 

Em meio a essa descontração, eu ainda era capaz de cismar com o que se estampava diante dos meus olhos: as bandeirinhas e os balões poderiam definitivamente cobrir os céus, fazendo desaparecer o brilho das estrelas e a lua ser reduzida a um pequenino ponto de luz. 

Por mais bonitos que fossem as bandeirinhas e os balões, não gostava da ideia de o brilho das estrelas desaparecer e a lua se transformar num minúsculo ponto de luz. Diziam que eram chegados os tempos, o fim do mundo. Isso me dava medo.

A sanfona não parava de se encolher e se esticar entre as mãos do sanfoneiro. Tinha também a viola, o triângulo e a gaita. Com tão pouco, se conseguia tudo! A quadrilha triunfava e rufava no quintal de nossa residência, que recebia os convidados com muito carinho e acolhida.

Nesse momento, a trilha sonora era a conhecida canção de Lamartine Babo, quando eu recobrava a certeza de que as estrelas não sumiriam do céu e nem a lua ficaria pequenina.

Chegou a Hora da Fogueira

*Lamartine Babo  

Chegou a hora da fogueira!

É noite de São João…

O céu fica todo iluminado

Fica o céu todo estrelado

Pintadinho de balão…

**

Pensando na cabocla a noite inteira

Também fica uma fogueira

Dentro do meu coração…

**

Quando eu era pequenino

De pé no chão

Eu cortava papel fino

Pra fazer balão…

E o balão ia subindo

Para o azul da imensidão…

**

Hoje em dia o meu destino

Não vive em paz

O balão de papel fino

Já não sobe mais…

O balão da ilusão…

Levou pedra e foi ao chão…

Tags: #FestaJunina#TradiçãoCampos-RJ
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