O ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro Felipe Curi será entrevistado nesta quarta-feira, dia 4 de agosto, a partir das 7h30, no programa Direto da Redação. A conversa será conduzida pelos jornalistas Roberto Barbosa e Fabrício Cabral e terá como tema central o avanço da chamada narcocultura e seus impactos sobre crianças, adolescentes e comunidades dominadas pelo crime organizado.
Curi, que atualmente é pré-candidato a deputado federal pelo PP, integra o grupo de 11 autores do livro “A Narcocultura — O Brasil Sob o Império do Crime”. A obra foi lançada no dia 13 de julho, na Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, e reúne artigos sobre a expansão de manifestações culturais que promovem a glorificação de criminosos, armas e organizações ligadas ao tráfico de drogas.
No capítulo “A Narcocultura e o Genocídio Ideológico de uma Geração”, Felipe Curi sustenta que o fenômeno não deve ser tratado apenas como uma estética musical ou audiovisual. Para ele, trata-se de um instrumento usado pelas facções para ampliar sua influência, fortalecer o controle territorial e conquistar a identificação de jovens com o universo do crime.
O artigo afirma que determinadas produções transformam criminosos em símbolos de poder, sucesso e pertencimento. Nesse ambiente, a violência armada passa a ser normalizada, enquanto o dinheiro, as armas e os bens de luxo são apresentados como sinais de prestígio.
Segundo Curi, esse processo ultrapassa o entretenimento e passa a funcionar como uma estratégia de dominação. O autor considera que a repetição dessas mensagens em músicas, vídeos, festas clandestinas e redes sociais contribui para moldar comportamentos e enfraquecer a presença simbólica do Estado nas comunidades.
Origem do debate está no México
O conceito de narcocultura ganhou destaque inicialmente no México, onde cartéis passaram a ocupar espaços na música, no cinema, na literatura e até em manifestações religiosas.
Um dos exemplos citados no artigo é o narcocorrido, gênero musical que começou narrando histórias de fugitivos, pistoleiros e conflitos. Com o fortalecimento dos cartéis mexicanos, parte dessas produções passou a exaltar líderes do tráfico e episódios ligados ao transporte de drogas.
Curi observa que a realidade brasileira possui características próprias, mas apresenta sinais de aproximação com o modelo mexicano, sobretudo na utilização da cultura e das redes sociais como formas de propaganda.
No Rio de Janeiro, vídeos com homens armados, letras que homenageiam integrantes de facções, clipes gravados em territórios dominados e festas realizadas sob controle do tráfico seriam algumas das expressões dessa estrutura.
O autor também relaciona os bailes clandestinos realizados em áreas controladas por organizações criminosas a práticas de lavagem de dinheiro, recrutamento, propaganda e fortalecimento da autoridade das facções.
Redes sociais ampliam alcance
As plataformas digitais ocupam posição central nesse processo. De acordo com o artigo, imagens de criminosos exibindo fuzis, dinheiro e produtos de luxo alcançam milhões de visualizações e apresentam o ingresso nas facções como uma possibilidade de reconhecimento.
Para Curi, a propaganda se torna especialmente perigosa quando chega a crianças e adolescentes que não encontram oportunidades, segurança ou referências em outras instituições.
A adesão não acontece apenas pela coerção armada. Ela também pode ser construída por meio da busca por identidade e pertencimento, em um ambiente no qual a facção se apresenta como fonte de poder, proteção e status.
O texto sustenta que a narcocultura também interfere na percepção sobre o trabalho das forças de segurança. A repetição de narrativas que colocam integrantes de organizações criminosas como heróis e agentes públicos como inimigos contribuiria para aumentar a resistência às operações policiais.
Combate deve ir além da repressão
Apesar de defender ações firmes contra o crime organizado, Felipe Curi afirma que o enfrentamento não pode se limitar às operações policiais e à prisão de líderes das facções.
O artigo propõe uma atuação integrada entre segurança pública, educação, assistência social, comunicação e políticas de desenvolvimento. O objetivo seria oferecer às crianças e aos jovens outras referências, oportunidades e formas de pertencimento.
Entre as medidas defendidas estão o fortalecimento das escolas, a criação de programas educativos, o apoio a iniciativas culturais e a ampliação das ações de prevenção.
Na avaliação apresentada no livro, o Estado precisa disputar o espaço emocional e simbólico ocupado pelas facções. A retirada das armas e a prisão dos criminosos seriam partes essenciais desse trabalho, mas insuficientes sem a desconstrução das narrativas que transformam o crime em modelo de vida.
Durante a entrevista no Direto da Redação, Curi deverá abordar a origem do conceito, a experiência acumulada durante sua passagem pelo comando da Polícia Civil do Rio e as medidas que considera necessárias para impedir que organizações criminosas ampliem a influência sobre uma nova geração.
O programa será transmitido a partir das 7h30, com apresentação de Roberto Barbosa e participação do jornalista Fabrício Cabral.
*Da Agência Fonte Exclusiva.







