Um vídeo gravado antes do encerramento de uma ação eleitoral envolvendo Wladimir Garotinho e o deputado estadual Bruno Dauaire voltou a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens em Campos dos Goytacazes. Compartilhado sem a data e sem o resultado do processo, o conteúdo tem levado parte do público a acreditar que se trata de uma denúncia ou decisão judicial recente.
O material recupera acusações relacionadas às eleições gerais de 2018, quando Wladimir disputou uma vaga de deputado federal e Bruno Dauaire concorreu à reeleição para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Apesar da nova repercussão, o caso já foi analisado pela Justiça Eleitoral. Em dezembro de 2021, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro julgou a ação improcedente e absolveu Wladimir e Bruno, por unanimidade, das acusações de captação ilícita de votos e coação eleitoral.
Entenda a origem do processo
A Ação de Investigação Judicial Eleitoral, conhecida como AIJE, foi apresentada pelo diretório estadual do PSOL e pela coligação Mudar é Possível, formada por PSOL e PCB.
Na ação, os autores sustentavam que integrantes da campanha teriam participado de uma suposta estrutura de compra de votos e obtido apoio de criminosos para realizar atividades eleitorais em áreas de Guarus, especialmente no Parque Eldorado.
Parte das alegações estava relacionada a interceptações telefônicas realizadas durante a chamada Operação Verde Oliva, investigação policial iniciada para esclarecer a morte de um militar do Exército. Segundo as acusações levadas à Justiça Eleitoral, conversas atribuídas a pessoas ligadas à campanha indicariam uma suposta autorização do tráfico para que determinados candidatos circulassem pela comunidade.
Outro ponto apresentado na ação tratava de uma suposta compra de votos por R$ 50 no bairro da Penha. Fotografias e vídeos foram anexados ao processo pelos autores, que pediram a cassação dos mandatos conquistados em 2018 e a declaração de inelegibilidade dos investigados. Os políticos negaram as acusações desde o início.
Ministério Público pediu inelegibilidade
Durante a tramitação, a Procuradoria Regional Eleitoral inicialmente defendeu o prosseguimento da investigação. Em parecer posterior, divulgado em 2021, o Ministério Público Eleitoral pediu a condenação de Wladimir Garotinho à inelegibilidade por oito anos.
Em relação a Bruno Dauaire, reportagens publicadas na época informaram que o parecer não solicitava a condenação do parlamentar por considerar insuficientes os elementos apresentados contra ele.
O julgamento definitivo ocorreu no dia 14 de dezembro de 2021, quase três anos depois da apresentação da ação.
TRE-RJ absolveu os políticos por unanimidade
Ao analisar o processo, o plenário do TRE-RJ decidiu que as provas não eram suficientes para confirmar as acusações. A ação foi julgada improcedente, com absolvição unânime de Wladimir Garotinho e Bruno Dauaire.
Após a decisão, Wladimir declarou que sempre considerou as acusações falsas e afirmou que o resultado reconhecia o trabalho realizado por seu grupo político na comunidade.
Bruno Dauaire também comemorou o julgamento e afirmou que confiava na Justiça. O deputado declarou, na ocasião, que o resultado confirmava sua inocência e que continuaria exercendo o mandato com base na legalidade e na ética.
Por isso, o vídeo que voltou a circular apresenta apenas uma etapa anterior do caso. A gravação foi feita quando a denúncia ainda aguardava julgamento e não contém o desfecho dado posteriormente pelo Tribunal Regional Eleitoral.
Compartilhamento sem data provoca interpretação equivocada
A circulação de conteúdos antigos fora do contexto original pode produzir uma percepção errada sobre os acontecimentos. No caso envolvendo Wladimir e Bruno, o vídeo não registra uma nova denúncia, uma nova operação policial ou uma decisão recente da Justiça.
O material apresenta acusações discutidas antes do julgamento de 2021. Embora as alegações tenham existido e constem do histórico da ação eleitoral, elas foram examinadas e rejeitadas pelo TRE-RJ.
Também não foi localizada confirmação oficial de que o processo eleitoral de 2018 tenha sido reaberto ou incorporado a uma nova investigação.
Comparações com casos recentes exigem cautela
Durante o debate exibido pelo programa Direto da Redação, o episódio de 2018 foi comparado a investigações mais recentes envolvendo políticos de Campos. No entanto, os casos possuem objetos, provas, autoridades responsáveis e fases processuais diferentes.
O deputado estadual Thiago Rangel foi preso em maio de 2026, durante a quarta fase da Operação Unha e Carne. A Polícia Federal investiga um suposto esquema de fraudes em compras, serviços e obras vinculadas à Secretaria de Estado de Educação. A defesa do parlamentar nega irregularidades e afirma que qualquer conclusão antecipada viola o devido processo legal.
O vereador Bruno Pezão também responde a uma AIJE apresentada pelo Ministério Público Eleitoral durante as eleições municipais de 2024. A ação pede a cassação e a inelegibilidade do parlamentar por suposto abuso de poder político e econômico. Pezão foi intimado para apresentar defesa após ser diplomado, mas não foi localizada, nas fontes públicas consultadas, uma decisão definitiva atualizada sobre o processo.
Esses procedimentos não modificam automaticamente o resultado da ação julgada pelo TRE-RJ em 2021.
ADPF das Favelas não representa reabertura automática
O programa também levantou a possibilidade de o episódio ser analisado no contexto da chamada ADPF das Favelas. A afirmação, entretanto, foi apresentada como hipótese, sem confirmação oficial.
A ADPF 635 é um processo estrutural que discute a redução da letalidade policial e os protocolos adotados em operações de segurança pública nas comunidades do Estado do Rio de Janeiro. Não há informação oficial de que o processo eleitoral envolvendo Wladimir e Bruno tenha sido incluído nesse procedimento.
Situação política atual
Wladimir Garotinho deixou a Prefeitura de Campos em abril de 2026, quando transmitiu o cargo ao então vice-prefeito Frederico Paes. A saída ocorreu antes das eleições gerais, nas quais o ex-prefeito pretende voltar a disputar um mandato eletivo.
Bruno Dauaire, por sua vez, retornou à Assembleia Legislativa em março de 2026, depois de deixar a Secretaria Estadual de Habitação de Interesse Social. O parlamentar exerce o terceiro mandato como deputado estadual.
O principal esclarecimento sobre o vídeo, portanto, está na cronologia: as acusações são de 2018, a gravação foi produzida antes do julgamento e o processo terminou com absolvição unânime no TRE-RJ em dezembro de 2021.
*Da Agência Fonte Exclusiva







