A sequência de operações da Polícia Federal envolvendo políticos, empresários e agentes públicos transformou as investigações criminais em um dos principais fatores de instabilidade no cenário eleitoral do Rio de Janeiro. Prisões, buscas, apreensões e medidas cautelares atingiram personagens com influência em partidos e na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, aumentando a apreensão às vésperas das eleições de 2026.
Entre os nomes que aparecem nesse ambiente estão o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella, o deputado estadual Thiago Rangel e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar. Embora os casos tenham situações jurídicas distintas, todos passaram a enfrentar consequências políticas provocadas pelo avanço das apurações.
O impacto já alcança as articulações partidárias. Pré-candidaturas anteriormente tratadas como consolidadas passaram a ser reavaliadas, enquanto dirigentes analisam os possíveis efeitos das investigações sobre chapas proporcionais, alianças regionais e campanhas para o Senado, a Câmara dos Deputados e a própria Alerj.
Canella deixa prisão, mas enfrenta desgaste eleitoral
Márcio Canella foi preso em flagrante no dia 7 de julho durante a sexta fase da Operação Unha e Carne. A Polícia Federal apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma para lavagem de dinheiro, com possível participação de agentes públicos.
Segundo a PF, foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende. A operação apreendeu aproximadamente R$ 919 mil, US$ 13 mil, um fuzil, nove armas curtas, 23 celulares, sete computadores, 11 veículos, além de joias, relógios e documentos.
Relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou que o grupo investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos. As apurações envolvem suspeitas de organização criminosa, lavagem de dinheiro e contratação direta ilegal.
Canella foi detido depois que os policiais encontraram um fuzil calibre 5,56 no veículo em que ele estava. A defesa afirmou que a arma pertencia a um policial militar responsável pela segurança do ex-prefeito.
Na noite de 10 de julho, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, substituiu a prisão por medidas cautelares. Canella deixou o sistema penitenciário, mas passou a utilizar tornozeleira eletrônica. O esclarecimento sobre a propriedade do armamento deverá continuar durante a investigação.
A decisão judicial não impede automaticamente uma eventual candidatura. A aplicação de tornozeleira eletrônica ou de outras medidas cautelares, isoladamente, não provoca a suspensão dos direitos políticos. Esse impedimento ocorre, entre outras hipóteses previstas na legislação, diante de condenação criminal transitada em julgado ou da incidência de alguma causa específica de inelegibilidade.
O Tribunal Superior Eleitoral estabelece que a suspensão dos direitos políticos decorrente de condenação criminal depende do trânsito em julgado da decisão. Assim, na situação atual, Canella pode manter um projeto eleitoral, desde que cumpra as condições legais e não seja alcançado por uma decisão posterior que produza inelegibilidade.
O maior problema, neste momento, é político. Canella havia deixado a Prefeitura de Belford Roxo para disputar uma vaga no Senado e era apontado como um dos nomes da aliança de centro-direita no estado. Após a prisão, setores da Federação União Progressista passaram a considerar a possibilidade de retirada da candidatura ao Senado.
Uma eventual mudança poderia levá-lo a avaliar uma candidatura à Câmara dos Deputados ou à Assembleia Legislativa. Até agora, porém, não houve anúncio oficial de desistência. As discussões permanecem no campo das articulações partidárias.
Thiago Rangel permanece no centro das apurações
O deputado estadual Thiago Rangel foi preso no dia 5 de maio, durante a quarta fase da Operação Unha e Carne. A investigação apura a existência de uma organização criminosa suspeita de fraudar procedimentos para compra de materiais e contratação de obras e serviços no âmbito da Secretaria de Estado de Educação.
A defesa do parlamentar nega a prática de irregularidades e sustenta que qualquer conclusão deve aguardar o conhecimento completo dos elementos reunidos pela Polícia Federal.
As apreensões realizadas nas diferentes etapas da operação aumentaram a preocupação no ambiente político. Celulares, computadores, planilhas, documentos e registros financeiros poderão abrir novas linhas de investigação, caso os peritos encontrem elementos relacionados a outros agentes públicos ou empresas.
Nos bastidores da política fluminense, circulam versões de que aparelhos apreendidos conteriam conversas com parlamentares, empresários e integrantes do governo estadual. Também existem relatos sobre possíveis negociações envolvendo emendas parlamentares e pagamentos realizados por empresas do setor de combustíveis.
Essas afirmações, no entanto, ainda não foram integralmente confirmadas em documentos públicos, decisões judiciais ou comunicados oficiais consultados. Por isso, não é possível apontar quais parlamentares teriam participado das supostas negociações nem afirmar que novas prisões ocorrerão.
O mesmo cuidado deve ser adotado em relação às previsões sobre a quantidade de operações que seriam realizadas antes das eleições. A Polícia Federal não confirmou oficialmente números, datas ou listas de futuros alvos.
Bacellar é levado para presídio federal
Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, também permanece preso no âmbito das investigações. No dia 2 de julho, a Polícia Federal cumpriu um novo mandado de prisão preventiva contra o político, que já estava detido em Bangu 8, no Complexo de Gericinó.
A nova fase da Operação Unha e Carne aprofundou a investigação sobre possíveis conexões entre agentes políticos, contraventores e esquemas de lavagem de dinheiro. Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão, além de três ordens de prisão preventiva.
A Justiça também determinou o bloqueio de até R$ 22 milhões em bens e valores dos investigados. Segundo a Polícia Federal, Bacellar é suspeito de ter vazado informações sobre operações policiais para integrantes do Comando Vermelho.
A defesa nega que ele tenha atuado para prejudicar investigações ou proteger integrantes de organizações criminosas. Os advogados afirmam que o ex-presidente da Alerj não possui ligação com os fatos apurados.
Por determinação do STF, Bacellar deixou o sistema penitenciário estadual e foi transferido inicialmente para uma unidade federal de segurança máxima em Brasília. Posteriormente, foi levado para a Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.
A transferência aumentou as especulações sobre uma possível colaboração premiada, mas não existe confirmação oficial de que o ex-presidente da Alerj esteja negociando qualquer acordo com as autoridades.
Partidos calculam prejuízos para as eleições
As consequências das operações ultrapassam a situação individual dos investigados. União Brasil, PL, Avante e outras legendas com representação no Rio acompanham o avanço dos inquéritos porque eventuais denúncias ou novas medidas judiciais podem modificar candidaturas, alianças e estratégias eleitorais.
Na eleição proporcional, o desempenho de uma legenda depende da capacidade de seus candidatos de atrair votos para a chapa. O afastamento ou enfraquecimento de nomes conhecidos pode reduzir o potencial eleitoral do conjunto e obrigar os partidos a buscar novos candidatos competitivos.
O caso de Canella produz efeito imediato porque envolve um dirigente partidário e um nome apresentado como pré-candidato ao Senado. Já as investigações relacionadas a Thiago Rangel e Rodrigo Bacellar aumentam a pressão sobre antigos aliados, integrantes de grupos políticos regionais e parlamentares que mantiveram contato com os investigados.
A existência de conversas em celulares ou registros de reuniões, por si só, não comprova a prática de crimes. Para que exista responsabilização, os investigadores precisam demonstrar a relação entre os diálogos, as movimentações financeiras e uma eventual conduta ilegal.
O cenário, porém, é de crescente incerteza. Cada nova etapa da Operação Unha e Carne amplia o alcance das apurações e mantém partidos e parlamentares sob pressão. Até que os inquéritos sejam concluídos, as investigações continuarão influenciando diretamente a montagem das chapas e as decisões políticas para outubro de 2026.
Os investigados citados têm direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. As responsabilidades individuais somente poderão ser definidas após o avanço das investigações e o julgamento dos processos.
*Da Agência Fonte Exclusiva







