O clima nos corredores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro já não é apenas de constrangimento político. O que se vê nos bastidores é uma operação silenciosa de sobrevivência de aliados, assessores e indicações ligadas ao deputado afastado Thiago Rangel (Avante), preso na 4ª fase da Operação Unha e Carne e apontado pelas investigações como líder de uma organização criminosa infiltrada em setores estratégicos do estado.
O problema é que, enquanto o Supremo Tribunal Federal endurece o tom e mantém vigilância máxima sobre qualquer movimento que possa beneficiar o parlamentar, a estrutura política montada por Rangel dentro da Alerj continua respirando — ainda que disfarçada sob novos arranjos administrativos.
Nos bastidores, órgãos de controle já observam o que classificam como um “corporativismo camuflado” dentro da Casa.
A operação de blindagem teria como principal eixo setores ligados diretamente à presidência da Alerj, comandada pelo deputado Douglas Ruas (PL). Apesar do discurso público de austeridade e transparência, interlocutores do parlamento afirmam que dezenas de indicados políticos de Thiago Rangel permanecem empregados em estruturas estratégicas da Assembleia.
Um dos casos que mais chama atenção é o de Dandara Ribeiro, lotada na presidência da Casa mesmo após o escândalo atingir em cheio o grupo político de Rangel. Ela seria a gerentona do parlamentar internamente e não seria exceção. Estima-se a existência de cerca de 40 servidores fantasmas que continuam alimentados pela máquina, em cargos cedidos ao parlamentar afastado.
Levantamentos internos apontam que assessores ligados ao deputado afastado continuam distribuídos entre a liderança do Avante, comissões permanentes e gabinetes políticos. A Comissão de Minas e Energia, por onde Rangel transitou, também aparece no radar das observações feitas por setores externos de fiscalização.
O detalhe que transforma o caso em um escândalo ainda maior é o fato de Thiago Rangel ter sido o único deputado do Avante na Alerj. Na prática, era líder de si próprio. Com sua prisão e afastamento, a liderança partidária perde sentido político e administrativo. Ainda assim, a engrenagem segue funcionando — com cargos, estrutura e salários de dezenas de assessores pagos com dinheiro público.
A pergunta que ecoa nos corredores do Legislativo é simples: qual a justificativa para manter uma estrutura política vinculada a um parlamentar afastado por decisão judicial (e mantida pela Alerj), além de investigado por crimes graves?
A permanência desses assessores é interpretada por observadores políticos como uma espécie de drible institucional nas decisões do STF. Um jogo de aparências para demonstrar afastamento formal, enquanto a máquina política construída pelo deputado continua preservada internamente.
E o temor na Alerj vai muito além da repercussão pública.
Integrantes do parlamento avaliam reservadamente que novas fases da Operação Unha e Carne podem atingir figuras ainda mais influentes da política fluminense. O material já apreendido pela investigação — incluindo mensagens, imagens, áudios e documentos — teria potencial explosivo.
Nos bastidores, Thiago Rangel já é tratado como um “homem-bomba” político.
O receio é que o avanço das investigações arraste nomes de peso do antigo governo Cláudio Castro, além de ex-secretários estaduais e lideranças municipais. Um dos nomes frequentemente citados nos bastidores é o de Bernardo Rossi, que comandou a Secretaria de Meio Ambiente.
Prefeitos, vereadores e operadores políticos acompanham cada novo movimento da investigação em estado de tensão máxima. Há apreensão sobre o conteúdo de aparelhos eletrônicos já periciados pela Polícia.
Relatos de bastidores indicam que imagens íntimas, conversas comprometedoras e trocas de mensagens envolvendo agentes públicos podem transformar o escândalo em uma das mais devastadoras crises políticas já vistas no Legislativo fluminense.
O parlamento estadual, que já vive uma grave crise institucional, pode estar apenas no começo de um terremoto político de proporções imprevisíveis.








