Aos 58 anos, o pedreiro José Luiz Ribeiro Ferreira, morador do distrito de Travessão, em Campos dos Goytacazes (RJ), vive acamado com uma ferida exposta no abdômen. Diagnosticado com câncer na virilha, ele peregrina há meses entre hospitais do SUS (Sistema Único de Saúde) e particulares conveniados, como o Oncobêda e Álvaro Alvim, mas segue sem internação.
Em vídeos nas redes sociais, familiares e voluntários do Centro Maria de Reabilitação imploram por ajuda: “Ele precisa de cuidados urgentes, mas não há leitos. Estamos desesperados”, afirma a dirigente da Ong, Maria Eduarda Sales, que por falta de atendimento, está fazendo os curativos no paciente.
“O diagnóstico é de um linfoma na virilha de alto grau. Está no lado esquerdo. Agora já está nascendo outro tumor no lado direito. O médico disse que ele precisa ser operado com urgência, do contrário o tumor vai se enraizar. Somente o Oncobêda ou Álvaro Alvim podem realizar a cirurgia, mas o Álvaro Alvim disse que não tem como realizar, porque ele é um paciente de internação prolongada e a Prefeitura não está pagando aos hospitais”, disse Maria Eduarda.
O drama de José Luiz reflete a crise generalizada na saúde do município, um dos mais ricos do Brasil devido aos royalties do petróleo da Bacia de Campos. Com orçamento anual de R$ 3 bilhões — dos quais R$ 1 bi é destinado à saúde —, a prefeitura acumula uma dívida de R$ 100 milhões com hospitais filantrópicos, responsáveis por 70% dos atendimentos de média e alta complexidade.
Enquanto unidades fecham leitos por falta de insumos e medicamentos, o prefeito Wladimir Garotinho (PL) viraliza nas redes com imagens de passeios de lancha, viagens a resorts no Nordeste e visitas a parques temáticos.
Contraste entre ostentação e colapso
Enquanto pacientes como José Luiz enfrentam a falta de insumos básicos como analgésicos e curativos, Wladimir Garotinho exibe um estilo de vida luxuoso. Sua evolução patrimonial, alvo de questionamentos, contrasta com o rombo de R$ 1,5 bilhão nas contas públicas.
Assessores admitem que o prefeito prepara sua renúncia para disputar uma vaga de deputado federal em 2026, estratégia vista como tentativa de garantir imunidade parlamentar diante de possíveis investigações.
A rede conveniada ao SUS em Campos opera no limite: quatro hospitais filantrópicos ameaçam paralisar serviços se a dívida não for quitada. Enquanto isso, familiares de pacientes recorrem à vaquinhas online para comprar remédios. “Ele está definhando em casa. O SUS aqui é só no papel”, desabafa dona Verônica, esposa de José Luiz.
Futuro incerto
Com a possível renúncia de Wladimir Garotinho, a população teme que a crise seja ainda mais agrave do que aparenta. Movimentos sociais planejam protestos e cobram intervenção do Ministério Público.
“Campos é um retrato do descaso com a saúde pública. Enquanto políticos buscam privilégios, pessoas morrem sem dignidade”, destaca o ativista Bambam da Motoca em vídeos nas redes sociais. O ativista tem divulgado vários flagrantes de descaso na saúde do Município.







