Na localidade de Santo Eduardo, em Presidente Kennedy (ES), uma nuvem de fumaça preta e resíduos de óleo queimado tomou conta do cotidiano de cerca de 400 moradores.
A usina de asfalto quente da empresa Rovabreu Locação e Serviços, instalada às margens da ES 162, é apontada como responsável por um crime ambiental persistente, agravado pela inação de órgãos públicos.
Poluição visível e impactos à Saúde
Imagens divulgadas pelo morador Marcos Fernandes Chaves nas redes sociais mostram a chaminé da fábrica liberando fumaça densa, enquanto resíduos de pó de pedra e óleo contaminam casas e o meio ambiente.
Relatos revelam que idosos, crianças e famílias inteiras convivem diariamente com a sujeira e odores tóxicos. “Minha avó de 80 anos não aguenta mais. Lavamos a casa todo dia, mas a poeira volta”, desabafa um morador em áudio e vídeo viralizados.
A empresa, que produz 800 toneladas de asfalto por dia, chegou a divulgar na mídia local que usa um “Filtro de Mangas”, tecnologia apresentada como “uma das mais limpas do mundo”.
No entanto, as evidências visuais e os depoimentos contradizem o discurso do responsável técnico, Leonardo da Silva, que garantiu à imprensa local que o sistema “não deixa poluir a atmosfera”.
Incentivos fiscais e promessas não cumpridas
Instalada durante a gestão do ex-prefeito Dorlei Fontão (PSB), a Rovabreu recebeu benefícios como isenção de ISS, terraplanagem pública e infraestrutura subsidiada, em troca da geração de seis empregos diretos e um investimento de R$ 2,5 milhões.
A contradição entre os incentivos e o custo socioambiental levanta críticas: “Autorizaram uma fábrica poluente em cima de casas onde tem gente que vive lá há 80 anos. Se fosse perto deles, não aceitariam”, protesta Chaves, que também relatou ter sofrido ameaças por denunciar o caso.
Fiscalização falha e responsabilização legal
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente é acusada de omitir-se, mesmo após denúncias formais. A legislação ambiental prevê punições severas, incluindo prisão e multas, para empresas e agentes públicos que negligenciarem fiscalizações.
O Código Penal e a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) destacam que a omissão de autoridades configura participação no crime.
Advogados ambientais ouvidos pela reportagem sugerem que moradores busquem o Ministério Público Federal (MPF) para exigir reparações e a responsabilização da empresa e gestores.
“A inércia do município não pode ser tolerada. Há direitos constitucionais violados”, afirma um especialista.
Próximos passos
Enquanto a fumaça continua a subir, moradores prometem ampliar a pressão. “Vamos espalhar essa denúncia até alguém nos ouvir”, diz Chaves.
O caso de Santo Eduardo expõe não apenas um crime ambiental, mas um modelo de desenvolvimento que privilegia interesses econômicos em detrimento da vida.







