Novos documentos divulgados pela Justiça dos Estados Unidos na quinta-feira (21) trouxeram à tona comunicações internas da Meta que reforçam acusações de que a empresa tinha pleno conhecimento dos danos causados por suas plataformas — especialmente o Instagram — à saúde mental de crianças e adolescentes. O material integra uma ampla ação judicial movida por procuradores-gerais de diversos estados, distritos escolares e famílias que acusam Meta, YouTube, TikTok e Snapchat de colocar o lucro acima da segurança de menores.
As mensagens reveladas mostram funcionários comparando o Instagram a uma “droga” e se referindo a si próprios como “traficantes”, reconhecendo o poder viciante da plataforma. Parte dos registros aponta ainda que Adam Mosseri, diretor do Instagram, teria reagido com irritação ao ser confrontado com pesquisas internas que mostravam padrões de uso compulsivo entre jovens.
Pornografia infantil e falhas graves de moderação
Além de impactos psicológicos, os documentos indicam possíveis mentiras de executivos da empresa durante audiência no Senado americano em 2020. Segundo a petição, a Meta teria omitido informações sobre dificuldades na remoção de conteúdo ligado à exploração sexual infantil, apesar de possuir sistemas capazes de identificar boa parte das violações.
A acusação destaca que a empresa não oferecia ferramentas claras para denunciar abusos e mantinha um limite de notificação tão alto que inviabilizava a remoção rápida de conteúdos sensíveis. Um dos trechos mais contundentes afirma que pais e usuários não eram informados de que contas reincidentes em casos de tráfico sexual — mesmo após mais de 15 ocorrências — não eram automaticamente excluídas.
Os documentos também sugerem que a segurança infantil foi tratada como prioridade secundária dentro da empresa. O algoritmo “talvez você conheça”, por exemplo, teria sugerido repetidamente perfis de crianças a adultos, criando situações de risco e facilitando abordagens por predadores.
Segurança versus perda de usuários
Os arquivos revelam ainda que a Meta considerou implementar padrões automáticos de privacidade mais rigorosos para menores, medida que poderia evitar mais de 5,4 milhões de interações potencialmente perigosas por dia. No entanto, a ideia foi descartada porque reduziria o número de usuários adolescentes ativos, o que teria impacto negativo no desempenho financeiro da empresa.
Relatos incluídos no processo mostram a vulnerabilidade dos jovens usuários. Uma menina de 11 anos afirmou ter enviado mensagens de teor sexual para dezenas de perfis como parte de um esquema de spam, descrevendo a prática como algo comum na plataforma.
Pressão interna e omissão de impactos
Os documentos apontam que executivos instruíram equipes a priorizar engajamento de adolescentes, mesmo que isso significasse evitar alertas a pais ou reduzir mecanismos de segurança. Esse direcionamento teria influenciado o lançamento de ferramentas como o Instagram Live, que, segundo a ação, chegou a ser usada para transmitir tentativas de suicídio entre jovens. Embora a Meta soubesse do problema desde 2016, medidas de proteção mais robustas só teriam sido implementadas quase dez anos depois.
O processo também acusa a empresa de minimizar estudos que relacionavam o uso das redes a ansiedade, depressão e exposição a predadores. Um exemplo citado é a suspensão temporária, em 2019, de filtros de alteração de imagem, que haviam mostrado impactos prejudiciais para a autoestima de adolescentes. Mesmo após a constatação, os filtros voltaram a ser liberados meses depois.
Projeto Mercúrio: estudo interno escondido
Outro ponto citado é a ocultação do “Projeto Mercúrio”, estudo interno conduzido em 2020 que comparou jovens que ficaram um mês afastados do Facebook e Instagram com aqueles que permaneceram ativos. O resultado indicou melhora significativa em indicadores como depressão, ansiedade e comparação social para quem deixou de acessar as plataformas — dados que nunca foram divulgados ao público.
Os documentos reforçam a tese das autoridades americanas de que a Meta tinha ciência dos problemas e optou por não agir, priorizando a expansão da empresa em detrimento da segurança de milhões de jovens usuários.
*Da Agência Fonte Exclusiva








