A escolha entre parto normal e cesariana envolve muito mais do que a preferência da gestante. Um estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostra que fatores psicológicos, sociais e estruturais exercem forte influência sobre essa decisão e ajudam a explicar as elevadas taxas de cesarianas registradas no Brasil.
Embora a maioria das mulheres manifeste, no início da gestação, o desejo de ter um parto vaginal, diversas circunstâncias ao longo da gravidez acabam modificando essa escolha. O resultado é que o Brasil permanece entre os países com maior número de cesarianas do mundo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que esse procedimento represente até 15% dos nascimentos, sendo reservado principalmente para situações em que há risco para a mãe ou para o bebê.
No entanto, mais de 60% dos partos realizados no Brasil ocorrem por cesariana. Na rede privada, esse percentual se aproxima de 90%.
A pesquisa do Unicef foi baseada em dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que já havia demonstrado que sete em cada dez gestantes pretendiam ter parto normal no início da gravidez.
O novo levantamento, intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, entrevistou 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde em São Paulo e Belém, contemplando tanto o sistema público quanto o privado.
Entre os fatores que mais influenciam a decisão está o medo da dor durante o trabalho de parto. Segundo o estudo, esse receio costuma ser reforçado por relatos negativos compartilhados por familiares e pessoas próximas, que frequentemente descrevem experiências traumáticas relacionadas ao nascimento.
De acordo com Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef, muitas dessas histórias estão associadas a episódios de violência obstétrica, marcados por intervenções desnecessárias e atendimento desrespeitoso durante o parto.
Por outro lado, a recuperação mais rápida após o parto normal aparece como uma das principais razões apontadas pelas mulheres que mantêm a preferência pelo nascimento vaginal.
O levantamento também identificou diferenças importantes entre as gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e aquelas acompanhadas pela rede privada.
Entre as usuárias do SUS, o parto normal costuma ser valorizado pela recuperação mais rápida, especialmente entre mulheres que não possuem uma rede de apoio para auxiliá-las no período pós-parto. Já a escolha pela cesariana, em alguns casos, está relacionada à possibilidade de realizar a laqueadura durante o procedimento, indicando falhas na oferta de orientações sobre métodos contraceptivos.
Na rede privada, o acesso a informações mais detalhadas, equipes especializadas e acompanhamento personalizado favorece o planejamento do parto normal. Muitas participantes relataram, inclusive, ter trocado de obstetra quando perceberam resistência à realização do parto vaginal.
Outro ponto destacado pelo estudo é a falta de preparo durante o pré-natal. Muitas gestantes afirmaram receber poucas orientações sobre trabalho de parto, plano de parto, direitos da paciente e alternativas para o nascimento.
Entre as mulheres atendidas pelo SUS, também foi recorrente a percepção de que a decisão final sobre a via de parto ficará sob responsabilidade exclusiva da equipe médica, independentemente da vontade da gestante.
A pesquisa ainda chama atenção para a desigualdade no acesso à analgesia durante o trabalho de parto. Enquanto o recurso está amplamente disponível na rede privada, sua oferta permanece limitada em grande parte das unidades públicas, restringindo as opções para o alívio da dor.
Diante desse cenário, o Unicef recomenda ampliar o acesso à analgesia e a métodos não farmacológicos de controle da dor, fortalecer o pré-natal com informações claras sobre o parto, incentivar a participação de acompanhantes e doulas, expandir políticas de parto humanizado e revisar modelos de financiamento que possam estimular cesarianas sem indicação clínica.
A organização também lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, iniciativa que busca ampliar o debate sobre a autonomia das gestantes e incentivar práticas baseadas em evidências científicas para garantir um parto mais seguro, respeitoso e humanizado.
Segundo o Unicef, oferecer às mulheres informação, acolhimento e liberdade para decidir sobre o nascimento dos filhos é um passo fundamental para reduzir intervenções desnecessárias e promover uma experiência mais positiva durante a maternidade.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








