Uma análise da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acendeu um alerta para a forma como os cigarros eletrônicos estão sendo apresentados no YouTube. A instituição identificou vídeos que divulgam informações consideradas desinformativas sobre os dispositivos e que podem estar contornando as regras brasileiras que proíbem a publicidade de produtos de tabaco.
Os resultados foram apresentados em uma nota técnica divulgada nesta quinta-feira (27). Entre os problemas encontrados pelos pesquisadores estão vídeos sem informações sobre a proibição da propaganda de cigarros e dispositivos eletrônicos para fumar no país e publicações que não indicam que o conteúdo é destinado a maiores de 18 anos.
O levantamento também encontrou materiais que colocam em dúvida evidências científicas sobre os efeitos da nicotina e questionam informações divulgadas por autoridades de saúde.
No Brasil, a comercialização, a importação e a propaganda de cigarros eletrônicos são proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A nicotina presente nesses produtos também pode provocar dependência, enquanto o uso dos dispositivos está associado a riscos à saúde respiratória.
Vídeos já somam milhões de visualizações
A equipe da Fiocruz analisou cinco canais do YouTube relacionados ao tema. Juntos, eles ultrapassam 6 milhões de visualizações e reúnem cerca de 400 mil inscritos.
Segundo a análise, os conteúdos não se limitam a explicar o funcionamento dos dispositivos. Alguns vídeos apresentam tutoriais de uso, fazem avaliações de diferentes modelos, divulgam cupons promocionais e disponibilizam links que podem levar os usuários a páginas de compra.
Também foram encontradas entrevistas com pessoas que defendem o uso dos cigarros eletrônicos. Outro ponto destacado pela pesquisa é que parte desses vídeos aparece entre as recomendações feitas pelo próprio YouTube quando o usuário realiza buscas relacionadas aos dispositivos.
Fiocruz questiona atuação do YouTube
A instituição também levantou críticas à forma como a plataforma administra esse tipo de conteúdo. Na avaliação dos pesquisadores, o modelo de autorregulação do YouTube não seria suficiente para impedir a circulação de materiais que podem entrar em conflito com normas brasileiras.
A nota técnica cita regras previstas no Código de Defesa do Consumidor, na Lei Antifumo e no ECA Digital como parte do conjunto de normas que precisam ser consideradas.
Para a Fiocruz, é necessária uma atuação conjunta entre autoridades públicas e sociedade civil para criar mecanismos capazes de aumentar a proteção dos usuários e dificultar a divulgação irregular desses produtos.
Uma das sugestões é estabelecer um acordo específico com o YouTube para reforçar o cumprimento das normas brasileiras que proíbem a publicidade de produtos de tabaco em canais nacionais.
A recomendação também considera o conteúdo publicado por influenciadores digitais. Segundo a instituição, mesmo quando não existe pagamento ou contrato comercial, a divulgação de informações que promovam ou minimizem os riscos dos cigarros eletrônicos merece atenção.
A plataforma foi procurada para comentar os resultados da análise, mas não havia respondido até o fechamento desta reportagem.
O alerta reforça uma preocupação crescente entre especialistas: mesmo com a proibição da venda e da publicidade de cigarros eletrônicos no Brasil, conteúdos publicados nas redes sociais podem facilitar o acesso a informações promocionais e contribuir para a normalização do consumo, especialmente entre públicos mais jovens.
*Da Agência Fonte Exclusiva








