Você ouve tiros. Se assusta.
O corpo reage.
O coração dispara. Mas a vida continua. Porque precisa continuar.
É preciso chegar ao trabalho, levar o filho à escola, cumprir o que o dia exige — mesmo depois de atravessar o medo.
A rotina do Rio de Janeiro nos obriga a seguir, mesmo quando tudo grita para parar.
Você assiste a um vídeo de bandidos armados com fuzis. Se indigna.
E logo em seguida já está lendo a notícia de um ônibus incendiado.
A violência ainda choca — mas o choque não dura.
Porque logo vem outra.
E depois outra.
E mais outra.
A gente se expõe, se anestesia — e se acostuma.
Não por escolha. Mas porque não dá para parar toda vez que o absurdo atravessa a cidade.
A dessensibilização não é um defeito moral. É uma reação neurológica e social ao excesso. A exposição constante à violência, reforçada pela repetição midiática, dilui o impacto. A tragédia, transmitida ao vivo, comentada em tempo real, se torna parte do cotidiano.
E quando a dor se torna cotidiana, ela não desaparece — apenas deixa de doer da mesma forma.
Essa normalização, no entanto, não surge do nada. É consequência de um contexto em que a violência não é exceção: é regra.
A população, descrente das instituições, mergulha em discursos punitivistas, muitas vezes repetindo frases como:
“Bandido bom é bandido morto.”
Não por frieza, mas por desespero e cansaço.
Por acreditar que nada mais funciona.
A crueldade cresce quando o medo vira rotina e o Estado, ausência.
Enquanto isso, a ausência do Estado se manifesta em escolas sucateadas, postos de saúde sem estrutura, oportunidades que nunca chegam.
E, nesse vácuo, o crime se apresenta como solução. Para muitos jovens, o tráfico oferece algo que o Estado não entrega: reconhecimento, estrutura, pertencimento.
Não é só sobre dinheiro. É sobre status. É sobre ser visto. Ser alguém.
Como dizem nas próprias músicas que nascem das periferias:
“Se eu morrer, eu morro pelo bonde.”
É o senso de missão, de lealdade, de identidade — que a sociedade formal não oferece.
A criminalidade se reinventa com as ferramentas do presente: redes sociais, influenciadores, músicas que vendem a imagem do sucesso ligado ao crime. Carros do ano, roupas de marca, celulares de última geração.
Isso alimenta um modelo de sucesso baseado em status e consumo.
E, nesse cenário, o tráfico vira alternativa de vida — e, para muitos, também de morte.
Enquanto isso, a violência continua nos jornais, nos feeds, nas janelas.
Os fuzis seguem apontados. Os corpos seguem caindo.
E o espanto, pouco a pouco, vai virando silêncio.
Karoline Barbosa
Psicóloga | Colunista sobre comportamento, saúde mental e cultura digital | Produção de conteúdo com base em Psicologia Social, me siga no Linkedin.








