O Brasil insiste manter-se no ciclo de matéria prima, porque tem uma classe dirigente letárgica, acomodada e que ainda confunde o público com o privado. Basta uma oportunidade para enfiar parentes em cargos comissionados na administração pública |
O Brasil ficou no ciclo do café na transição entre as décadas de 20 e 30, quando a industrialização dominava a vanguarda da economia na Europa. Veio a crise de 1929 e esta matéria prima levou o seu tiro de misericórdia no mercado internacional. Naufragamos. Posteriormente as nações desenvolvidas sairiam do ciclo da industrialização e entrariam na vanguarda da inovação tecnológica. Por aqui permaneceríamos com um pé na industrialização tardia – recebendo indústrias poluidoras e atraídas pela mão de obra farta e barata – e outro na produção de petróleo, soja e minério de ferro. Não saímos do lugar. O café deixou de ser o nosso abre alas na balança comercial para dar lugar as novas commodities. O mundo está diante de uma nova crise econômica e cá estamos nós novamente desesperados. Demoramos, mais uma vez, a compreender o curso de uma nova virada no ciclo econômico mundial.
Os EUA, França, Alemanha e outras nações terão muito mais agilidade na superação da crise, porque acompanharam as tendências do mercado. Investiram em pesquisa e apostaram nos talentos. Relações de compadrio em ambiente de trabalho nessas nações é ofensa grave. Amigo é para saborear cafezinho caseiro. Nos negócios, prevalece a meritocracia. Enquanto isso, essas nações despacharam para a nossa terra suas empresas poluidoras, que ameaçam a vida e o meio ambiente, que deixam barragens se romperem por frouxidão e descaso, como foi o caso da Samarco, em Mariana, Minas Gerais. E a classe dirigente, coitada, não sabe de nada, recebe os “investidores” com tapete vermelho e ampla cobertura midiática como se estivesse fazendo um grande negócio. Em 1500 os índios receberam a comitiva de Pedro Álvares Cabral trocando ouro por espelho. De lá para cá não aprendemos muito. A única diferença é que agora se troca riqueza por “pixuleco”.
Nos últimos anos assistimos uma nova cruzada em busca de riquezas. Os países qualificados na condição de parceiros comerciais extraíram daqui a matéria prima necessária para desenvolver equipamentos tecnologicamente avançados, visando posteriormente exportar paras nossas prateleiras como produto acabado, turbinando suas respectivas balanças comerciais e nos legando os desastres ambientais. Quanto a nós, continuaremos por aqui, nus, em cima de uma árvore, à espera que o Frei Henrique de Coimbra celebre a primeira missa na terra de Vera Cruz. Estamos atrasados.
O Brasil tem uma classe dirigente letárgica, acomodada e com o péssimo hábito de confundir o público com o privado. Basta uma oportunidade para usar o dinheiro público em prol dos negócios particulares ou enfiar parentes em cargos comissionados na administração pública. Algumas cidades da zona produtora de Petróleo da Bacia de Campos, no Norte Fluminense, onde predomina o ciclo do petróleo, sofrem com este pesadelo. É uma região onde circularam bilhões decorrentes da produção de petróleo nas últimas duas décadas. Neste período fortunas particulares emergiram da noite para o dia, enquanto que os índices sociais são vergonhosos.
Neste momento de crise econômica, com queda na cotação de petróleo, municípios petrorrentistas estão em pânico. Não tem outra alternativa de arrecadação que não seja royalties do petróleo e Participação Especial. A classe dirigente regional foi incapaz de, pelo menos, pensar uma alternativa desenvolvimentista desatrelada do ciclo das matérias primas. E olha que todo mundo já sabia que o petróleo é um bem finito. Nossa atual desgraça, portanto, é a crônica de uma morte anunciada.
Nessas terras do Norte Fluminense não falta talento. O pecado está no critério de escolha. Certa vez, ao responder a uma pergunta do ex-presidente Getúlio Vargas, durante uma visita à cidade de Campos dos Goytacazes, o então vereador, capitão Manoel Pereira Gonçalves, tirou da cartola uma resposta que se aplica aos dias atuais. Getúlio perguntou o que o vereador achava do seu governo: “Dr. Getúlio, vosmicê é bom caçador, a cachorrada é que não presta”, disse Pereira, que também era proprietário de terras na Baixada Campista.
Pois bem, ainda temos bons caçadoras, mas a cachorrada continua não prestando.








