Uma das principais marcas dos quase três meses do governo do presidente Jair Bolsonaro vem sendo um giro completo nas relações estratégicas estabelecidas desde o final da Segunda Guerra Mundial ao se romper uma posição de teor pragmático em nome de um completo e total alinhamento com o governo do presidente Donald Trump.
Exemplos desse giro é a declaração de que o Brasil irá transferir, como já fizeram os EUA, a sua embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, o paulatino abandono do Acordo Climático de Paris, e os ataques explícitos aos laços comerciais existentes com a China.
Thank you, Mr. President @realDonaldTrump ! Thank you, United States of America! https://t.co/13VRSIoUsR
— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) March 24, 2019
Isto sem falar nas repetidas declarações de que tropas brasileiras se envolveriam numa ação militar na Venezuela em apoio à política de interferência externa dos EUA na América Latina.
Ao fazer isso, o governo Bolsonaro fica parecendo uma espécie de cópia tropical do governo Trump, mas com uma diferença substancial: nos falta o poderio econômico e militar.
Com isso, o Brasil se arrisca a uma série de reações que farão muito mal à nossa já problemática economia que hoje ostenta níveis desprezíveis de crescimento, e ostenta um nível bastante alto de desemprego.
RISCOS PARA O AGRONEGÓCIO
Os sinais de que retaliações serão impostas ao Brasil por causa da subordinação explícita aos interesses estadunidenses não faltam, e atingem diretamente aquele setor que tem segurado a balança comercial que é o chamado agronegócio.
Desde janeiro para cá, a Rússia já emitiu um alerta de que suspenderá as importações de soja brasileira por causa do alto teor de resíduos do agrotóxico glifosato.
Além disso, os países árabes que são os maiores compradores de carne de frango do Brasil suspenderam importações por causa de alegadas condições sanitárias, enquanto a China decidiu não autorizar a importação de carne bovina produzida por pelo menos cinco grandes frigoríficos alegando os mesmos motivos.
ACORDO CLIMÁTICO
Se o Brasil realmente não assinar nenhum acordo climático na 25ª Conferência do Clima da ONU que ocorrerá em dezembro em Santiago, depois da desistência do presidente de trazer o evento para o nosso país, também ocorrerão pesadas consequências econômicas.
A primeira possibilidade é de que países europeus como a Noruega e a Alemanha deixarão de enviar para cá bilhões de reais que hoje chegam em nome da conservação das florestas amazônicas, principalmente no chamado Fundo Amazônia.
Além disso, já em curso na União Europeia uma pressão para que commodities agrícolas produzidas em áreas desmatadas recentemente não sejam compradas por nenhum país daquele bloco.
Em declaração à imprensa hoje (19), o presidente @jairbolsonaro cita o presidente Ronald Reagan e afirma “O povo deve dizer o que o Governo pode fazer e não o contrário” pic.twitter.com/112bdyCWvR
— Presidência da República do Brasil (@presidencia_BR) March 19, 2019
PERDAS PREVISÍVEIS
Todas essas sinalizações vindas de importantes parceiros comerciais já deveriam ter ligado uma sirene de alerta dentro do governo Bolsonaro porque as perdas envolvidas não são nada desprezíveis.
Mas a recente visita ao Chile foi recheada de declarações que demonstram a disposição de queimar pontes com nossos principais parceiros comerciais em nome de uma aliança ideológica com o governo de Donald Trump.
CONCORRÊNCIA DIRETA
Essa postura de queimar pontes em meio a uma grave crise econômica e social não só está longe de ser sábia, mas como ainda esquece um dado muito concreto da realidade: os EUA são concorrentes diretos do Brasil na venda de várias commodities agrícolas, a começar pela soja e pela carne animal.
Assim, se não houver uma reversão das posturas que são emanadas pelo presidente Jair Bolsonaro o Brasil poderá amargar ainda em 2019 um pesado déficit na nossa balança comercial, o que terá repercussões tão graves que nem a aprovação das novas regras draconianas da Previdência Social que foram gestadas com o discurso de que poderiam alavancar o crescimento da economia, ainda que impondo um sacrifício extremo aos trabalhadores brasileiros.
Em suma, há que se tirar a tocha da mão dos piromaníacos de plantão no governo Bolsonaro, sob o risco do Brasil submergir numa crise sem precedentes na história do nosso país. Alguém precisa lembrar ao presidente Jair Bolsonaro que queimar pontes é sempre mais fácil do que construir.








