O jihadismo é uma regressão e não essencialmente anticapitalista |
Depois dos episódios terroristas, acontecidos em Paris, um contra o Jornal Charlie Hebdo, e o outro, contra o supermercado judeu kosher, em janeiro de 2015, temia-se uma nova ação jihadista, que não tardou muito a acontecer. A comparação entre estes atentados, com o 11 de setembro americano, se tornou inevitável, mesmo guardadas as devidas proporções. É claro que esses eventos, distantes no tempo e no espaço, se aproximam: o de Nova York e os de Paris.
A esperada ação jihadista chegou em 15 de novembro de 2015, no Canal Saint-Martin, na Casa de Espetáculos O Bataclan, abrindo uma sequência de atentados e ameaças não confirmadas de atentados. A ação veio de imediato, mais rápido do que se esperava. Após consumado o ataque ao Bataclan, um sentimento de terror é despertado na população. Horror absoluto, diante de 130 mortos e algumas centenas de feridos.
Essa tragédia tem uma significação própria: trata-se de um morticínio de população civil, barbaridade inteiramente injustificável, moral e juridicamente. Não se trata de vítimas colaterais, mas de vítimas principais, alvos civis criteriosamente escolhidos. Crime sem atenuantes.
Por que a França? A França possui a maior concentrção de comunidade muçulmana da Europa. Pode ter sido uma forma de intimidação a esses islamitas franceses para que não se desviem dos preceitos de Alá. A França também se juntou à coalizão que vinha combatendo o Estado Islâmico, na Siria e Iraque, de que também participavam outras nações europeias e também países árabes, deslocados do eixo radical-fundamentalista..
O mundo já foi palco de duas grandes guerras, e é cenário de violentos conflitos étnicos, envolvendo muitas nações. Tudo somado, não se chega perto, nem de longe, ao horror absoluto do Estado Islâmico.
Mas como surgiu o jihadismo – ataques violentos de facções radicais do islamismo contra o Ocidente? Não surgiu dos erros e crimes dos ocidentais, embora tenha sido alimentado pela desastrosa invasão ao Iraque, decidida por George W. Bush e por seus conselheiros neoconservadores.
O Estado Islâmico surgiu no Iraque. Passou a se autodenominar, assim, a partir de 2013, e se tornou um califado, em 2014, com o autoproclamado califa Abu Bark Al-Baghadadi. É fruto de uma aliança entre sunitas fanáticos, com os remanescentes da polícia e do partido (Baath) de Sadam Hussein.
Segundo o Jornalista brasileiro Ruy Fausto, radicado na França, e que acompanhou de perto os atentados jihadistas de novembro último, em Paris, “o Estado Islâmico é, ao mesmo tempo, uma organização jihadista e terrorista, um exército, um território e mesmo um proto-Estado – em princípio parece não se encaixar em nenhuma categoria sociológica ou política. Assim, se pode ver nele a expressão de um arcaísmo, a volta a uma forma pré-moderna de poder. O Estado Islâmico é, em parte, isso, mas é também, mais que um arcaísmo, é uma forma de totalitarismo.”.
Conhecemos o totalitarismo através do nazismo alemão, nazi-fascismo italiano e socialismo soviético. A humanidade rejeitou, rejeita e rejeitará sempre qualquer forma de totalitarismo, mesmo que mascarado em democracias frágeis. Não será a esse totalitarismo de feições religiosas que o Ocidente vai aderir e a ele se se submeter, a despeito das ações de proselitismo e de recrutamento de crianças, adolescentes e jovens, principalmente europeus.
O fundamentalista radical, extremista, pode, e deve ser considerado uma variedade do totalitarismo, porque trata-se de um poder hiperautocrático, com uma ideologia de conquista, não só com um apelo a uma ampla mobilização popular, mas porque intervém, diretamente, em todo o tecido da vida individual das populações submetidas ao seu domínio ou que aderiram a ele.
Alguns querem crer que o jihadismo representa um progresso para aqueles que consideram que o mundo vai sempre, ou vai, afinal, para a frente, mesmo que por vias tortas. É o fetichismo do progresso, porque se vê na participação desses jovens jihadistas, um autêntico movimento emancipatória. Uma mitologia da Juventude. (FAUSTO, 2015)
Devemos sempre afirmar que o jihadismo é uma regressão. Ele não é essencialmente anticapitalista. É antidemocrático, o que significa outra coisa.
O que o jihadismo combate são as liberdades civis, políticas e sociais que existem no Ocidente. Aliás, mesmo que fosse anticapitalista, nem por isso se poderia chegar á conclusão de que ele seria necessariamente progressista.








