O ex-ministro Osmar Terra vai construindo um desprezível fim de carreira. Ex-comunista na juventude, perseguido pela ditadura (sua então namorada, posteriormente esposa viria a ser presa e torturada), ele aderiu ao bolsonarismo de forma tão oportunista e apaixonada, que chega a chutar a ciência e a medicina para endossar o discurso do novo líder na campanha contra o isolamento social.
É inimaginável que alguém que tenha sido vítima da ditadura seja tão despersonificado a ponto de aderir seus cultuadores.
A conversão foi tão radical, que nos últimos dias o ex-ministro, que também é médico, vocifera contra instituições de ensino internacionais e a Organização Mundial de Saúde (OMS), por contrariarem as orientações do presidente Jair Bolsonaro quanto ao fim do isolamento social como medida preventiva para conter a pandemia.
Para aferir o grau de mudança, é necessário entender a trajetória da personagem, porque em política o passado dos atores vem à frente. Traduzo abaixo trechos de uma reportagem do Zero Hora publicada em outubro do ano passado sobre o passado comunista de Terra:
Na militância, aproximou-se da presidente do DCE da PUC-Rio, uma estudante de psicologia chamada Mônica Tolipan, por quem se apaixonou. Com uma liderança natural sobre os estudantes, Mônica tornou-se alvo do regime militar. Presa três vezes, teve a detenção noticiada pelo The New York Times e motivou uma passeata de 6 mil estudantes por sua liberdade, reivindicada junto aos generais por dom Ivo Lorscheiter, à época secretário-geral da CNBB.
No cárcere, Mônica foi torturada pelo então chefe do Destacamento de Operações e Informações do Exército – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), Carlos Alberto Brilhante Ustra, ídolo dos bolsonaristas. Mantida num cubículo escuro e congelante, com água gotejando por dias sobre a cabeça, ela ouviu do carrasco que seria supliciada pelo “método inglês”, baseado em aflições psicológicas, já que não poderia machucá-la por conta da pressão de dom Ivo e da PUC.
Chamado de “César” ou “Comprido” em relatórios sobre “elementos envolvidos em atividades subversivas” feitos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), Terra sabia que vinha sendo monitorado. Logo após a soltura de Mônica, o casal decidiu fugir. Foram para São Paulo e marcaram um encontro na rodoviária com um casal de amigos e companheiros de militância, o hoje senador Jaques Wagner (PT-BA) e a esposa dele à época, Bete.
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No pós-ditadura, a carreira política do ex-ministro foi construída no MDB do Rio Grande do Sul. Como secretário de Saúde no Estado, era um defensor da medicina cubana, chegando a implantar programas similares aos adotados no país caribenho.
Hoje esconde este passado incômodo e repudiado nas hostes bolsonaristas, exibindo a insígnia de direitista como se esta opção fizesse parte de um passado como parlamentar e homem público.
Sua adesão ao bolsonarismo se deu no momento que seus votos minguavam no Rio Grande do Sul. No governo, procurou se aproximar da primeira-dama Michelle Bolsonaro, o que chegou a gerar controvérsias palacianas.
Hoje é um desertor de suas crenças e valores em troca de sobrevivência ao poder. Serviu também ao governo Temer. Adesista é uma praga. Nos tempos da ditadura muitos deles converteram-se em delatores.
Terra está mais afoito, porque sua investida agora é para derrubar o ministro Luiz Henrique Mandetta e assumir a pasta. Seu entusiasmo se intensificou depois que o presidente ameaçou usar a caneta para demitir auxiliares, o que foi interpretado como um recado direto a Mandetta.
Como todo político com este perfil oportunista, Osmar Terra terminará só, porque nunca conseguirá construir o caminho de volta ao ninho e jamais será verdadeiramente aceito nas fileiras em que se alistou, por mais subserviência que demonstre. Será tolerado enquanto for útil.








