No início dos anos 1970, Campos dos Goytacazes era palco de coragem e resistência. Em 1973, ainda estudante, assisti à peça “D. Xepa” no Teatro Múcio da Paixão do SESC. O que mais me chamou atenção foi o gesto ousado do diretor Orávio de Campos Soares, que convidava o público para integrar o Grupo de Teatro Experimental. Em tempos de repressão política, aquela atitude representava muito mais do que inclusão: era um convite à renovação e à liberdade artística.
Vivíamos sob o AI-5, período em que a censura impedia a livre expressão em filmes, peças, livros e músicas. Mesmo assim, Orávio seguia aberto a novos talentos, acolhendo interessados tanto no Jornal A Cidade quanto nos encontros aos domingos no teatro.
A convivência entre arte dramática e autoritarismo nunca foi possível. Prova disso foi a ordem de despejo imposta ao nosso grupo teatral, um golpe que nos expulsou do SESC. Sem espaço, ocupamos os jardins do Liceu, onde organizávamos reuniões para decidir como seguir em frente diante das dificuldades.
A resposta veio com o anúncio de que ocuparíamos o Teatro de Bolso. Enfrentamos, inclusive, o fechamento realizado pela ARTA (Associação Regional de Teatro Amador), mas a resistência era nossa principal força. Aceitei, então, o convite para participar do grupo, procurando Orávio no Jornal A Cidade. Foi nesse primeiro encontro que o chamei de “OráCio”, sendo gentilmente corrigido: era Orávio, de Campos Soares.
A partir dali, iniciei minha formação dramática – um momento que transformou o palco em território de descobertas e presenças marcantes. Passei a ser não só ator, mas espectador atento do teatro e do tempo, ao lado de Orávio. São 52 anos de convivência, aprendizado e resistência, com o compromisso de manter viva a união pelas artes.








