Em uma sociedade mediatizada, globalizada e “tele-idiotizada”, as imagens (simulacros) atravessam nossas vidas enquanto o ser humano se encontra permanentemente exilado de sua própria casa — sua pele, seu corpo — porque perambula num labirinto de imagens que pouco ou nada dizem sobre si. Ao contrário, em vez de refletir o indivíduo, essas imagens o inventam, deformam e convertem em um holograma, uma forma-espectro criada por outros.
Nós, seres humanos da era digital, não podemos escapar da “iconografia”, cuja tradução seria devorar e sermos devorados por imagens, de forma simultânea. Somos iconófagos de uma cultura universal, pasteurizada e homogeneizada. Por fim, passamos a servir de “comida” ou alimento para essa mesma cultura universal das imagens.
Essa é uma descrição cruel da nossa realidade cotidiana — essa é nossa condição inexorável.
Enquanto as imagens ainda eram apenas objetos de nosso olhar, sem a proliferação indiscriminada que conhecemos hoje, elas permaneciam externas, a uma certa distância de segurança. Agora, elas se tornam tirânicas dos nossos sentimentos e percepções. Nosso sistema social nos impõe imagens mentais pré-fabricadas. Nossas reações e sentimentos sobre pessoas e situações do mundo não decorrem mais de experiências diretas, mas de estereótipos que podem gerar preconceitos contra minorias, diferentes e estrangeiros que não conhecemos.
As imagens tendem a invadir e reinventar nosso arquivo histórico, nossa memória coletiva, colonizando nosso futuro, nosso imaginário e nossos desejos. Elas invadem nossa existência, afastando-a da vida real, projetando-nos numa dimensão virtual em que os sentidos e linguagens do nosso corpo são substituídos pelas imagens criadas pelas máquinas.
Dos três sentidos — tato, audição e visão — o último é o rei do nosso tempo, considerado o sentido da distância e da separação por excelência. Os dois primeiros caíram em desuso, reduzindo as possibilidades de contato do ser humano com a realidade concreta do mundo. Desligam-se as conexões com o mundo externo, desliga-se a “asthesis” (sensação), a porta pela qual o corpo inspira.
O confronto entre policiais e bandidos num morro carioca é um fato real, situado em espaço e tempo. Mas este fato só adquire autenticidade — uma “segunda certidão de nascimento” — quando torna-se visível e retransmitido como imagem, recriado como espetáculo. Corpos (atores sociais) e imagens de corpos ficam dissociados, expressos em dois sistemas cognitivos: corpo x imagem, ou realidade versus imagem midiatizada.
Nesse contexto, pode-se afirmar que os seres humanos estão condenados à distância, em detrimento do contato e da proximidade; condenados à superficialidade, em detrimento da dimensão espiritual; condenados a um pensamento “sentado”, “sedado”, condescendente e acrítico.
“As imagens tendem a invadir e reinventar nosso arquivo histórico, nossa memória coletiva, colonizando nosso futuro, nosso imaginário e nossos desejos”.
Modernamente, as teorias da comunicação consideram o corpo humano como mídia primária. Isso significa que o cenário social e cultural onde a comunicação ocorre não pode prescindir do corpo. Os corpos vivos são convocados para um estudo detalhado de suas implicações nos processos culturais, aproximando-se de uma semiótica humanista, lembrando que uma teoria da comunicação não pode desprezar a dimensão material da vida, assim como a espiritual e cultural-social nela projetadas.
Hoje, junto às mídias tradicionais — jornal, rádio, cinema, televisão e internet — acrescenta-se o corpo, como componente ativo dos meios, ponta geradora da comunicação e também ponta-alvo do processo, que existe em sua natureza de corpo. Nenhuma das pontas dissocia suas qualidades portadoras de memórias, história, historicidade e cultura.
Dieter Wiss, comunicólogo, engloba as linguagens corporais como ponto de partida e chegada do processo comunicativo, colocando o corpo como primeiro suporte dos textos culturais e da comunicação.
Isso amplia os limites do campo da comunicação, exigindo que os fenômenos comunicativos sejam abordados como processos culturais e históricos, procedentes de seres humanos vivos e seus corpos, alcançando, na outra ponta, outros seres humanos vivos e seus corpos.
Assim, o tratamento cultural da comunicação envolve os fatos geradores, não apenas técnicos, mas sobretudo culturais, pois é impossível pensar a comunicação sem sua vertente histórica dada pela cultura.
Da mesma forma, não se pode compreender os fatos da cultura — entendida como esfera dos anseios, leituras e relatos do espírito humano — sem considerar como ela se transmite e se conserva no tempo e espaço da vida. As formas de criar, transmitir e conservar a cultura humana são vistas como suas estratégias comunicativas.








