A série Adolescência, sucesso recente da Netflix, faz mais do que contar a história de um garoto acusado de um crime grave. Ela acende um alerta sobre o que adolescentes andam consumindo — e, mais do que isso, no que andam acreditando.
Jamie, o personagem principal, tem apenas 13 anos. Ainda assim, está inserido em fóruns online que espalham uma visão distorcida de mundo, onde meninas são vistas como ameaças e rapazes se sentem vítimas de um sistema cruel que os exclui de relacionamentos e da atenção feminina. O nome desse movimento? Incel.
A palavra vem do inglês involuntary celibate — celibatário involuntário — e se refere a pessoas, em sua maioria homens, que se dizem incapazes de viver relações afetivas ou sexuais, culpando as mulheres por isso. O que começou como um espaço de desabafo nos anos 1990 se transformou em comunidades online misóginas, onde o ressentimento virou regra e a frustração, combustível para discursos de ódio.
A série acerta ao mostrar que esse tipo de ideologia não está distante da nossa realidade. Ela chega de mansinho, através de vídeos, fóruns, “piadas” disfarçadas e códigos — como emojis usados para se identificar entre os membros do grupo. Os adolescentes, em busca de pertencimento e sentido, se tornam presas fáceis.
A adolescência é, por definição, um período de transição — uma travessia entre o mundo infantil e o adulto, onde o jovem constrói sua identidade, questiona regras e busca, mais do que nunca, sentir que pertence a algum lugar. Erik Erikson descreve essa fase como marcada pela busca da identidade. E quando esse adolescente se sente invisível — seja em casa, na escola ou entre os amigos —, a dor do não pertencimento pode ser avassaladora.
É nessa brecha que fóruns como os dos incels se tornam perigosamente acolhedores. A teoria ecológica de Bronfenbrenner reforça que o ambiente tem papel crucial no desenvolvimento humano. Se o entorno não acolhe, o adolescente buscará acolhimento em qualquer lugar — mesmo que esse lugar alimente o ódio. Ele encontra identificação, validação e uma falsa sensação de força. E, assim, começa uma bola de neve: quanto mais ele se conecta com essa visão distorcida, mais se afasta do mundo real, da empatia e do diálogo.
Pais e mães precisam estar atentos. Alguns sinais de alerta incluem:
- Isolamento social progressivo;
- Mudanças bruscas de humor ou comportamento;
- Discurso misógino ou depreciativo em relação a meninas;
- Obsessão com fracassos afetivos ou aparência física;
- Fascínio por conteúdos online radicais ou violentos;
Mais do que vigiar, é preciso se fazer presente. Em muitas famílias, as telas têm substituído os vínculos. O celular virou consolo, distração e companhia. E não é exagero dizer que, em muitos casos, a internet tem ocupado o lugar que antes era dos pais.
Vivemos uma era em que, mesmo dentro de casa, estamos cada vez mais distantes uns dos outros. As rotinas aceleradas, o cansaço, as exigências do trabalho e o excesso de estímulos digitais têm feito com que a tela substitua, silenciosamente, a presença dos pais na vida dos filhos. Em muitas casas, o afeto foi trocado por notificações.
Adolescentes não querem sermões, querem presença. Querem se sentir vistos, ouvidos e importantes. Querem saber que, mesmo quando erram, continuam tendo a quem recorrer. A invisibilidade emocional — dentro de casa ou na escola — é terreno fértil para o crescimento de dores profundas. E onde há dor sem acolhimento, há risco.
A pergunta que deixo é: seu filho se sente visto?
*Karoline Barbosa é psicóloga e escreve sobre comportamento, juventude e saúde emocional.








