A flexibilização de medidas de proteção contra o avanço da pandemia do novo coronavírus sem a oferta de testagens massivas não é um bom caminho, ainda que haja uma aparente estabilização na curva de contaminação.
É temerária principalmente no Brasil, onde o governo Federal atua como adversário das recomendações dos organismos internacionais e da atuação preventiva adotadas por Estados e Municípios. Há um descompasso visível entre os entes federados, com reflexos na curva ascendente dos casos da Covid-19, conforme demonstra o relatório A gestão de Riscos e Governança na Pandemia por Covid-19 no Brasil, elaborado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (CEPEDES), da Fiocruz.
ISOLAMENTO E LOCKDOWN
O isolamento social e o lockdown, temas mais polêmicos no conjunto de medidas, por contrariarem setores econômicos, foram recursos que contribuíram para conter a pandemia na China, na Itália, Espanha e outras regiões.
Nesses países, essas medidas só foram flexibilizadas mediante a oferta de testagens na medida em que o sistema de saúde foi capaz de responder às demandas.
Especialistas entrevistados pela instrutora Maryn MacKeyn no curso imersivo Journalism in a pandemic: Covering COVID-19 now and in the future, da Universidade do Texas (EUA), são unânimes em destacar que informações e dados são as melhores armas, no momento, para enfrentar o patógeno causador da Covid-19, que desafia a ciência e continua ceifando vidas.
Informações e dados com exatidão são essenciais. É necessário que haja mapeamento de bairros e localidades com maior índice de doentes sintomáticos e pacientes assintomáticos. Identificação por gênero, idade, classe social e outros. O que temos, no entanto, é um alto índice de subnotificações e dificuldades extremas ante a falta de aparato tecnológico.
As cidades estão completamente vulneráveis, com sistema de saúde precários ou com capacidade limitada, nível de dependência volumoso do Sistema Único de Saúde (SUS) e falta de recursos financeiros para arcar com emergências provocadas pelo desastre global.
Nesse ambiente vulnerável, há uma pressão intensa pela normalização das atividades comerciais, por parte deste segmento, ainda que o Brasil esteja a caminho se tornar o epicentro mundial da pandemia, na contramão do que acontece em outros países que adotaram medidas rigorosas.
Por isso, é preocupante que algumas cidades comecem a relaxar o isolamento social. O grande problema para prefeitos e governadores é manter o controle diante da falta de ações mitigadoras, porque a União que poderia imprimir moeda para socorrer os aflitos, se recusa a exercer o papel de manter ajuda emergencial a todos os setores.
A ajuda oficial, na verdade, tem se mostrado seletiva, priorizando o setor bancário, enquanto que a população de baixa renda enfrenta uma via crucis para alcançar uma ajuda de R$ 600.
MEDO NAS RUAS
Ainda que os governos relaxem, há um temor generalizado entre a população. Pesquisa XP/Ipesp realizada entre os dias 26 e 27 de maio, com 1.000 entrevistados em todo o Brasil, mostra que 48% da população está com muito medo em relação ao surto do novo coronavírus, enquanto que 41% diz que tem “um pouco de medo”
Por outro lado, 49% dos entrevistados diz que não está com medo do patógeno.
É neste percentual de destemidos que reside uma das grandes parcelas de risco de contaminação, porque é o contingente mais refratário em adotar medidas como uso de máscaras e distanciamentos nas ruas. São, portanto, os potenciais hospedeiros intermediários do novo coronavírus.
Ainda que o comércio e os empresários pressionem, as condições efetivas em termos de contaminação, governança da crise e fatores estruturais ainda recomendam o máximo de cautela.








