Há uma velha piada sobre um paciente que pede ao médico que lhe ajude a emagrecer. O médico diz ao paciente que a solução é simples: ele deve mover a cabeça da esquerda para direita e da direita para esquerda. Consternado, o paciente pergunta ao especialista quantas vezes deve repetir o movimento e o doutor responde que a técnica deve ser replicada todas as vezes que lhe oferecerem comida.
Na piada, temos um paciente que busca a solução de uma demanda pessoal e tem como resposta um perigoso desenlace, visto que a recomendação médica tanto não solucionará o seu problema inicial, como lhe encaminhará para a morte devido ao tratamento ineficaz, isto é, a subnutrição.
O chiste cafona e aparentemente bobo, oferece algumas pistas do impasse tecnocrático que organiza a democracia bolsonarista, especialmente quando supostos especialistas assaltam o volante do futuro nacional com suas “análises técnicas”.
Desde o início da pandemia, o desespero de Bolsonaro em lamber as botas do mercado nos fez padecer com o troca-troca de ministros da saúde.
É bem verdade que improvavelmente um profissional compromissado com a saúde pública aceitasse a participar de um governo tão desastroso quanto atroz. No entanto, mesmo esses sujeitos selecionados para maquiar os números reais da pandemia não resistiram as imposições tecnocráticas (e hipócritas) de que a crise econômica será pior que a pior crise da saúde pública da história recente.[1]
Mesmo nos aproximando ao triste número de 400 mil mortes por complicações médicas impostas pelo vírus, a ordem do dia segue sendo a urgência de “trabalhar para não morrer de fome”.
Neste discurso, é como se a versão contemporânea da expressão cruz e espada, no contexto brasileiro, se convertesse em “fome” ou “Covid”. Ou seja, a manutenção da vida humana sempre é adiada frente as prioridades do lucro.
A escolha entre “fome” e “Covid” é tão mentirosa que não deveria receber atenção, mas ela ganha dimensões de verdade pela lógica neoliberal da falsa escassez, mas conversaremos mais adiante sobre essa metodologia.
Durante uma calamidade mundial sem precedentes, oito novos brazilionários surgem e exibem suas fotos na Forbes enquanto 19,3 milhões de pessoas são calcificadas na extrema pobreza (Made-Usp)[2].
Curiosamente, os deputados da base aliada que se esgoelavam ao explicar a impossibilidade de um auxílio emergencial de R$ 600 ou R$ 1,200 e que os quase R$ 300 bilhões levariam a quebra do tesouro, nem pareciam ser as mesmas pessoas sorridentes ao aprovar R$ 1,2 trilhão da bolsa banqueiros.[3]
O país segue dirigido pelo fajuto conhecimento técnico de Paulo Guedes que afunda o país na inflação e a cesta básica fica cada dia mais inacessível para a classe trabalhadora. Por outro lado, setores conservadores da esquerda seguem em silêncio sobre a PEC dos gastos que paralisa a presença do Estado em investimentos públicos em saúde, educação e medidas de combate a extrema miséria.
A lógica de que as pessoas precisam trabalhar para não morrer de fome se fortifica quando a classe operária passa a comer mal, uma vez que a dieta da classe operária recebe dicas indiretas dos influencers do Planalto que restringem o acesso a comida.[4]
Na mesma onda, a fofíssima imprensa brasileira segue dando sugestões para economizar no supermercado ao mesmo tempo em que nos demonstra o quão rusticamente chique é cozinhar no fogão a lenha, uma vez que o preço do botijão de gás é impraticável.
Se artistas da Globo constroem suas próprias capelas para casar, porque o pobre não pode cortar umas toras de madeira para cozinhar, não é? A insegurança alimentar volta a números recordes e o problema crítico parece ser que um bando de maricas decide apontar o extermínio em potencial em um país que registrou mais de 4 mil mortes/dia por Covid-19 no mês de abril.[5]
Dentro deste panorama, a quarentena pífia e ineficaz não é capaz de fornecer condições para que os mais empobrecidos possam ter meios de subsistência. E chamo de quarentena pífia um ordenamento que sugere “#FiqueEmCasa” sem garantir condições de sustento do trabalhador.
A extrema-direita se utiliza bem desse dispositivo com a sua falsa preocupação com a sobrevivência dos mais pobres, no mesmo momento em que nos empurra para o matadouro.
Como na piada do inicio desse texto, a solução dada pelo parecer “tecnicamente” tosco da gestão de Paulo Guedes é sair para trabalhar para que os mais pobres não morram de fome quando não pagar os banqueiros ou aumentar os impostos para os mais ricos parecem os verdadeiros crimes de lesa humanidade.
Se Frederic Jameson e Slavoj Žižek argumentam que é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo, no Brasil parece mais fácil normalizar o extermínio dos mais pobres do que cobrar impostos das elites.[6] No entanto, tão maléfico quanto esse luto engasgado é o deboche midiático que nos faz normalizar o trauma, distanciando o debate da luta de classes que alertaria o trabalhador do sistema de desigualdade.
Nos enganamos quando dizemos que a nossa elite é burra. Ela não é burra, mas é perversa. Essa elite clientelista segue reproduzindo modos de escassez inventadas desde o período colonial. Por exemplo, no debate com Juan Ginés de Sepulveda, Frei Bartolomé de las Casas opta por defender o direito dos indígenas diante da colonização oferecendo os negros como objeto sacrificial, justificando a escravidão africana. Tudo isso no século XVI.
Sem ânimo de entrar no debate sobre como Bartolomé de las Casas inaugura os direitos humanos na região, aponto que apesar de seus méritos ao vislumbrar direito aos indígenas, ele desumaniza diretamente a afrodiáspora.[7]
Ao estender a humanidade para um grupo, Bartolomé de las Casas apoia a uma falsa escassez colonial que entendia que nem todos mereciam ser vistos com dignidade humana.
Se no período colonial o debate era relacionado à limitação da humanidade, hoje temos essas discussões trazidas para os benefícios da cidadania ou mesmo em termos de sobrevivência, até porque, segundo os ditos técnicos, não temos vacinas, remédios ou leitos para todes. Falta indagarmos se estamos diante a uma falta de recursos real ou inventada, para que vidas descartáveis possam seguir silenciadas para que a máquina do progresso não seja sabotada.
René Girard nos explica, grosso modo, que a falsa escassez do objeto de desejo é o sistema motriz da lógica sacrificial, em que o outro precisa ser exterminado para que eu (ou o meu grupo) sobreviva.[8]
Esse marco filosófico nos ajuda a considerar objetos que são ficcionalmente reduzidos de modo em que a sua limitação embase a ideia de conflito, notadamente entre os mais vulneráveis.
Basicamente, quero argumentar que, no Brasil, nunca tivemos uma quarentena de facto e mesmo assim escutamos os ecos negacionistas de que o isolamento (lockdown) não funciona. E pior, se seguirmos sem movimentar a economia, morreremos de fome porque o país irá quebrar. Argumentos baseados em uma escassez falsa, precisamente porque os recursos são quase que inteiramente alocados para os mais ricos, gerando noções de apartheid biológico.
Consideremos, por exemplo, os grupos de países quase que inteiramente vacinados ou os ricos que furaram a fila porque não suportavam mais a opressão de não poder viajar.
O Brasil não irá quebrar devido a ajuda humanitária – emergencial – mas sim pelo mau-caratismo de um Estado neoliberal que prefere que as pessoas morram de fome do que taxar bilionários. Enquanto isso, os mais pobres sofrem dentro de transportes públicos precários e abarrotados no meio da pandemia.
A necessidade de sair de casa e trabalhar só existe porque o Estado segue ausente, uberizando e estripando direitos trabalhistas. E, como sempre, retirando do povo para servir aos privilégios.
Se um dia foi possível dissimular a luta de classe (suposição que eu rejeito), hoje se torna impossível e as crises, agora econômica e biológica, são jogadas de volta contra os mais pobres, especialmente quando os corpos se empilham – seja nas filas por comida, seja nos necrotérios. Precisamos de alternativas que ignorem as soluções criminosas de pseudo-especialistas que manejam muito bem a arte de sacrificar a vida classe obreira. A classe proletarizada é exterminada para que as elites sigam com seu cio agressivo pelo lucro.
Retomando a piada inicial, talvez a pergunta não deveria ser economia ou saúde, mas sim: se aviltar frente aos bilionários ou a manutenção da vida na terra e consequente distribuição de renda? E se o médico nos sugere o glamour da desnutrição, devemos, no mínimo, estar aptos a reconhecer sua incompetência e rejeitar o seu projeto de morte.
P.S.: Trabalhadores que recebem menos de 2 milhões de reais ao ano, favor não se considerar parte da elite.
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[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-06/governo-bolsonaro-impoe-apagao-de-dados-sobre-a-covid-19-no-brasil-em-meio-a-disparada-das-mortes.html
[2]https://madeusp.com.br/publicacoes/artigos/genero-e-raca-em-evidencia-durante-a-pandemia-no-brasil-o-impacto-do-auxilio-emergencial-na-pobreza-e-extrema-pobreza/
[3] https://www.gov.br/pt-br/noticias/financas-impostos-e-gestao-publica/2020/03/banco-central-anuncia-conjunto-de-medidas-que-liberam-r-1-2-trilhao-para-a-economia
[4] https://www.otempo.com.br/economia/brasileiro-luta-para-comer-enquanto-agronegocio-tem-faturamento-recorde-1.2476384
[5] https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-04/covid-19-brasil-bate-recorde-com-4249-mortes-registradas-em-24-horas
[6] Fisher, Mark. Capitalist Realism: Is There No Alternative? Winchester, UK: Zero Books, 2009.
[7] Casas, Bartolomé de las, and Consuelo Varela. Brevísima Relación De La Destruición De Las Indias. Madrid: Editorial Castalia, 1999.
[8] Antonello, Pierpaolo, and Paul Gifford, eds. How We Became Human: Mimetic Theory and the Science of Evolutionary Origins. East Lansing: Michigan State University Press, 2015.








