Podemos acreditar em um futuro possível, sem as dificuldades e mazelas da Civilização que ela mesma engendrou? A pergunta só interessa enquanto denúncia da perda da autoestima, que é o mesmo que perder o impulso do desejo, do convívio com um modelo de subjetividade precária, marcada pela impossibilidade de sonhar, fantasiar, criar.
O indivíduo está voltado para o aqui e agora de suas necessidades vitais. Volta-se, tão somente, para o imperativo de sua sobrevivência biológica.
Depressão e perturbações psicossomáticas que figuram em estatísticas no Brasil e no mundo, nas últimas décadas, nos levam a suspeitar de que não podemos mais acreditar num vir a ser possível. Perder o poder de criar e sonhar, anular ou enfraquecer a capacidade de abstração gerando o empobrecimento da vida espiritual do ser humano, envolvido pelo estágio evolutivo atual, patrocinador desse cenário catastrófico, gerando graves patologias psíquicas.
O pensamento e a linguagem (responsáveis pelo simbolizar) tendem a empobrecer-se, restando para o indivíduo somente a possibilidade de descarregar as excitações psíquicas sobre o corpo. É o que especialistas da área psí afirmam: “o registro do corpo se avoluma no imaginário da sociedade brasileira. As individualidades estão sempre ameaçadas no plano do corpo que é o lugar privilegiado para a exibição de suas dores.”.
Quando estamos ameaçados pela morte simbólica, quando perdemos o poder de abstrair, somos lançados, automática e inevitavelmente, a uma vida nua, porque não somos capazes de manter uma vida qualificada. Incapazes que somos, portanto, de preservar e manter nossa vida qualificada, é quando o nosso corpo se destaca como lugar de risco maior para nossa existência.
O mundo psi não se desvincula da dinâmica da esfera do político-econômico-social, pois o que caracteriza, verdadeiramente, a economia neoliberal é o esvaziamento da ordem política, como instância de transformação decisiva da ordem social. Seguramente que vamos testemunhar o enfraquecimento do campo político, lugar da pluralidade de vozes, que se calam, diante da prevalência das forças econômicas, passando a orientar os diferentes Estados-nação existentes no planeta.
A mediação fundamental no campo social não pode mais contar com o Estado. A mediação passará a ser dominada pelas forças do mercado, que já se configuram agora numa escala global. Com isso, as elites nacionais passam a se associar às elites internacionais, em uma aliança perversa, preocupadas apenas com a lucratividade do Capital, enquanto as classes populares e a classe média proletarizada são lançadas cruelmente à vida nua.
O Estado não só perdeu sua soberania diante das forças hegemônicas, do capitalismo Internacional, como também restringiu bastante o seu poder de governabilidade sobre o seu território, jogando parcela significativa da população à condição de vida nua, que é obrigada a lançar mão da violência como estratégia para sua sobrevivência.
A lógica da desigualdade social se mantém inalterada, mesmo com a passagem da cultura da inflação para a cultura da estabilidade econômica. O fundamento da sociedade brasileira não se transformou, pois que a população continua em estado de grave vulnerabilidade social, entregue à violência, ao medo e à falta de proteção do Estado.
A condição cruel da vida nua é o que se deve destacar nesse cenário macabro, provocando a perda da autoestima que marca a ferro e fogo a alma do brasileiro e brasileira.
Paradoxalmente, a cartografia do mal-estar, na era da estabilidade econômica, provoca uma evaporação contínua de nossa vida qualificada.








