Em Hollywood, não existe concorrente para Esqueceram de mim[1] nas festas de fim de ano. [2]Macaulay Culkin conquistou fãs de todo o mundo com o Kevin, a criança mais corajosa do natal. A família McCallister, apressada e enrolada antes de partir para Paris, esquece o pequeno Kevin em Chicago.
A família, de classe média (muito) alta, mal podia esperar para aproveitar a data festiva na casa francesa, deixando provisoriamente a casa americana. Apesar do excelente título do filme em português, a versão brasileira não traz diretamente a imagem semântica da casa fornecida pelo original Home Alone (ou sozinho em casa – tradução livre).
A comédia natalina se dá pelas aventuras do menino que não apenas descobre que sua casa seria invadida, mas consegue interceptar os invasores trapalhões. De certo modo, esquecer o filho sozinho em casa foi a condição inusitada para a proteção da propriedade dos McCallister.
Kevin funcionou como um vigia improvisado, um recurso paliativo na defesa da propriedade privada contra o proletariado patife (Lumpenproletariat). Sem tempo para discutir o quase total apagamento da população negra e latina do filme neste texto, é pertinente notar que no primeiro filme tanto Chicago quanto Paris eram marcadas por um esvaziamento da pobreza.
As duas cidades são tomadas pela tristeza da família que se sente culpada por esquecer o filho, mas as poucas cenas do cenário urbano ofuscam qualquer imagem que apresente a desigualdade social. O clima é de celebração e o espírito natalino se certifica que a pobreza suma, mesmo que seja na base do cassetete pelos policiais que controlam a “limpeza urbana”.
No segundo filme da sequência, quando o menino Kevin se perde em Nova York, há uma representação dos empobrecidos e pessoas em condição de rua.[3] Se no primeiro filme, o espectador passa a maior parte do tempo no espaço fechado do avião, da casa, do aeroporto e da van; no segundo filme, os shots pelas ruas de Nova York retratavam as pessoas de rua com os olhos do capitalismo. Isto é, a miséria é convertida em monstruosidade.
Mas, no primeiro filme, o espectador segue (e torce) pelo menino em perigo dentro de seu espaço doméstico. Os shots, os cortes, a música e o movimento de câmera parecem sugerir que Kevin não estava necessariamente em perigo, pois a incursão seria contra os bens dentro da casa. De fato, os invasores nem sabiam que a casa estava ocupada.
O espectador, portanto, se torna em testemunha ocular das façanhas hercúleas do menino que ergue uma fortaleza em prol da propriedade burguesa. Os dois filmes nos apresentam as subjetividades da família de Kevin, mas jamais chegamos a entender as condições sociais de Harry e Marv.
Os ladrões, no contexto cômico, surgem como se a perversidade fosse sua condição ontológica, social e calcificada. No segundo filme, eles conseguem fugir da cadeia e seguem as margens de uma sociedade acostumada com o desperdício humano e não-humano.
Mesmo com uma família disfuncional, Kevin jamais considera se aliar aos expropriadores. Muito pelo contrário, trair sua classe era uma impossibilidade, razão pela qual Kevin cria uma condição de quase-extermínio dos trapalhões de Illinois. Kevin consegue assustar o entregador de pizza, prender a Harry e Marv e proteger sua casa para celebrar o natal com seus presentes e familiares.
Todos conseguiram retornar de Paris em um voo de última hora na véspera de natal (talvez conseguiram uma promoção improvável, talvez dinheiro não fosse problema).
Mas enquanto a narrativa convida o leitor a se identificar com o menino branco e indefeso que salva a festa de Papai Noel, o natal é o dia em que os empobrecidos Harry e Marv são presos. A catarse é justamente a prisão dos ladrões. Jamais chegamos a culpabilizar os pais de Kevin que até riem na frente do policial (no segundo filme) e dizem que é a segunda vez que esquecem o filho, “mas pelo menos nunca perdemos as malas”. A mão dura da lei parece só pesar para os mais pobres.
Kevin protege sua casa, mas não questionamos se os ‘criminosos’ tinham o que comer, se tinham filhos que não teriam formas de celebrar a data, se tinham uma casa enquanto uma família tinha casa em vários países… Esquecido em Chicago, o personagem de Macaulay Culkin salva a casa e todos celebram a derrota dos empobrecidos. Talvez a mensagem mais cruel do filme seja aquela que não queremos acreditar: possivelmente, até os filhos da burguesia estão doutrinados e bem-preparados para combater os miseráveis.
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[1] Columbus, Chris. Home Alone. 2015 [1990].
[2] Agradeço aos comentários de Eudes Lopes, Lindomar Darós e Rick Santos.
[3] Columbus, Chris. Home Alone 2: Lost in New York. Twentieth Century Fox Home Entertainment, 2009 [1992].








