Com que frequência temos a percepção consciente de nosso corpo? Alma, corpo, enfermidade é a tríade da qual tentamos nos desvencilhar, fingindo que ela, acima de tudo, não pode ser a causa da doença e da morte.
No entanto, a alma e o corpo adoecem, reféns do protagonismo da enfermidade.
O corpo é um ente existente, e abstraído de nossa atenção e interesse sistemáticos. Sem dúvida que tomamos os devidos cuidados e precauções, submetendo-o à nossa frágil vigilância – a higiene do dia a dia, a higiene preventiva, contra corpos estranhos que rondam nosso organismo tornam-se focos de nossa atenção: vírus, e bactérias, mais ou menos agressivas.
Temos notícias sobre o corpo quando ele chega à Terra e quando ele desce à cova. Alegria e choros de lamentos! São dois momentos em posição simétrica, essencialmente opostos.
O corpo está presente naqueles momentos em que se cumprem a ordenação divina, “crescei e multiplicai-vos”.
O corpo está sob o olhar atento da medicina e da ciência, das autoridades de saúde, das autoridades policiais e de cada cidadão, que passará a olhar o outro como portador de uma doença letal. Ficamos com dois exemplos: a lepra e a AIDS.
Historicamente, os portadores da lepra eram segregados, vítimas do abandono e da violência. A lepra deixava seus infectados, proscritos, entregues à própria sorte.
Num passado bem remoto, a lepra, quando descoberta no corpo de alguém, esse corpo era olhado com medo e desprezo e, em seguida, era jogado para fora dos “muros” da cidade. Hoje a lepra continua sendo uma doença contagiosa, mas sob o controle da medicina, com diagnóstico precoce e tratamento adequado muitas vidas são salvas.
A lepra é mais letal que o Coronavírus, que nos faz voltar ao nosso corpo e ocupar-se dele com os cuidados devidos.
Por enquanto, estamos no estágio de uma epidemia, porque a ocorrência dos casos da doença, além de se manifestar numa determinada extensa região geográfica, o número de infectados excede o número tolerável, de acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde).
Se a epidemia se espalha a nível global, ocasionando um surto epidêmico, ela atinge grandes proporções, podendo se espalhar por um ou mais continente, ou por todo o mundo, causando muitas mortes e destruindo cidades e regiões inteiras (o que seria uma pandemia).
AIDS, tuberculose, esquistossomose, peste, gripe asiática, gripe espanhola, tifo e outras são exemplos de pandemia.
Já a endemia tem duração contínua, porém, restrita a uma determinada área. Não se espalha.
Sobre o vírus ebola e outras doenças rapidamente letais, como a febre de Lassa, febre de Vale de Racha, vírus de Marburg e a febre de hemorragia boliviana são doenças altamente contagiosas e mortais, com o potencial teórico de se tornar pandemias no futuro.
Compulsoriamente, somos obrigados a ler nosso corpo. A nossa percepção chega a uma imagem de corpo que passa a ser linguagem e, inevitavelmente, vamos testemunhar a relação intrínseca que se estabelecerá entre olhos e discurso, cujo objeto é o corpo – a fisionomia, a expressão, o rosto.
O corpo, na expressão de sua exterioridade, se torna legibilidade, a visibilidade da aparência! Vamos trazer para as linhas desse texto o termo fisiognomonia, cujas técnicas eram usadas na medicina, no período medieval e no Renascimento, como ferramenta para diagnosticar várias enfermidades.
A fisiognomonia é simultaneamente maneira de dizer e formas de ver o corpo humano: semiologia da exterioridade, da aparência, do invólucro corporal. Trata-se de revelar, através de um exercício sistemático do olhar com o objetivo de chegar aos indícios que se alojaram na superfície do corpo – traços morfológicos ou expressivos, ou, na pior das hipóteses, sintomas, que passam a ser os sintomas clínicos de uma doença.
Os traços morfológicos do corpo e, sobretudo, do rosto, são pois, interpretados pelo discurso fisiognomônico como signos que podem ser de natureza viciosa, virtuosa, de sentimentos ou de paixões da alma, de propensões ou de caracteres, ou de pulsões ou de formações físicas.
Essa ciência, considerada hoje na China como uma subdivisão da medicina, dessa forma, foi estudada como “ferramenta” auxiliar para se proclamar um diagnóstico. A fisiognomonia tem suas origens na Índia, onde antigos habitantes desse país estudavam as rugas no corpo, suas causas e origens.
Nesse momento de epidemia por que passa a humanidade, discutir a formação discursiva médica, ou o discurso médico, fez com que a comunidade médica internacional recolhesse de volta às práticas médicas medievais e renascentistas (pré-científicas, nos parâmetros de hoje), momentos históricos em que a fisiognomônia assume a cena dos significantes do vocabulário médico especializado.
Prosseguimos, lembrando também, que a perspectiva fisiognomônica se assemelha, a princípio, à semiologia médica, sendo que a primeira, a fisiognomonia, em suas interpretações, leva em conta outro objeto e extensão, mesmo que as duas discursem sobre o homem exterior, com o objetivo de chegar ao homem psicológico.
Mas a segunda, semiologia médica, limitou, pouco a pouco, no seu exercício de diagnóstico, a arte de levantar pistas, restringindo-o ao significado central da doença, o que vai regrar, instrumentalizar, delimitar e purificar o olhar clínico.
Sob o olhar econômico, essa epidemia provocou uma grave crise econômica, conferida em indicações das Bolsas de Valores em todo o mundo. Há quem compare a crise atual à crise de 1929, ocasião em que se consumou a quebra da Bolsa de Valores de Nova York; ou compara-se à crise de 2008, causada pelo setor imobiliário, nos Estados Unidos.








