Em seu ensaio seminal sobre o canibalismo no Brasil, Michel de Montaigne (por volta de 1588) ilustra a geometria da violência colonial. O projeto de dominação europeia operava através de uma racionalidade objetiva, calculada e um terrorismo semimatemático. Afinal de contas, os trabalhadores do império precisavam documentar suas viagens. Mesmo a mentira precisava flertar com a verdade.
Michel de Montaigne discute como a violência afundou a civilização europeia em um fracasso irrecuperável, justamente porque essa brutalidade nunca era acidental já que partia de um cálculo minucioso. Para o intelectual francês, a civilização canibal, supostamente praticada onde hoje chamaríamos de Brasil, seguia uma lógica humanizante se comparada com o método imperial.
O colonizador se opunha ao canibalismo como forma de celebração do outro porque o sujeito colonizado nunca é celebrado no coração da metrópole. Aos olhos do império, comer o outro é inaceitável porque tal lógica incitaria a celebração da vida indígena.
Há um senso de igualdade fundante, um desejo de trazer o outro para dentro de si ou um senso de respeito por sua sociedade. Por outro lado, torturar o outro era a alternativa contra a ‘barbárie’ indígena. Nesta operação, a tortura imperial permitia a separação entre as duas civilizações baseada na crença de que o outro não tinha direito de existir em seu próprio corpo, tampouco na geometria colonial.
Quanto à geometria, Michel de Montaigne, assim como Théodore de Bry, oferece(m) um projeto quantitativo que apresenta a violência como uma ferramenta calculada em termos de tempo, espaço e território. Com o conceito de geometria, deve-se usar a definição clássica de uma área de estudo “interessada no espaço e nas formas”.
Nessa concepção, Montaigne explora a quantidade de armas, territórios e a forma do exército indígena para apontar a desvantagem dos nativos ao mesmo tempo em que criticava a arquitetura da violência imperial. Por exemplo, na gravura do pintor belga Theodore de Bry (imagem 1), notamos que há certa disparidade entre os indígenas em contraposição com os europeus no que tange a quantidade de aparatos e sujeitos.
Na pintura, o espaço superior é reservado aos colonizadores. Outro ponto relevante é que eles – os colonizadores homens – possuem os equipamentos de extermínio. Por um lado, os conquistadores recusaram o canibalismo por rejeitar a presença nativa em seus corpos; por outro lado, ofereciam-lhes aos cães como símbolo de que ambos pertencem à animalidade, abaixo dos embaixadores do império.
A pintura de Bry também revela a animalização daqueles que não pertenciam ao ditame de gênero e sexualidade dos europeus, discussão que supera os limites deste texto.
Em vez da barbárie como elemento indígena, Michel de Montaigne fala de canibalismo num sentido de amizade e política de cuidado desconhecidas pelos colonizadores portugueses e franceses. O canibalismo, na verdade, é positivado e representado por sua negação:
É maravilhoso a firmeza de seus combates, que nunca terminam a não ser em assassinato e derramamento de sangue; porque, de derrotas e pavor, eles não sabem o que é. Cada um traz de volta para seu troféu a cabeça do inimigo que ele matou e a amarra na entrada de sua casa (Montaigne, “Des cannibales”).[i]
Como podemos notar, há um desejo de trazer o outro para si. O sacrifício funciona como uma ligação com o sangue do outro, unificando os órgãos e imaginários dos dois exércitos. Em vez da lógica colonial em que vencidos são descartados, vencidos e vencedores pertencem ao mesmo espaço. Há respeito pela existência e trajetória do outro, nos moldes discutidos por Lévi-Strauss.
Em contrapartida, a vitória europeia propõe a degradação através do abuso físico. A tortura é a única forma de celebração. Neste ponto, Montaigne define que:
[…] Acho que há mais barbaridade em comer um homem vivo do que em comê-lo morto, em atormentar e embaraçar um corpo ainda cheio de sentimentos, assá-lo pelo cardápio, fazê-lo morder e machucar cães e porcos (como já não apenas lido, mas visto de memória fresca, não entre velhos inimigos, mas entrou vizinhos e concidadãos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e religião), do que assá-lo e comê-lo depois de morto (Montaigne, “Des canibais”).
Montaigne usa a mesma geometria do colonizador para lhe apresentar sua barbárie. Em certo sentido, o dito canibalismo indígena traz mais civilização do que o projeto civilizatório europeu do século XVI…
Há 100 anos, na Semana de Arte Moderna de 1922, o modernismo brasileiro sugeria o canibalismo como reinvenção de nosso imaginário artístico e literário.
O interessante no modernismo brasileiro é que a forma, o espaço e a arquitetura do corpo experimentam outras geometrias artísticas. Isto é, o corpo rejeita a ‘perfeição’ da forma e propõe uma forma canibal ou a reinvenção da bestialidade humanizante sul-americana – ilegível às lentes coloniais.

O modernismo, especialmente as obras de arte após o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (1928), como o exemplo de Tarsila do Amaral, imagina o corpo de um povo que se apropria dos conquistadores para celebrar a história latino-americana.
Abaporu (imagem 2) tem uma cabeça pequena e pés gigantes. Como reformulação de um imaginário que propõe a conexão com a terra e a sensibilidade da razão telúrica tenham preferência se comparados ao regime de violência imperial.
Tarsila do Amaral e seus companheiros modernistas vomitaram contra o projeto de tortura para reafirmar nosso propósito anticolonial. Se podemos dizer que o nosso modernismo é um projeto político é porque ele é um projeto contra os sintomas do colonialismo e imperialismo que invadiram o século XX.
Referências
Amaral, Tarsila do, d.1973. “Abapuru.” Art & Artists, vol. 11, Apr. 1976, p. 35.
De Andrade, Oswald. “Manifest Antropofagiczny / Cannibalist Manifesto.” Konteksty / Contexts, vol. 331, no. 4, Jan. 2020, pp. 47–52.
Larousse Dictionnaire Française – https://www.larousse.fr/dictionnaires/francais.
Montaigne, Michel de, 1533-1592., et al. Essais de Montaigne. Paris : G. Charpenter et cie, 1854.
Pontual, Roberto, author, and Jennifer, contributor Sales. “Semana de Arte Moderna.” Oxford Art Online, 2003.
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[1] Minha tradução.








