quarta-feira, 21 outubro, 2026
Portal Viu
  •  
  • Política
  • Cidade
  • Fonte Exclusiva
  • Economia
  • Mundo
  • Opinião
  • D+News
  • Colunistas
  • Apuração Eleições 2026
Nada encontrado
Ver todos os resultados
Portal Viu
  •  
  • Política
  • Cidade
  • Fonte Exclusiva
  • Economia
  • Mundo
  • Opinião
  • D+News
  • Colunistas
  • Apuração Eleições 2026
Nada encontrado
Ver todos os resultados
Portal Viu
Nada encontrado
Ver todos os resultados

Civilização canibal: 100 anos após a Semana de Arte Moderna

O modernismo brasileiro e a sugestão de um canibalismo como reinvenção de nosso imaginário artístico e literário 

André Nascimento Por André Nascimento
26/03/2022 - 18:28 - atualizado em 28/03/2022 - 14:56
em Opinião
A A
100 anos do antropofagismo da Semana da Arte Moderna

A semana da Arte Moderna foi um marco no Brasil | Foto: Reprodução

Compartilhar:

Em seu ensaio seminal sobre o canibalismo no Brasil, Michel de Montaigne (por volta de 1588) ilustra a geometria da violência colonial. O projeto de dominação europeia operava através de uma racionalidade objetiva, calculada e um terrorismo semimatemático. Afinal de contas, os trabalhadores do império precisavam documentar suas viagens. Mesmo a mentira precisava flertar com a verdade. 

Michel de Montaigne discute como a violência afundou a civilização europeia em um fracasso irrecuperável, justamente porque essa brutalidade nunca era acidental já que partia de um cálculo minucioso.  Para o intelectual francês, a civilização canibal, supostamente praticada onde hoje chamaríamos de Brasil, seguia uma lógica humanizante se comparada com o método imperial.  

O colonizador se opunha ao canibalismo como forma de celebração do outro porque o sujeito colonizado nunca é celebrado no coração da metrópole. Aos olhos do império, comer o outro é inaceitável porque tal lógica incitaria a celebração da vida indígena. 

Há um senso de igualdade fundante, um desejo de trazer o outro para dentro de si ou um senso de respeito por sua sociedade. Por outro lado, torturar o outro era a alternativa contra a ‘barbárie’ indígena. Nesta operação, a tortura imperial permitia a separação entre as duas civilizações baseada na crença de que o outro não tinha direito de existir em seu próprio corpo, tampouco na geometria colonial.

Leia Também

Entre palcos e palanques: o meio artístico ganha protagonismo na reta final da eleição

Será que ainda acreditamos na política ou já perdemos a esperança?

Quanto à geometria, Michel de Montaigne, assim como Théodore de Bry, oferece(m) um projeto quantitativo que apresenta a violência como uma ferramenta calculada em termos de tempo, espaço e território. Com o conceito de geometria, deve-se usar a definição clássica de uma área de estudo “interessada no espaço e nas formas”.

Nessa concepção, Montaigne explora a quantidade de armas, territórios e a forma do exército indígena para apontar a desvantagem dos nativos ao mesmo tempo em que criticava a arquitetura da violência imperial. Por exemplo, na gravura do pintor belga Theodore de Bry (imagem 1), notamos que há certa disparidade entre os indígenas em contraposição com os europeus no que tange a quantidade de aparatos e sujeitos. 

Na pintura, o espaço superior é reservado aos colonizadores. Outro ponto relevante é que eles – os colonizadores homens – possuem os equipamentos de extermínio. Por um lado, os conquistadores recusaram o canibalismo por rejeitar a presença nativa em seus corpos; por outro lado, ofereciam-lhes aos cães como símbolo de que ambos pertencem à animalidade, abaixo dos embaixadores do império.

A pintura de Bry também revela a animalização daqueles que não pertenciam ao ditame de gênero e sexualidade dos europeus, discussão que supera os limites deste texto.

 Os cães de Vasco Nuñez de Balboa (1475-1571) atacando os índios
Os cães de Vasco Nuñez de Balboa (1475-1571) atacando os índios

Em vez da barbárie como elemento indígena, Michel de Montaigne fala de canibalismo num sentido de amizade e política de cuidado desconhecidas pelos colonizadores portugueses e franceses. O canibalismo, na verdade, é positivado e representado por sua negação:

 É maravilhoso a firmeza de seus combates, que nunca terminam a não ser em assassinato e derramamento de sangue; porque, de derrotas e pavor, eles não sabem o que é. Cada um traz de volta para seu troféu a cabeça do inimigo que ele matou e a amarra na entrada de sua casa (Montaigne, “Des cannibales”).[i]

 Como podemos notar, há um desejo de trazer o outro para si. O sacrifício funciona como uma ligação com o sangue do outro, unificando os órgãos e imaginários dos dois exércitos. Em vez da lógica colonial em que vencidos são descartados, vencidos e vencedores pertencem ao mesmo espaço. Há respeito pela existência e trajetória do outro, nos moldes discutidos por Lévi-Strauss. 

Em contrapartida, a vitória europeia propõe a degradação através do abuso físico. A tortura é a única forma de celebração. Neste ponto, Montaigne define que:

 […] Acho que há mais barbaridade em comer um homem vivo do que em comê-lo morto, em atormentar e embaraçar um corpo ainda cheio de sentimentos, assá-lo pelo cardápio, fazê-lo morder e machucar cães e porcos (como já não apenas lido, mas visto de memória fresca, não entre velhos inimigos, mas entrou vizinhos e concidadãos, e, o que é pior, sob pretexto de piedade e religião), do que assá-lo e comê-lo depois de morto (Montaigne, “Des canibais”).

 Montaigne usa a mesma geometria do colonizador para lhe apresentar sua barbárie. Em certo sentido, o dito canibalismo indígena traz mais civilização do que o projeto civilizatório europeu do século XVI…

Há 100 anos, na Semana de Arte Moderna de 1922, o modernismo brasileiro sugeria o canibalismo como reinvenção de nosso imaginário artístico e literário. 

O interessante no modernismo brasileiro é que a forma, o espaço e a arquitetura do corpo experimentam outras geometrias artísticas. Isto é, o corpo rejeita a ‘perfeição’ da forma e propõe uma forma canibal ou a reinvenção da bestialidade humanizante sul-americana – ilegível às lentes coloniais.

Abaporu, 1928: Obra de Tarsila do Amaral, do modernismo brasileiro
Abaporu, 1928 | Reprodução

O modernismo, especialmente as obras de arte após o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (1928), como o exemplo de Tarsila do Amaral, imagina o corpo de um povo que se apropria dos conquistadores para celebrar a história latino-americana. 

Abaporu (imagem 2) tem uma cabeça pequena e pés gigantes. Como reformulação de um imaginário que propõe a conexão com a terra e a sensibilidade da razão telúrica tenham preferência se comparados ao regime de violência imperial. 

Tarsila do Amaral e seus companheiros modernistas vomitaram contra o projeto de tortura para reafirmar nosso propósito anticolonial. Se podemos dizer que o nosso modernismo é um projeto político é porque ele é um projeto contra os sintomas do colonialismo e imperialismo que invadiram o século XX.

 Referências

Amaral, Tarsila do, d.1973. “Abapuru.” Art & Artists, vol. 11, Apr. 1976, p. 35.

De Andrade, Oswald. “Manifest Antropofagiczny / Cannibalist Manifesto.” Konteksty / Contexts, vol. 331, no. 4, Jan. 2020, pp. 47–52.

Larousse Dictionnaire Française – https://www.larousse.fr/dictionnaires/francais.

Montaigne, Michel de, 1533-1592., et al. Essais de Montaigne. Paris : G. Charpenter et cie, 1854.

Pontual, Roberto, author, and Jennifer, contributor Sales. “Semana de Arte Moderna.” Oxford Art Online, 2003.

_________________

[1] Minha tradução.

Tags: #Abopuru#Andre Nascimento#Modernismo brasileiro100 anos da Semana da Arte ModernaObra de Tarsila do Amaral
Notícia anterior

Vaza trecho obsceno de entrevista da Band com morador de rua espancado por personal

Próxima notícia

Bolsonaro aciona TSE contra Festival após falas pró-Lula de Pabllo Vittar

André Nascimento

André Nascimento

Doutorando em literatura hispânica na Universidade Cornell, com ênfase em estudos latino-americanos, filosofia política, literatura contemporânea e populismo. Mestre em Literatura Brasileira e Literaturas Hispânicas pela Universidade do Novo México (EUA).

Próxima notícia
Bolsonaro aciona TSE contra Lollapalooza após falas pró-Lula de Pabllo Vittar

Bolsonaro aciona TSE contra Festival após falas pró-Lula de Pabllo Vittar

Taylor Hawkins, baterista do Foo Fighters, morreu de overdose de drogas.

Baterista do Foo Fighters morreu de overdose, dizem autoridades

COLUNISTAS

Entre palcos e palanques: o meio artístico ganha protagonismo na reta final da eleição

Fabrício Cabral
21/10/2026 05:09

Temperança marca a transição para outubro com mensagem de equilíbrio e renovação

Carlos Fracho
28/09/2026 05:56

Na mira do MPRJ: Ala inaugurada em 2024 no Hospital Manoel Carola nunca funcionou 

Douglas Fernandes
25/09/2026 04:20

Mentira e eleição: quando convencer vale mais que dizer a verdade

João Vicente
15/09/2026 08:44

Frederico Paes e o governo que tenta trocar espetáculo por entrega em Campos

Roberto Barbosa
07/07/2026 11:23

STF e autismo: quando a condição precisa ser visível para ser reconhecida

Karoline Barbosa
28/05/2026 09:10

Thiago Rangel mantém influência na Alerj mesmo após afastamento, aponta blog

Mathilde no Poder
14/05/2026 10:05

A história de Jacyr Barbetto em Campos dos Goytacazes-RJ (Parte II)

Leonardo Santos
01/05/2026 11:30

EDITORIAS

Brasil Canal VIU Cidade Concurso Cultura D+News Economia Esporte Fonte Exclusiva GEEK Mundo Opinião Política Saúde Tecnologia
Portal Viu
Universidade Candido MendesO

 

Notícias das cidades do Estado do Rio de Janeiro, com destaque para Macaé e Campos dos Goytacazes, além dos principais acontecimentos do Brasil e do mundo.

Conheça o Portal VIU!

E-mail: [email protected]

  •  
  • Política
  • Cidade
  • Fonte Exclusiva
  • Economia
  • Mundo
  • Opinião
  • D+News
  • Colunistas
  • Apuração Eleições 2026

Nada encontrado
Ver todos os resultados
  •  
  • Política
  • Cidade
  • Fonte Exclusiva
  • Economia
  • Mundo
  • Opinião
  • D+News
  • Colunistas
  • Apuração Eleições 2026

Welcome Back!

Login to your account below

Forgotten Password?

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Log In
Brasil inteiroVer por estado
Carregando dados oficiais do TSE…
Fonte: TSEAcompanhar apuração completa →

Add New Playlist