No cenário turbulento da política brasileira, mais um capítulo polêmico se desenrola: a cassação do mandato do deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ). Conhecido por seu posicionamento combativo e suas falas incisivas contra o sistema, Braga passou a enfrentar um processo que escancarou não apenas as disputas internas do Congresso, mas também os mecanismos que sustentam — ou silenciam — vozes dissonantes dentro da Câmara dos Deputados.
O que leva um deputado a ser cassado?
A cassação de um deputado federal é um processo complexo e, teoricamente, raro. Para que isso ocorra, o parlamentar precisa infringir o decoro parlamentar, ou seja, agir de forma considerada desonrosa, antiética ou incompatível com o cargo que ocupa. As situações que podem levar à perda do mandato incluem:
- Corrupção ativa ou passiva
- Uso indevido de verbas públicas
- Comportamentos criminosos (com condenação em instância definitiva)
- Quebra de decoro parlamentar (insultos, mentiras, ataques infundados, etc.)
O processo se inicia geralmente com uma representação no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, que avalia se há elementos suficientes para abrir um inquérito. Se aprovado, o processo segue para a votação em plenário, onde é necessário o voto favorável de dois terços dos deputados (342 dos 513) para a cassação se concretizar.
O caso Glauber Braga: Cassação ou retaliação política?
Glauber Braga sempre foi uma pedra no sapato do “centrão” e da velha política. Denunciou o conchavo entre bancadas e a submissão do parlamento a interesses empresariais. Suas falas, por vezes, inflamadas e irônicas, miraram diretamente figuras poderosas dentro do Congresso, inclusive presidentes da Câmara.
A justificativa usada para sua cassação girou em torno de uma suposta “falta de decoro”, após ele expulsar da Câmara o influenciador Gabriel Costenaro, integrante do MBL, aos chutes. No entanto, há quem diga que seu verdadeiro “crime” foi falar demais, ousar demais e, acima de tudo, não se calar.
Nesse sentido, a cassação de Glauber Braga é vista por muitos não como uma punição legítima, mas como uma forma de silenciamento político — uma retaliação orquestrada pelos mesmos que querem manter o status quo intocado.
Ali Babá e os 40 Deputados: Uma Câmara de Fábulas e Farsas
A comparação da Câmara dos Deputados com o clássico “Ali Babá e os 40 ladrões” pode parecer exagerada à primeira vista, mas é profundamente simbólica. No conto, Ali Babá descobre uma caverna secreta onde um bando de ladrões esconde seus tesouros roubados. A senha para entrar? “Abre-te, sésamo”.
Na metáfora moderna, o “sésamo” seria o jogo político: conchavos, emendas secretas, troca de favores, blindagem de aliados e punição de opositores. A câmara, em vez de ser a casa do povo, torna-se uma caverna onde muitos entram para enriquecer, proteger interesses escusos e se perpetuar no poder.
A cassação de um deputado como Glauber — que, independentemente de concordar ou não com sua postura, tem um histórico de enfrentamento contra esses mecanismos — é mais um sinal de que a lógica dominante não é a da ética, mas a da conveniência. Quem grita contra o sistema é rapidamente isolado, taxado de radical ou desequilibrado, enquanto os que “jogam o jogo” seguem ilesos, mesmo diante de denúncias graves.
A cassação de Glauber Braga deixa uma marca na política brasileira. Mostra que, muitas vezes, o problema não é o que se faz, mas quem está disposto a denunciar o que os outros fazem. Enquanto isso, o povo observa, muitas vezes descrente, esse teatro em que os atores são sempre os mesmos e os roteiros, tristemente, também.
E assim, a Câmara segue parecendo menos com uma casa legislativa e mais com a caverna dos 40 ladrões — só que sem o final feliz das fábulas.
Pedro Henrique de Salvo Barbosa é pesquisador com passagem pelo Ceperj, IBGE é investidor nos mercados nacionais e internacionais, escreve regularmente para o Portal VIU!. Siga o no Linkedin.








