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Campos, um município que flerta com a crise climática

Marcos Pedlowski Por Marcos Pedlowski
16/10/2024 - 13:50
em Opinião
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Protesto do Greenpeace Brasil no leito seco do Rio Solimões: seca extrema leva rios na Amazônia e Pantanal a mínimas extremas (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace)

Protesto do Greenpeace Brasil no leito seco do Rio Solimões: seca extrema leva rios na Amazônia e Pantanal a mínimas extremas (Foto: Nilmar Lage / Greenpeace)

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Há poucos meses um professor da Universidade Nacional de Brasília (UNB) veio a Campos dos Goytacazes para participar de uma banca examinadora na Uenf e me confessou sua surpresa com a completa inexistência de matas ciliares ao longo dos corpos hídricos sobre os quais ele sobrevoou antes de aterrisar no Aeroporto Bartolomeu de Lizandro. Segundo esse professor que é um estudioso dos chamados serviços ecossistêmicos, a falta de matas ciliares seria um péssimo prenúncio para a capacidade de adaptação às oscilações climáticas que estão ocorrendo como parte do “novo anormal climático”.

Disse a esse pesquisador que o que ele tinha visto era apenas a ponta de um iceberg de um longo histórico de destruição ambiental que ocorreu para a implantação de diferentes monoculturas na região Norte Fluminense, sendo a cana de açúcar a mais persistente.

Graças à monocultura da cana não apenas tivemos ao longo do Século XX a quase completa destruição das florestas de Mata Atlântica, mas também o avanço sobre importantes corpos hídricos que foram drenados para que os latifundiários locais pudessem ter mais terra, sendo a Lagoa Feia o maior exemplo disso.

Se olharmos também para a situação periclitante do Rio Paraíba do Sul que continua sendo represado e drenado de grandes quantidades de água antes de chegar em nosso município, o que temos é uma espécie de um grande acidente ambiental em desenvolvimento diante dos nossos olhos.

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Ao se permitir o represamento continuado do Paraíba do Sul em combinação com a quase completa remoção das florestas naturais e matas ciliares, o que está se plantando é uma grande crise hídrica que poderá deixar Campos dos Goytacazes pendurada na broxa, na medida em que poderemos virar uma cidade construída ao longo de um leito de rio seco, ao menos em partes do ano.

Enquanto o problema que se coloca diante de nós tem uma escala de grande tragédia socioambiental, as respostas até aqui são, no mínimo, inexistentes.  O chamado comitê de bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana não passa de uma sigla quando se trata de enfrentar as causas da crise hídrica que se desenvolve diante de nossos olhos, enquanto órgãos ambientais como o Inea e o Ibama seguem o mesmo caminho de omissão.

Para piorar o que já é ruim, os municípios desta região, com Campos no leme, não possuem nada próximo do que se poderia chamar de um plano de adaptação climática que comece a proteger os nossos rios e lagoas. É como se todos os prefeitos, a começar por Wladimir Garotinho, achassem que tudo que está por vir de ruim se dará por obra divina.  Wladimir Garotinho, inclusive, conseguiu o feito de fechar a secretaria municipal de Meio Ambiente, justamente em um momento em que a crise climática se torna cada vez mais óbvia e com efeitos ambientais drásticos.

Apesar da crise climática e suas consequências sobre a disponibilidade de água terem sido ilustres ausentes das eleições municipais recentemente realizadas, o fato inescapável é que precisamos começar a trilhar um caminho diferente de forma urgente. Em uma uma mesa de debate realizada durante a XI Jornada de Políticas Sociais realizada nos dias 8 e 9 de outubro, um dos palestrantes sugeriu que o prefeito de Campos fizesse uma espécie de “Plano Marshall” do reflorestamento, de modo a amenizar a crise climática e seus efeitos sobre a disponibilidade de água e a temperatura. Para o palestrante, com esse plano de reflorestamento, o prefeito conseguiria não apenas gerar um grande número de empregos, mas também abriria um novo horizonte ambiental para Campos dos Goytacazes.

O fato é que sem uma ação compreensiva e urgente para iniciar o processo de adaptação climática, a nossa região terá tempos muito difíceis pela frente, na medida em a transformação recente dos leitos dos principais rios amazônicos em planícies arenosas pode ser um prenúncio do que ainda por ocorrer com o Paraíba do Sul. E a questão inescapável para os campistas: se o Paraíba do Sul secar, de onde virá a água que mata a nossa sede de cada dia?

Tags: Campos dos GoytacazesMeio Ambiente
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Marcos Pedlowski

Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Campos-RJ; Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em "Environmental Design and Planning" pela Virginia Tech.

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