Segundo o raciocínio de Antonio Candido (1992), ao afirmar que “O problema é que a magnitude do assunto e a pompa da linguagem podem atuar como disfarce da realidade e mesmo da verdade” e ainda que “A Literatura corre com frequência este risco, cujo resultado é quebrar no leitor a possibilidade de ver as coisas com retidão e pensar em consequência disso” (Idem), não é difícil apontar para certas questões que têm vindo à baila neste momento porque passa o nosso país e as representações midiáticas e/ou artísticas literárias em torno de manifestações que traduzem o descontentamento, a revolta e a humilhação a que, na cena contemporânea brasileira, somos todos feitos reféns. Isso ocorre desde que Brasil é Brasil, desde que ainda no início da República.
O certo é que o Brasil (não diferentemente do mundo!) vive um momento de tensão e pode estar diante de um retrocesso injustificável causado pelo suposto abuso de autoridades policiais e criminalização pelo Estado dos integrantes de protestos no país, e até mesmo pela morte de muitos civis. Descrédito da justiça, teatro da crueldade para iludir aqueles que ainda acreditam no slogan positivista “Ordem e Progresso” de nossa bandeira.
Sobre o Brasil atual, o diretor da Anistia Internacional Átila Roque já havia se manifestado sobre o enquadramento de manifestantes em crime de formação de quadrilha e a decretação de prisão preventiva por suposta incitação à violência pelas redes sociais. É uma arbitrariedade ainda enfrentada pelos ativistas no nosso país.
Em “O frívolo cronista”, Carlos Drummond de Andrade define a crônica como “a representação daquilo que não caberia em certos espaços do jornal, tidos como nobres, como aqueles reservados à informação apurada, às altas missões. No entanto, a crônica, apesar de parecer um espaço descompromissado, ainda é o lugar ideal para que “os nadas de uma existência ganhem voz”. (Drummond, 1998, p. 199).
Voz! Essa é a tópica do momento. Ou vozes, para fazer jus ao coro de vozes que se apresenta na Literatura lato sensu. No todo, o país vive um verdadeiro caos na sua brasilidade, na sua latinidade e não precisamos ir muito longe para entender nossas próprias contradições e paradoxos. Parecem vozes do nada! Vozes das marginalidades, das periferias, da violência, da fome, das mortes, da corrupção e da maldição. São também diversas redes sociais, mídia eletrônica sensacionalista e imprensa chapada, todas ávidas de público e sucesso.
A representação da brasilidade hoje, fantástica, visionária ou mesmo quixotesca está fadada ao esquecimento rápido e ao fracasso, trazendo ao nosso país uma cara caricata, exposta à pilhéria tanto quanto está impregnada de fome!








