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As possíveis alegorias de “Josefina, a cantora”, de Kafka

redacao Por redacao
14/05/2015 - 02:11 - atualizado em 08/03/2019 - 19:30
em Opinião
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Crônica de Deneval Siqueira de Azevedo Filho

Crônica de Deneval Siqueira de Azevedo Filho

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Franz Kafka é considerado por seus estudiosos um “ensimesmado misantropo”  ou “um sublime ensimesmado misantropo” e agora, mais de um século após sua morte, sua literatura é aclamadíssima, estudada e ganha estudiosos da crítica literária e da filosofia.

A verdade é que, dentro da obra kafkaniana, na qual sentimentos como solidão, desespero, ensimesmamento e negação do eu (num existencialismo duro e sucinto) abundam de um lado a outro das páginas, em paralelo à narrativa ímpar, brilhante e talvez seca, surge o conto Josefina, a cantora, ou do povo dos ratos como o enigma da esfinge.

O estudioso da obra kafkiana, Modesto Carone (cuja apresentação, em matéria de Kafka, se faz desnecessária), afirma que esse conto bem-humorado “na aparência” teria sido inserido por Kafka na coletânea Um artista da fome, aprovada para publicação no último ano de vida do escritor (1924), unicamente em razão de não ter conseguido concluir o conto A construção a tempo suficiente de atender a editora de Berlim. Entretanto, mesmo tendo sido assim, é uma daquelas obras alegóricas que valem a leitura e a reflexão.

Tanto vale a leitura e o peso da reflexão que Adolfo Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvina Ocampo não dispensaram essa narrativa kafkaniana da participação em sua Antologia da Literatura Fantástica de 1940, reeditada em 1965 e que chegou ao Brasil em 2013 numa das edições de luxo da Cosac Naify, onde reuniram os contos fantásticos que mais apreciavam em todos os tempos.

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O conto inteiro cruza duas histórias das quais emerge uma alegoria: primeiramente a história de Josefina, a rata cantora (vale uma reflexão!), depois a história do povo dos ratos e, por fim, a alegoria de uma artista ensimesmada inserida num povo de trabalhadores, num povo de ratos, o que nos parece o resultado da junção de ambas as histórias anteriores, que podem ser contextualizadas, enquanto alegorias, na cena contemporânea local, regional, nacional e universal. Por isso mesmo tal literatura foi considerada por Félix Guatarri e Deleuze como uma “literatura menor”.

Um narrador anônimo, a não ser pelo fato de ser rato e de ser um “opositor” à ascensão de Josefina, conta as duas histórias principais do início ao fim, narrando com simplicidade e clareza como era a vida do povo dos ratos, “um povo de trabalhadores” que não tinha tempo para o descanso e nem sequer para serem crianças por muito tempo, vez que tão logo os filhotes conseguissem andar e enxergar eram incumbidos dos trabalhos dos adultos e da luta pela sobrevivência, ao passo em que novas ninhadas enormes de filhotes nasciam uma após a outra: “mal uma criança aparece, já não é mais criança, e é empurrada por novos focinhos, indistinguíveis na multidão apressada”, “uma geração empurra a outra; as crianças não têm tempo de serem crianças” – o que trivializava o nascimento e a infância curta.

Esse era ainda o povo que guinchava em lugar da fala habitual, dos grandes aglomerados populacionais em suas sociedades, um povo repleto de inimigos por todos os lados, que vivia do trabalho árduo e não sabia o que era a música – a não ser por uma cultura antiga na qual, um dia, todos cantaram. Cantaram por quê? – pergunto. De alegria ou de tristeza? Samba ou Chorinho? Ou ambos?

Em sentido oposto ao de seu povo está Josefina – a única nominável e, portanto, não indigente, no conto. Josefina é uma rata cantora que entende de música. Na realidade, não se sabe se por mera inflamação de opositor ou se por transcrição fiel da observação, conta o narrador que o talento de Josefina não é necessariamente o de cantar, mas uma espécie de encanto que gira em torno de sua pessoa simbólica e teatral (Várias poderiam ser as metáforas e alegorias aqui, KKKKKKKKKKKKK! Evita Peron?). Digamos que os cacoetes que Josefina faz antes, durante e depois de cantar, dão a si uma carga de respeito cerimonial, apenas diante dela as multidões de ratos se põem em silêncio e não toleram interrupções desagradáveis ao seu canto, como se Josefina tivesse uma espécie de autoridade incompreensível, ou se se arvorasse a salvadora de seu povo – o que, no dizer do narrador, seria fácil por se tratar de um povo “tão acostumado com a desgraça, nem um pouco indulgente consigo mesmo, rápido em tomar decisões, bem conhecedor da morte, temeroso apenas na aparência”. Mera coincidência com o povo campista-goitacá?

Mas acontece que Josefina não canta, como afirma o rato-narrador, Josefina tem um guincho como o guincho natural a qualquer outro rato e, pior: “não consegue nem guinchar direito; é terrível o esforço que ela faz, não para cantar – não estamos falando de cantar –, mas para conseguir, bem ou mal, o guincho de sempre”.

Assim, o canto ou a ideia que todos fazem do canto é uma espécie de aura que envolve a atuação teatral de Josefina e a suma importância que ela dá à sua arte, afinal “o que Josefina deseja é o reconhecimento público, unânime, imorredouro, de sua arte”. E no fim das contas toda a admiração por Josefina é justificada da seguinte forma: “admiramos nela o que não admiramos em nós”. O que seria? Josefina entrou por uma porta e sairá pela outra. Quem quiser que conte outra! Mas talvez em razão da arte inútil de todos eles, ratos, sejamos menos ratos.

Tags: Cantora GritanteFranz Kafka
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