Ver e ler o mundo através das lentes da palavra é construir e reconstruir este mesmo mundo, numa perspectiva egocêntrica, compartilhada, ou não. Quando nos apossamos do seu potencial, fazemos com que essa palavra apreendida, transparente, se interponha entre o sujeito (qualquer ser pensante) e o objeto (tudo o que não é o ser), negociando seu ser-no-mundo.
Mas, num passado bem remoto, a palavra circulava como objeto eficaz, entre os cidadãos, para construir o mundo e consciências. Não vê-la tão somente por seu significante, ou significado, paralisantes e/ou dinâmicos.
A palavra deveria estar longe dos equívocos, porque ela chega a nós, como sentido em si, através de dois de nossos canais perceptivos: a audição e a visão. No entanto, a palavra não deixará de ser geradora de conflitos, capaz de provocar desde os pequenos incidentes de desentendimentos entre pessoas, até uma declaração formal de guerra.
Na Grécia Clássica, a palavra circulava livremente, no espaço público, chamado Ágora, local “sagrado”, da palavra anunciante.
Se os gregos não inventaram a palavra, que eles chamavam Logos, eles a utilizaram para erguer conceitos, forjar pensamentos à base de uma racionalidade, que era entendida por Verdade, Bem e o Bom. Uma verdade unificadora, surgida numa sociedade politeísta, mas conduzida pelos preceitos filosóficos de Sócrates, Platão e Aristóteles.
O método de extração da Verdade, que se encontra latente em cada um de nós, sem que tenhamos consciência disso, chamava-se maiêutica, cujo praticante, o filósofo Sócrates, valia-se dessa estratégia, preparando o ambiente possível, onde deveria ser desenvolvido o espírito científico, como o caminho, também, de uma ascese místico-religiosa.
Se Sócrates e Platão estabeleceram a dualidade do mundo, ou seja, a natureza cósmica se constituía de um mundo imanente, material, físico; e, de outro lado, de um mundo transcendente, imaterial, lugar para onde iam as almas dos mortos, eles estavam na vanguarda do pensamento espiritualista, que viria a ser desenvolvido, a seu tempo, pelo Cristianismo e pelo Espiritismo.
Mas os pilares do pensamento grego e do mundo Ocidental, Sócrates, Platão e Aristóteles, legaram ao mundo problemas e questões que nos chegam à atualidade, como força geradora de novos ciclos de pensamentos e reflexões, com ‘novas’ elaborações, sem, no entanto, perder a base primitiva.
Se houve a tentativa de se trazer ao homem comum o conhecimento das realidades além da matéria, o mundo material foi alvo da atenção de Aristóteles, que buscou alcançar a diversidade do mundo mineral, vegetal e animal, catalogando-a e classificando-a.
Sua concepção física da existência, sua busca pela materialidade, levou-o ao conceito de metafísica, que abriria e sustentaria um novo caminho para as realidades invisíveis.
Só a cultura grega seria capaz de acolher uma língua que se desenvolveria em seu máximo potencial, e aprendeu como estabelecer o contato com o Logos, num assombro de lucidez criativa e inovadora, da mesma forma que só a cultura hebraica poderia forjar e receber o Velho e o Novo Testamentos, que legaram à humanidade um código de ética e moral que se consolidaria ao longo de milênios.
O Logos grego é o Verbo latino. O Evangelista João inicia seu Evangelho com a assertiva “no princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne”. A palavra, dom criador de Deus, se fez presente entre os homens, instituindo a racionalidade, que apontava para a realidade subjetiva.
Em um de seus “Eu sou …”, Cristo se definiu como sendo o Caminho, a Verdade e a Vida: “eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”.
A cultura grega, na sua expressão filosófica potente e universalista, de valor ético-moral, prenunciou, em séculos, o advento do Cristianismo, no seio do judaísmo, eloquente estratégia de um monoteísmo, que se desenvolveria plenamente com o Cristo.








