Em um movimento coordenado que altera o cenário diplomático internacional, Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal anunciaram neste domingo (21/09) o reconhecimento formal do Estado palestino. A decisão representa uma significativa mudança de posicionamento de importantes nações ocidentais e amplia a pressão sobre Israel em meio à guerra em Gaza, que já dura quase dois anos .
Os anúncios foram feitos estrategicamente às vésperas da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, que começa nesta semana em Nova York, onde se espera que outros países como França, Bélgica, Luxemburgo e San Marino também formalizem seu reconhecimento do Estado palestino .
Decisões históricas e simbolismo
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou em mensagem de vídeo: “Hoje, para reavivar a esperança de paz para os palestinos e israelenses, e uma solução de dois Estados, o Reino Unido reconhece formalmente o Estado da Palestina”. Starmer destacou a “responsabilidade moral de agir” diante do “crescente horror no Oriente Médio” .
O reconhecimento britânico é particularmente simbólico, dado o papel histórico do Reino Unido na região como potência colonial sob o Mandato Britânico da Palestina e por ser a primeira vez que um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU reconhece o Estado palestino .
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, foi mais contundente em suas críticas a Israel: “O atual governo israelense está trabalhando metodicamente para impedir a possibilidade de um Estado palestino ser estabelecido. Ele tem seguido uma política implacável de expansão dos assentamentos na Cisjordânia, o que é ilegal segundo o direito internacional” .
Alinhamento com a comunidade internacional
Com estas decisões, Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal alinham-se agora com mais de 140 países que já reconhecem o Estado palestino, incluindo Brasil, Espanha, Irlanda, Noruega e Suécia. Os quatro países são os primeiros membros do G7 (grupo das sete maiores economias desenvolvidas) a dar este passo .
A medida ocorre em um contexto de crescente preocupação internacional com a ofensiva israelense em Gaza, que according to o Ministério da Saúde de Gaza controlado pelo Hamas, já causou mais de 65.208 mortes palestinas e uma grave crise humanitária com fome generalizada .
Reações imediatas e controvérsias
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, reagiu imediatamente às decisões: “Tenho uma mensagem clara para os líderes que reconheceram um Estado palestino após o horrível massacre de 7 de outubro: vocês estão dando uma enorme recompensa ao terrorismo”. Netanyahu foi enfático ao declarar: “Isso não vai acontecer. Nenhum Estado palestino será estabelecido a oeste do rio Jordão” .
O Ministério das Relações Exteriores de Israel emitiu comunicado afirmando que o reconhecimento “não passa de uma recompensa para o grupo jihadista Hamas”, acrescentando que “os próprios líderes do Hamas admitem abertamente: esse reconhecimento é um resultado direto, o ‘fruto’ do massacre de 7 de outubro” .
Do lado palestino, as reações foram de celebração. Husam Zomlot, chefe da Missão Palestina em Londres, classificou a decisão britânica como um “reconhecimento há muito esperado” que “marca um passo irreversível em direção à justiça, à paz e à correção de erros históricos” .
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, saudou os anúncios como “um passo importante e necessário para lograr uma paz justa e duradoura de acordo com as resoluções da legitimidade internacional” .
Contexto e implicações
Os reconhecimentos ocorrem em um momento particularmente delicado do conflito. Na última semana, uma comissão de inquérito da ONU concluiu que Israel comete genocídio contra palestinos em Gaza, acusação que Israel rejeita veementemente como “distorcida e falsa” .
Analistas apontam que, embora amplamente simbólicos, estes reconhecimentos representam um marco significativo para a causa palestina e aumentam o isolamento diplomático de Israel. No entanto, especialistas também destacam que a situação no terreno – com a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia e a destruição em Gaza – torna a realização prática de um Estado palestino viável mais distante do que nunca .
A expectativa agora é que a questão ocupe lugar central nos debates da Assembleia Geral da ONU nesta semana, embora obstáculos permaneçam para que a Palestina se torne membro pleno das Nações Unidas, principalmente pelo veto esperado dos Estados Unidos no Conselho de Segurança .
Oposição e apoio internos
Os anúncios dos governos ocidentais não foram isentos de controvérsias internas. No Reino Unido, a líder conservadora Kemi Badenoch classificou a medida de “absolutamente desastrosa”, acusando o governo de “recompensar o terrorismo sem impor nenhuma condição ao Hamas” .
Familiares de reféns ainda mantidos em Gaza também expressaram oposição. Mandy Damari, mãe de uma ex-refém britânica-israelense, declarou: “Enquanto um dos Estados ainda for governado por uma organização terrorista proibida, cujo objetivo é aniquilar Israel do rio ao mar, uma solução de dois Estados nunca poderá acontecer” .
Por outro lado, movimentos pacifistas israelenses saudaram a decisão. Uma campanha chamada “Não à guerra – Sim ao reconhecimento” já reuniu mais de 8.500 assinaturas de israelenses que pediam à comunidade internacional que reconhecesse formalmente o Estado palestino .
Perspectivas futuras
Os países que anunciaram o reconhecimento enfatizaram que a medida visa fortalecer a Autoridade Palestina e não o Hamas. O primeiro-ministro canadense Mark Carney deixou claro: “O reconhecimento do Estado de Palestina, liderado pela Autoridade Palestina, empodera aqueles que buscam a coexistência pacífica e o fim do Hamas. Isto não legitima de forma alguma o terrorismo, nem representa qualquer recompensa por ele” .
A chanceler australiana Penny Wong similarly destacou que “o Hamas não deve ter nenhum papel na Palestina” .
Apesar das celebrações palestinas e do significado diplomático dos reconhecimentos, analistas alertam que o caminho para a realização prática de um Estado palestino soberano permanece repleto de obstáculos, exigindo não apenas mudanças na política israelense, mas também a reunificação palestina e reformas significativas na governança .
Enquanto a comunidade internacional se prepara para a Assembleia Geral da ONU, estes anúncios históricos representam um realinhamento significativo na abordagem ocidental ao conflito israelense-palestino, potentially abrindo novos capítulos tanto na diplomacia quanto nos esforços para resolver um dos conflitos mais duradouros do mundo.
Da Agência Fonte Exclusiva.








