A venda de múmias e de partes de corpos humanos preservados pela internet pode representar um risco pouco percebido por compradores, vendedores e até trabalhadores responsáveis pelo transporte dessas encomendas. Um novo estudo encontrou sinais de deterioração em restos mumificados anunciados em redes sociais, sites de comércio eletrônico e casas de leilão, além de pouca ou nenhuma orientação sobre como manipulá-los com segurança.
A pesquisa, publicada em 5 de agosto no International Journal of Cultural Property, analisou 128 anúncios e publicações disponíveis online. Entre os itens oferecidos estavam restos humanos e animais, incluindo mãos, pés, crânios e cabeças mumificadas em diferentes estados de conservação. Mais da metade da amostra relacionada a partes humanas envolvia cabeças completas ou parciais, crânios com tecidos preservados ou as chamadas cabeças reduzidas.
O problema é que uma múmia aparentemente seca e bem preservada não é necessariamente inofensiva. Restos antigos podem abrigar microrganismos dormentes durante décadas ou séculos. Quando o material é movimentado, aberto ou manipulado, esporos de fungos podem se desprender e ficar suspensos no ar, aumentando o risco de inalação.
Os pesquisadores também chamam atenção para os produtos utilizados historicamente na conservação dos corpos. Dependendo da época e da técnica de mumificação, substâncias potencialmente tóxicas, incluindo arsênio, mercúrio e chumbo, podem permanecer nos tecidos e representar outro tipo de exposição para quem entra em contato com o material.
Parte dos anúncios analisados mostrava restos armazenados em ambientes domésticos, sem proteção adequada e, em alguns casos, sendo manuseados sem luvas. Para os autores, essas imagens sugerem que muitos vendedores e colecionadores desconhecem os riscos envolvidos ou não adotam cuidados compatíveis com materiais biológicos antigos.
A preocupação vai além de quem compra ou vende. O estudo encontrou indícios de que múmias e partes mumificadas são enviadas por serviços postais e transportadoras, inclusive entre países. Isso pode colocar em contato com o material funcionários de depósitos, motoristas, agentes alfandegários e outros trabalhadores que sequer sabem o conteúdo da encomenda e, portanto, não utilizam equipamentos de proteção.
Os riscos associados a fungos presentes em restos antigos não são apenas teóricos. O estudo relembra o episódio envolvendo pesquisadores que abriram, na década de 1970, a tumba do rei polonês Casimiro IV. A exposição a esporos de Aspergillus foi apontada como possível causa da morte de dez dos 12 cientistas envolvidos nos trabalhos de conservação.
O mesmo fungo já foi citado em hipóteses sobre a morte de Lord Carnarvon, financiador da expedição que descobriu a tumba de Tutancâmon em 1922. Embora a chamada “maldição da múmia” pertença ao imaginário popular e não tenha explicação sobrenatural, a possibilidade de exposição a microrganismos e substâncias perigosas em sepulturas antigas é reconhecida cientificamente.
Isso não significa que toda múmia contenha fungos perigosos ou substâncias tóxicas em níveis capazes de provocar doenças. Os próprios pesquisadores ressaltam que sinais de contaminação nem sempre são visíveis e que os riscos variam conforme a origem, o método de conservação e as condições em que o material foi armazenado.
A preocupação maior está na combinação entre um comércio pouco transparente e a ausência de cuidados padronizados. Segundo os autores, muitos anúncios não informavam como os restos deveriam ser manipulados, armazenados ou transportados, apesar de alguns apresentarem sinais evidentes de biodeterioração.
O mercado também envolve questões legais e éticas. A circulação internacional de restos humanos pode esbarrar em regras de patrimônio cultural, legislação sanitária, normas postais e restrições à importação e exportação, que variam de acordo com o país e com a procedência das peças.
Diante do crescimento desse tipo de comércio em redes sociais e plataformas digitais, os pesquisadores defendem regras de transporte mais claras, maior fiscalização e melhor orientação sobre os riscos biológicos e químicos envolvidos. A recomendação é que anúncios suspeitos de restos humanos sejam comunicados às próprias plataformas e às autoridades competentes.
*Da Agência Fonte Exclusiva








