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Levantamento mostra que 650 alunas foram envenenadas no Irã

Casos seguem sob sigilo; interlocutores do tribunal afirmam que ministro decidiu liberar devido a condutas menos graves

redacao Por redacao
28/02/2023 - 08:55
em Mundo
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Meninas estudantes envenenadas no Irã

Protesto em Istambul, Turquia, contra o regime iraniano após a morte de Mahsa Amini (Reuters)

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Um levantamento da BBC concluiu que pelo menos 650 alunas foram envenenadas no Irã — o que finalmente foi reconhecido, no domingo (26/2), por uma autoridade do país.

Nenhuma estudante morreu, mas dezenas foram internadas com problemas respiratórios, náuseas, tonturas e fadiga.

“Ficou evidente que algumas pessoas desejavam que todas as escolas, especialmente as femininas, fossem fechadas”, disse o vice-ministro da Saúde do Irã, Younes Panahi, em entrevista coletiva no fim de semana.

A única declaração oficial até então havia sido a do procurador-geral de que uma investigação criminal sobre os envenenamentos havia sido aberta e que as intoxicações poderiam ser “intencionais”.

Os itens mais sensíveis para a vida da população e que, portanto, podem afetar mais a popularidade do governo são diesel e gás de cozinha – não à toa, estão com desoneração prorrogada até o fim do ano.

O encarecimento do gás de cozinha, essencial para alimentação, tem impacto direto para a população mais pobre.

Já o diesel abastece os caminhões que rodam o país transportando os mais diversos produtos, inclusive alimentos. Por isso, uma subida de preço tende a impactar também o custo de outros produtos, que ficariam mais caros para o consumidor final.

Além disso, o governo monitora o risco de protestos de caminhoneiros que poderiam ocorrer com o aumento do preço do diesel.

Em 2018, durante o governo de Michel Temer, um movimento desse tipo paralisou muitas rodovias no país, provocando retração econômica.

No caso da gasolina, críticos dessa desoneração argumentam que o preço desse combustível não afeta tanto a população mais pobre, que em geral não utiliza automóvel próprio.

Por outro lado, o item impacta trabalhadores de baixa renda, como entregadores e motoristas de aplicativo, além de pesar sobre a classe média e setores mais ricos.

Como nota o cientista político da consultoria Tendências, Rafael Cortez, são segmentos que historicamente têm mais capacidade de pressionar o governo e que têm sido mais críticos ao PT.

Pesquisas de intenção e voto durante a eleição mostravam que Bolsonaro apoio superior a Lula entre todos os segmentos com renda familiar acima de dois salários mínimos, enquanto o petista vencia entre os mais pobres.

Ele lembra ainda que o debate sobre o encarecimento dos combustíveis ocorrem em um momento em que a sociedade como um todo já acumulou um desgaste com a inflação mais alta nos últimos anos.

“Isso afetou não só as classes de renda mais baixa, mas também essa classe média baixa que de alguma maneira emergiu, entrou no mercado de consumo, mas também sofreu bastante por conta dos últimos anos com a inflação andando muito, muito alta”, afirma.

“E como o Bolsonaro soube muito bem dar vazão a esse grupo, a expressar demandas dessa natureza, a complexidade política se tornou ainda maior na hora do governo tomar essas decisões (de rever a desoneração)”, analisa ainda.

Para Cortez, também está no radar do governo a possibilidade uma eventual perda de popularidade abrir espaço para o fortalecimento do bolsonarismo, inclusive de alas mais extremistas que atuaram na invasão das sedes dos Três Poderes em Brasília, no dia 8 de janeiro.

O próprio ministro da Justiça e da Segurança Pública, Flávio Dino, manifestou essa preocupação em entrevista recente ao jornal O Estado de S. Paulo.

“A pergunta é: o governo Lula vai melhorar a vida do povo brasileiro? Se a resposta for sim, o golpismo tende a ser uma força declinante. Se o governo enfrentar dificuldades no resultado, aí abre espaço para a emergência do golpismo”, argumentou Dino.

Nos últimos três meses, várias alunas relataram sentir cheiro de tangerina ou peixe podre antes de adoecer.

“Os produtos químicos usados não são de esfera militar e estão disponíveis ao público”, acrescentou Panahi. “As estudantes não precisam de nenhum tratamento invasivo e é preciso manter a calma.”

O vice-ministro e médico disse posteriormente que sua declaração foi “mal interpretada” — um sinal de divisões entre as autoridades iranianas sobre como gerir a crise, enquanto nenhum culpado foi identificado publicamente.

A cidade religiosa de Qom está no epicentro do envenenamento em massa, mas ataques ocorreram em até oito cidades iranianas.

A indignação pública continua a crescer.

O primeiro envenenamento ocorreu em 30 de novembro de 2022, quando 18 alunos da escola técnica de Nour, em Qom, foram levados ao hospital após apresentarem sinais de envenenamento.

Desde então, mais de dez escolas femininas foram atacadas na região.

Em meados de fevereiro, pelo menos 100 pessoas protestaram em frente ao gabinete do governador em Qom.

“Você é obrigado a garantir a segurança das minhas crianças! Eu tenho duas filhas”, gritou um pai em um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais. “Duas filhas… e tudo o que posso fazer é não deixá-las ir para a escola.”

“Isto é uma guerra!”, disse uma mulher na mesma ocasião. “Eles estão fazendo isso em uma escola secundária para meninas em Qom para nos forçar a ficar em casa. Eles querem que as meninas fiquem em casa!”

Alguns pais dizem que suas filhas ficaram doentes por semanas após o envenenamento.

Um vídeo filmado em um hospital mostra uma adolescente deitada e atordoada na cama, com a mãe ao lado.

“Queridas mães, sou mãe e minha filha está em uma cama de hospital e seus membros estão fracos”, diz a mãe desesperada.

“Eu a belisco, mas ela não sente nada. Por favor, não mande suas crianças para a escola.”

Contestações

Qom é lar de importantes líderes religiosos do islamismo xiita, a espinha dorsal da República Islâmica.

Mas seu poder foi desafiado desde a morte de uma jovem curda, Mahsa Amini, em setembro do ano passado. Ela estava sob custódia da polícia por supostamente não usar o véu “adequadamente” em sua cabeça.

Alguns iranianos se perguntam se o envenenamento de meninas é uma “vingança” pelo papel delas em grandes protestos contra o governo após a morte. As redes sociais foram inundadas com imagens de alunas arrancando seus véus da cabeça.

Muitos também especularam que esses ataques são obra de defensores de linha-dura que querem “copiar” o Talebã no Afeganistão e o grupo militante islâmico Boko Haram na Nigéria — aterrorizando os pais para que parem de enviar suas filhas à escola.

“O Boko Haram veio para o Irã?” perguntou o ex-vice-presidente iraniano, Mohammad Ali Abtahi, no Instagram.

O político reformista acrescentou que “os extremistas interpretarão os limites do governo e da religião a seu favor”.

O regime iraniano tradicionalmente refutou as críticas à sua conduta em relação às mulheres e gabou-se do número de mulheres que frequentam as universidades.

Mas se as meninas não terminam a escola, a faculdade é apenas um sonho distante.

Os comentários de uma estudante, que diz ter sido envenenada duas vezes, na reunião com o governador de Qom destacam como algumas das declarações das autoridades foram vagas e enganosas.

“Eles [as autoridades] nos dizem que está tudo bem, que uma investigação foi feita. Mas quando meu pai foi à minha escola, foi dito que o circuito interno de TV está inoperante há uma semana e não há como investigar”, disse a estudante.

“E quando fui envenenada pela segunda vez no domingo, o diretor da escola disse: ‘Ela tem um problema cardíaco, é por isso que está hospitalizada’. Mas eu não tenho nenhum problema cardíaco!”

Tags: #Mahsa Amini#Violência Contra MulheresIrã
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