Dois dias após as grandes explosões na zona portuária de Beirute, o choque do povo libanês vai se transformando em raiva. Para parte da população, que vem assumindo a tarefa de limpar as ruas, o incidente é reflexo de décadas de má administração, negligência e corrupção do sistema político, pelo qual representantes de diferentes partidos de bases religiosas dividem o poder.
A revolta ficou clara durante a visita do presidente da França, Emmanuel Macron, nesta quinta-feira. O representante da antiga metrópole — o Líbano foi colônia francesa entre 1923 e 1946 — foi recebido com gritos contra autoridades libanesas. Macron prometeu ajudar, mas afirmou que o dinheiro não irá para “mãos corruptas”.
A destruição na cidade foi extensa: até o momento, há 137 mortes confirmadas, 5 mil feridos e cerca de 300 mil desabrigados. Os danos materiais iniciais são estimados entre US$ 3 bilhões e 5 bilhões e o porto, por onde chegavam dois terços das importações do país, foi completamente destruído. As buscas por dezenas de desaparecidos continuam.
— É revoltante ver que a ganância de um punhado de políticos corruptos e ávaros tenha nos levado a isso — disse ao jornal El Pais o universitário Albert Sehnaoui.
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Acredita-se que a explosão foi resultado da combustão de 2.750 mil toneladas de nitrato de amônio, material altamente inflamável que estava armazenado no porto desde 2014, após o navio que o transportava ser abandonado. Ainda não se sabe, porém, o que causou a denotação da substância, usada como fertilizante e altamente inflamável e tóxica.
Registrada por sensores sísmicos como um terremoto de 3,3 pontos na escala Richter, a explosão deixou uma cratera em seu marco zero e uma nuvem laranja se ergueu sobre a região. O presidente Michel Aoun prometeu castigar os responsáveis da “forma mais severa” e vários funcionários da Autoridade Portuária de Beirute foram postos em prisão domiciliar. Ainda assim, para muitos libaneses, a tragédia deve ser posta na conta da classe política.
O dia seguinte: Com luvas, máscaras e vassouras, população de Beirute se mobiliza para limpar destroços da explosão
Manifestantes foram às ruas nesta quinta protestar durante a visita de Macron, tida por críticos como um endosso ao governo. Frente a insatisfação, o líder francês propôs coordenar a ajuda internacional e prometeu que a ajuda humanitária será vinculada a reformas econômicas e medidas de combate à corrupção. Sem elas, afirmou, o país “continuará a afundar”.
— Eu garanto a vocês, essa ajuda não irá para mãos corruptas — disse Macron, primeiro líder estrangeiro a visitar o país depois da explosão e que defendeu “um novo pacto político”. — Para além das explosões, nós sabemos que a crise aqui é séria e envolve a responsabilidade histórica das lideranças.
Em meio à crise política, o Líbano atravessa sua maior crise econômica desde o fim da guerra civil (1975-1990). O apelo por ajuda, tida como essencial para a reconstrução, foi ouvido por diversos países: a União Europeia, por exemplo, disse estar mobilizando mais de 33 milhões de euros (R$ 209 milhões) em ajuda inicial e o Reino Unido, 5 milhões de libras (R$ 35 milhões). O presidente Jair Bolsonaro também prometeu ajudar.
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Não há ponto da capital libanesa, na costa Leste do Mediterrâneo, que tenha sido poupado. Os bairros próximos ao porto foram os mais afetados, mas há danos estruturais por toda a cidade, com vidros estilhaçados e carros amassados. Hospitais estão superlotados e enfrentam escassez de produtos, segundo o ministro da Saúde, Hamad Hassan.
Com a capital em estado de emergência por duas semanas, o Exército usa equipamentos pesados para tentar abrir caminho e chegar às áreas mais afetadas. Nas ruas, a população usa vassouras e recursos à sua disposição para recomeçar, enquanto equipes de resgate ainda buscam desaparecidos.
— São os libaneses que estão nas ruas, mostrando muita solidariedade, e as autoridades estão simplesmente ausentes — disse ao New York Times Rima Tarabay, que mora perto do porto. — Por um lado, é impressionante. Por outro, desolador.
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A desconfiança no futuro país também é grande. Uma das nações mais endividadas do planeta, o Líbano busca se organizar financeiramente e negociava um empréstimo com o Fundo Monetário Internacional, mas as conversas foram paralisadas em meio às disputas políticas.
A situação se agravou no fim do ano passado, quando protestos que superaram as divisões sectárias tomaram as ruas do país, forçando a renúncia do então premier Saad al- Hariri. O cenário põe em xeque o equilíbrio de poder estabelecido há décadas, pelo qual o premier é sempre muçulmano sunita, o presidente cristão e o presidente do Parlamento, xiita.
Desde então, a libra libanesa se desvalorizou em 80% e o desemprego e o custo de vida aumentaram rapidamente. A pandemia de coronavírus e as medidas de isolamento só complicaram a situação do país, que deverá ver sua economia contrair até 12% nos próximos meses.
As explosões de terça-feira destruíram o principal silo do país, com capacidade para armazenar 120 mil toneladas de grãos, ou 85% da capacidade libanesa. As 15 mil toneladas de trigo que estavam lá ficaram inutilizáveis. O Ministério da Economia garante que não há motivos para se preocupar com a escassez de comida, mas muitos temem o contrário.








