O agravamento da escassez de alimentos e combustíveis em Cuba mobilizou uma nova operação humanitária brasileira.
O governo federal enviou 48 toneladas de leite em pó para Santiago de Cuba, com prioridade para o atendimento de crianças que vivem nas províncias orientais do país caribenho.
O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, agradeceu ao governo e à população brasileira pela doação. Em publicação nas redes sociais, o chanceler afirmou que o alimento representa uma demonstração de solidariedade em meio às dificuldades enfrentadas pela ilha.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, também manifestou gratidão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e informou que o produto será direcionado especialmente à população infantil da região oriental.
A operação foi coordenada pela Agência Brasileira de Cooperação, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores. O leite em pó foi disponibilizado pela Companhia Nacional de Abastecimento e transportado em dois voos da Força Aérea Brasileira.
Primeiro voo levou 16 toneladas
A primeira aeronave partiu da Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, levando 16 toneladas do produto. O carregamento desembarcou no Aeroporto Internacional Antonio Maceo, em Santiago de Cuba.
As 32 toneladas restantes foram programadas para seguir em um segundo voo, com saída do Aeroporto Internacional de Porto Alegre. As duas etapas foram organizadas para completar a entrega das 48 toneladas anunciadas pelo governo brasileiro.
A decisão de enviar a ajuda foi tomada depois de uma reunião realizada em 9 de julho entre Lula e representantes da Casa Civil, dos ministérios da Defesa, das Relações Exteriores e do Desenvolvimento Agrário, além dos comandos da Aeronáutica e da Conab.
Segundo o governo federal, a iniciativa tem como objetivo contribuir para o enfrentamento da grave situação de desabastecimento registrada em Cuba. Novas remessas de alimentos e medicamentos continuam sendo avaliadas.
Em 2025, o Brasil já havia enviado assistência humanitária ao país em resposta aos danos provocados pelo furacão Melissa. Os efeitos do fenômeno ainda são sentidos principalmente no leste da ilha, onde está localizada Santiago de Cuba.
Crise compromete alimentos e serviços básicos
Cuba atravessa uma crise marcada pela redução da oferta de alimentos, medicamentos e combustíveis, além de longos períodos de interrupção no fornecimento de energia elétrica.
A rede elétrica cubana sofreu em julho sucessivos colapsos nacionais. As falhas deixaram milhões de moradores sem eletricidade e afetaram o transporte público, a conservação de alimentos, o abastecimento de água e o funcionamento de serviços de saúde.
A Organização das Nações Unidas alertou que a falta de combustível compromete atividades essenciais, incluindo a produção e a distribuição de alimentos, o fornecimento de água, o saneamento e os serviços hospitalares.
O Programa Mundial de Alimentos identifica dificuldades crescentes no acesso à alimentação e considera crianças, gestantes, mulheres que amamentam e idosos entre os grupos mais vulneráveis. O planejamento da organização para Cuba entre 2026 e 2030 prevê ações para prevenir a desnutrição e ampliar o acesso a dietas adequadas.
O leite em pó possui importância particular porque integra programas de alimentação infantil e de prevenção de deficiências nutricionais. Em períodos anteriores, Cuba já precisou recorrer a organismos internacionais para complementar a distribuição do produto.
Sanções e problemas internos aprofundam dificuldades
O governo cubano atribui parte significativa da crise às sanções econômicas mantidas pelos Estados Unidos e às restrições ao fornecimento de combustível.
Washington ampliou a pressão energética sobre a ilha em 2026, dificultando operações de países e empresas envolvidos no envio de petróleo. A redução das importações agravou os apagões e limitou o transporte de pessoas, alimentos e materiais utilizados nos serviços públicos.
A administração norte-americana sustenta que suas medidas têm o objetivo de pressionar o governo cubano por mudanças políticas e responsabiliza as autoridades da ilha pela repressão, pela falta de reformas e pela administração dos recursos disponíveis.
Havana, por sua vez, afirma que as restrições prejudicam diretamente a população ao dificultar transações financeiras, importações e o acesso a combustíveis, medicamentos e peças necessárias à manutenção da infraestrutura.
A crise, porém, também está relacionada a fatores internos. A deterioração das usinas elétricas, a baixa produtividade, a falta de investimentos, a queda das receitas do turismo e dificuldades na condução das reformas econômicas contribuem para o cenário atual.
Os problemas estruturais e as restrições externas se combinam, ampliando a vulnerabilidade da população e dificultando a recuperação da economia.
Ajuda reforça cooperação entre Brasil e Cuba
A remessa de leite em pó integra a política brasileira de cooperação humanitária e reforça a aproximação diplomática entre Brasília e Havana.
O governo Lula defende o fim das sanções econômicas contra Cuba e sustenta que divergências políticas devem ser resolvidas por meio do diálogo e dos mecanismos diplomáticos.
A posição brasileira está alinhada à maioria dos países que participaram do debate sobre o tema na Assembleia Geral das Nações Unidas. Durante as discussões, diferentes representantes defenderam a retirada das restrições e destacaram os impactos humanitários provocados pela crise.
Para o governo brasileiro, a operação possui natureza humanitária e pretende atender necessidades imediatas, sem impor condições políticas para a distribuição dos alimentos.
As autoridades cubanas associaram a doação à solidariedade histórica entre os dois países. O alimento deverá ser incorporado aos programas públicos voltados à população infantil das províncias orientais.
Embora as 48 toneladas representem uma contribuição relevante, a dimensão da crise exige medidas mais amplas e contínuas. O governo brasileiro avalia novos carregamentos enquanto organismos internacionais tentam manter o atendimento às parcelas mais vulneráveis da população cubana.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








