O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, exigiu que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, peça desculpas pelas declarações feitas sobre a atuação dos aliados da OTAN durante a guerra no Afeganistão. As falas provocaram forte reação entre líderes europeus, autoridades militares, veteranos de guerra e membros da realeza em vários países da aliança atlântica.
Trump afirmou, em entrevista à Fox Business Network durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, que os aliados da OTAN “ficaram um pouco atrás, um pouco longe das linhas de frente” no conflito afegão e que os Estados Unidos “nunca precisaram” de seus parceiros militares. Segundo ele, os países aliados enviaram tropas, mas sem assumir protagonismo no combate.
As declarações foram duramente criticadas. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, classificou os comentários como “insultantes e francamente chocantes”. “Se eu tivesse falado algo assim de forma equivocada, certamente pediria desculpas”, afirmou.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, também reagiu, lembrando que o país enviou milhares de soldados ao Afeganistão e comandou a Região Oeste, uma das áreas mais instáveis da operação. Meloni destacou que a Itália perdeu 53 militares e teve mais de 700 feridos ao longo de quase duas décadas de missão.
Na Alemanha, Pistorius foi ainda mais enfático. Em entrevista à emissora pública ARD, afirmou que as declarações de Trump foram “indecentes” e “desrespeitosas” com os mortos e com os aliados. Segundo ele, um pedido de desculpas seria “um sinal de decência, respeito e compreensão”. O ministro informou que pretende tratar do tema diretamente com o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.
A reação também chegou à família real britânica. O Príncipe Harry, que serviu em duas missões no Afeganistão, divulgou uma nota defendendo os aliados. Ele lembrou que, em 2001, a OTAN acionou pela primeira e única vez o Artigo 5º — cláusula de defesa coletiva — após os atentados de 11 de setembro. “Eu servi lá. Fiz amigos para a vida toda e perdi amigos lá”, declarou.
Dados históricos contradizem a versão apresentada por Trump. O conflito no Afeganistão resultou na morte de cerca de 3.500 soldados da coalizão internacional, incluindo aproximadamente 2.456 norte-americanos. O Reino Unido perdeu 457 militares; o Canadá, 158; a França, 90; a Alemanha, 59; a Itália, 53; e a Dinamarca, 44 — números que, proporcionalmente à população, se aproximam das perdas dos Estados Unidos.
Forças britânicas e dinamarquesas estiveram entre as primeiras a atuar na província de Helmand, um dos redutos mais violentos do Talibã, antes mesmo do reforço de tropas americanas em 2008, concentrando parte significativa das baixas.
Após um telefonema com Keir Starmer, Trump publicou mensagem nas redes sociais elogiando os militares britânicos como “alguns dos maiores guerreiros de todos os tempos” e reconhecendo as 457 mortes do Reino Unido. No entanto, não apresentou pedido formal de desculpas nem mencionou os sacrifícios de outros aliados da OTAN.
Outros líderes também se manifestaram. O primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, classificou as falas como “inaceitáveis” e lembrou que 47 australianos morreram no Afeganistão. Já o premiê da Noruega, Jonas Gahr Støre, afirmou que os comentários foram “desrespeitosos” e que os mortos e veteranos “merecem verdade e respeito”.
A Casa Branca, inicialmente, saiu em defesa de Trump. Em nota, um porta-voz afirmou que “nenhuma outra nação da OTAN contribuiu tanto quanto os Estados Unidos” para o esforço militar no Afeganistão, reforçando a linha adotada pelo presidente.
*Da Agência Fonte Exclusiva








