O ano de 2021 definitivamente não está sendo fácil para o bolso do brasileiro, visto que o país ainda está se recuperando da crise trazida pela pandemia da Covid-19. Para piorar, a seca trazida neste inverno fará com que não seja só com o valor de novos casos que o povo terá que se preocupar, mas também com o novo aumento na conta de luz.
A entrada do novo valor do patamar 2 da bandeira vermelha veio motivada pela falta de chuvas para adicionar um valor considerável às nossas despesas.
A seguir, vamos destrinchar fator por fator que esteja por trás desse novo valor e entender quão fundo é esse buraco da seca mais crítica dos últimos 91 anos.
Seca nos meses de inverno, a origem histórica do aumento na conta de luz
Não é novidade que, no Brasil, principalmente nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, o inverno costuma ser sempre a estação marcada por falta de chuvas.
O diferencial deste ano é a situação hídrica crítica que está sendo enfrentada, que já tinha sido prevista em julho no prognóstico do Inmet, e que é alarmante principalmente na região da bacia do Rio Paraná, que passa por sua pior seca em 91 anos, segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A questão é que esta bacia abriga 53% da capacidade do sistema elétrico brasileiro, logo, a falta de chuvas nessa região representa uma pancada direta no valor da conta de luz.
O mês de maio costuma ser fundamental para medir a gravidade de uma crise hídrica, visto que é nele que se encerra a temporada de chuvas e ele costuma ser o último suspiro dos reservatórios antes dessa época seca no inverno. Em maio de 2021, a falta de chuvas foi grave.
Para comparação, os dois mapas abaixo, retirados da ferramenta de monitoramento da CPTEC, apresentam a precipitação ocorrida neste mês em 2021 e em 2017, o ano com a menor tarifa de energia desde a histórica queda brusca de 2013.

A área de interesse a ser comparada nos dois mapas é a da bacia do Rio Paraná, que se encontra nas divisas entre São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, sudoeste de Minas Gerais e sul de Goiás. Em 2017, essa região toda estava entre 50 e 300 mm de precipitação, enquanto em 2021 não passava de 150 mm.
Essa falta de chuvas nessa bacia tão importante diminui a capacidade de produção das usinas hidrelétricas ali localizadas, ocasionando a necessidade do acionamento das termelétricas, que têm um valor de funcionamento mais elevado.
Contudo,fica claro que o inverno no sudeste e centro-oeste do Brasil naturalmente é uma estação seca, isso ocorre por razões climáticas. Por sua vez, o que não ocorre de forma natural é a intensidade quase brutal em que isso está acontecendo neste ano. A falta de chuvas tem como uma de suas raízes a falta das massas de umidade provenientes da Amazônia, ocasionada pelo desmatamento.
O desmatamento de áreas importantes no Brasil tem a ver com o aumento na conta de luz?
A Amazônia e o Pantanal, que até algumas décadas atrás poderiam ser consideradas duas das regiões mais inacessíveis do mundo, hoje correm o risco de serem condenadas a virarem desertos ou meras savanas. Obviamente, esse é um resultado do desmatamento constante que vem ocorrendo, principalmente na Amazônia, uma vez que a falta de chuvas e umidade produzidas pela floresta acarreta em mais incêndios gerados pela seca no Pantanal.
Ainda não há comprovações científicas de que esse período de falta de chuvas seja resultado direto do desmatamento exorbitante ocorrido nos últimos 2 anos. O efeito La Niña, oposto do seu irmão El Niño, ainda é o principal suspeito, uma vez que ele é característico por intensificar a seca na parte sul do Brasil. Mas isso não significa que as ações contra as florestas não terão consequências.
Porém, é de conhecimento geral que o desmatamento e as queimadas alimentam o aquecimento global, e quanto mais ele for alimentado, mais forte e com mais seca a La Niña voltará.
Considerando que o consumo doméstico de energia elétrica deve aumentar em 44% até 2030, segundo dados do Ministério de Minas e Energias, ter perspectivas que busquem reduzir a chance de novas secas críticas é fundamental para o Brasil.
Se o país seguir com essa rotina de ver a falta de chuvas se agravando ano a ano e não investir e atrair novas formas de gerar eletricidade, o valor da conta de luz também aumentará só mais e mais.
Possíveis alternativas
O valor de produção das energias hidrelétricas é barato, visto que para o funcionamento das turbinas dessas usinas basta que a água represada passe por elas, o maior custo vem da própria construção da estrutura. Porém, esse método é altamente vulnerável à falta de chuvas, uma vez que necessita delas para manter os reservatórios em um volume satisfatório.
Apesar de o Brasil desfrutar de uma geografia muito favorável em relação à quantidade e o fluxo de seus rios, grande parte do seu potencial hidrelétrico está situado na bacia do Rio Paraná, região altamente afetada pela falta de chuvas em períodos de seca.
Já um pouco mais imune a períodos de seca, a energia de origem termelétrica tem seu valor mais caro devido à necessidade da queima de combustível, que é usado para aquecer grandes caldeirões de água e usar o seu vapor para girar turbinas que energizam os geradores.
As investidas do Brasil na energia nuclear e eólica visam solucionar essa alternância entre valor barato e valor caro de geração de energia quando se enfrenta períodos de falta de chuvas. As usinas nucleares, como as de Angra I e II, produzem eletricidade de forma semelhante às termelétricas, com a maior diferença sendo o uso de fissão nuclear para aquecer a água. Este é um método altamente produtivo, mas caro, logo apresenta um valor intermediário.
Outra forma de se gerar eletricidade com um valor baixo e de forma renovável – e sem contar com a presença ou falta de chuvas – é aproveitando a força do vento. Os aerogeradores, popularmente chamados de cataventos, são turbinas que, para girar e energizar seus geradores, precisam apenas da força do vento, sendo assim, uma forma limpa de se gerar energia através de um baixo valor de custo a longo prazo.
O velho inimigo, o aumento na conta de luz em si
A dor de cabeça do reajuste no valor da conta de energia em épocas de falta de chuva já é uma velha conhecida do brasileiro. A fragilidade que é a dependência das hidrelétricas sempre se faz sentir em épocas de seca e falta de chuvas.
Dessa vez, para encarar o que o próprio Ministro de Minas e Energias, Bento Albuquerque, chamou de crise, iremos sentir essa falta de chuvas através do reajuste do valor da pior bandeira e pior patamar que o novo sistema de bandeiramento da Aneel tem a oferecer.
Para melhor entendimento, é preciso entender o valor que cada bandeira do novo sistema da Aneel significa. Como já é de se esperar, a bandeira verde indica que a situação pluviométrica é favorável, e não há acréscimo no valor da conta. Enquanto a bandeira amarela indica uma situação de alerta de falta de chuvas e significa para seu bolso um valor a mais de R$ 1,87 por kwh, que era R$ 1,34 antes do reajuste do valor das bandeiras.
Por fim, as bandeiras vermelhas apontam que há seca – devido à falta de chuvas e a outros fatores – e seus dois patamares representam duas adições de valor diferentes que podem ser aplicadas, dependendo da situação.
Quando o cenário é apenas crítico, entra o patamar 1, que faz na conta de luz reajuste de valor de R$ 3,97 a mais por cada 100 kwh, este foi o único valor a ser reduzido, já que antes era de R$ 4,16. Já quando se está enfrentando a seca mais crítica dos últimos 91 anos, a bandeira vem com patamar 2.
Neste, o valor somado era de R$ 6,24, mas passou a ser R$ 9,49 pela mesma quantidade de kwh. Isso representa um aumento de 52% no valor.
Setores da Aneel ainda defendiam um aumento ainda maior no valor, R$ 11,50 a mais por cada 100 kwh. Um valor 84% maior do que o original, antes do reajuste. Sendo assim, o novo reajuste do valor da conta de luz causado pela falta de chuvas deve representar um aumento de 5,45% no total da conta em comparação ao valor do período anterior à nova tarifa.
Ainda no pronunciamento do dia 29 de junho do Ministro de Minas e Energias, a população foi chamada para contribuir para o enfrentamento dessa crise. O aumento na conta de luz custará ainda um valor de R$ 9 bilhões aos consumidores.
Para o bolso do brasileiro, que já está sofrendo e sendo maltratado pela pandemia, resta repensar seu consumo e tentar torná-lo o mais econômico possível, a fim de reduzir o valor a ser pago no fim do mês e desafogar a si mesmo e também reduzir a demanda para aliviar as próprias hidrelétricas.
Em relação às indústrias, Bento Albuquerque afirmou que um movimento voluntário de alteração do horário de pico de consumo está sendo arquitetado.








