Os impactos da crise climática já fazem parte da rotina de milhares de escolas brasileiras. Ondas de calor, enchentes, estiagens, falta de água e outros eventos extremos têm provocado suspensão de aulas, dificuldades de aprendizagem e novos desafios para a infraestrutura escolar.
Especialistas alertam que o problema avança em duas direções. De um lado, as condições climáticas afetam diretamente o rendimento de crianças e adolescentes. Do outro, muitas escolas ainda não contam com estrutura adequada para enfrentar situações de emergência e proteger estudantes e profissionais.
A preocupação aumenta diante da possibilidade de fortalecimento do El Niño, com efeitos que podem se estender até 2027. Diante desse cenário, redes públicas de ensino estão sendo orientadas a ampliar medidas de prevenção, preparação e resposta a eventos climáticos severos.
As recomendações constam em uma nota técnica elaborada por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em parceria com instituições de ensino, pesquisa e o Instituto Alana.
O documento destaca a necessidade de adaptar prédios escolares, fortalecer protocolos de segurança e melhorar a capacidade de resposta das unidades diante de enchentes, ondas de calor, secas e outros episódios extremos.
Mais de 150 mil escolas públicas precisam de adaptação
Segundo Leila Vendrametto, gerente de Natureza do Instituto Alana, mais de 150 mil escolas públicas brasileiras, em sua maioria, foram construídas sem considerar a atual intensidade dos eventos climáticos extremos.
A estimativa é de que mais de 40 milhões de crianças e adolescentes estejam expostos a riscos relacionados a calor intenso, enchentes, escassez de água e outros efeitos da emergência climática.
Outro dado preocupante envolve escolas localizadas em áreas consideradas vulneráveis. Apenas nas capitais brasileiras, mais de 370 mil estudantes frequentam unidades instaladas em regiões de risco.
Para os especialistas, esse cenário exige planejamento integrado entre educação, defesa civil, saúde, assistência social e outros setores do poder público.
Desigualdades ampliam os impactos
Os efeitos dos eventos climáticos não atingem todas as comunidades da mesma maneira.
Áreas com menor infraestrutura urbana, menos acesso a serviços públicos e menor capacidade de resposta tendem a sofrer de forma mais intensa durante enchentes, deslizamentos, períodos de seca e ondas de calor.
Nesse contexto, especialistas também chamam atenção para o racismo ambiental, conceito utilizado para descrever situações em que determinados grupos sociais ficam mais expostos a riscos ambientais e possuem menos recursos para enfrentar e superar as consequências.
A avaliação é de que a proteção climática também precisa ser tratada como parte da garantia dos direitos à educação, à vida e ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Prevenção deve ser prioridade nas escolas
A nota técnica propõe que a preparação das redes de ensino seja organizada em etapas.
A primeira envolve a identificação das áreas de risco e a adoção de medidas preventivas. Em seguida, vem a fase de preparação, com planejamento, treinamento de equipes e definição de procedimentos para situações de emergência.
A terceira etapa corresponde à resposta durante a ocorrência de um evento extremo. Nesse momento, a escola deve contar com protocolos claros para proteger alunos, professores, funcionários e famílias.
Depois da emergência, começa a fase de recuperação, que inclui retomada das aulas, reparo de estruturas danificadas e medidas para reduzir a possibilidade de novos prejuízos.
A recomendação é que a maior parte dos investimentos seja direcionada às etapas de prevenção e preparação, evitando que as redes de ensino atuem apenas depois que os danos já aconteceram.
Escolas devem acompanhar alertas meteorológicos
Entre as ações sugeridas está a criação de planos específicos para situações de risco climático.
As unidades também devem manter canais de comunicação eficientes com famílias, profissionais da educação, Defesa Civil e demais órgãos responsáveis por situações de emergência.
Outra orientação é acompanhar de forma permanente os alertas meteorológicos e de desastres naturais.
Essas informações podem ajudar gestores a decidir sobre suspensão de aulas, mudanças de horário, retirada preventiva de estudantes ou outras medidas de proteção.
O planejamento também deve considerar a acessibilidade e garantir que estudantes com deficiência ou necessidades específicas estejam incluídos nos protocolos de segurança.
Não existe uma solução única
Os pesquisadores destacam que as medidas não podem ser aplicadas da mesma forma em todo o país.
Cada escola precisa considerar as características climáticas da região, a infraestrutura disponível, o perfil da comunidade e as condições sociais e culturais do território onde está localizada.
Uma unidade situada em área sujeita a enchentes, por exemplo, terá necessidades diferentes de uma escola localizada em região de seca prolongada ou de calor extremo.
Calor e desastres também prejudicam o aprendizado
Além dos danos físicos às escolas, as mudanças no clima também interferem diretamente no desempenho dos estudantes.
Temperaturas muito elevadas podem reduzir a concentração, aumentar o cansaço e dificultar a permanência dos alunos em sala de aula.
Enchentes, deslizamentos e outros desastres também podem provocar longos períodos sem aulas, deslocamento de famílias e perda de materiais escolares.
Em comunidades afetadas repetidamente por eventos extremos, esses problemas podem aprofundar desigualdades educacionais já existentes.
Adaptação climática entra no planejamento educacional
Para os especialistas, a adaptação às mudanças climáticas precisa deixar de ser tratada como uma medida emergencial e passar a fazer parte do planejamento permanente das redes de ensino.
Isso inclui mudanças na infraestrutura das escolas, criação de protocolos, capacitação de profissionais, monitoramento de riscos e integração com outros órgãos públicos.
A proposta é preparar as unidades antes que uma emergência aconteça, reduzindo impactos e garantindo maior segurança para estudantes e profissionais.
Com eventos extremos cada vez mais presentes no cotidiano brasileiro, o desafio das redes de ensino será incorporar a prevenção climática à rotina escolar e transformar planejamento, informação e infraestrutura em ferramentas de proteção.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








