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Futebol brasileiro entra no radar do investidor estrangeiro

Lançamento de uma liga nos moldes dos campeonatos europeus e otimização da gestão financeira são alguns fatores que moldam o novo cenário

redacao Por redacao
02/03/2022 - 13:32
em Esporte
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EMPRESA 777 VAI INVESTIR R$ 700 milhões no Vasco

Josh Wander (sócio do 777), Jorge Salgado e Jorge Arciniegas (diretor de esportes do 777) posam com camisas do Vasco — Foto: Divulgação

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O futebol brasileiro voltou aos holofotes no começo do ano por motivos que usualmente não se destacam. Por trás das manchetes está uma sigla ainda desconhecida, mas que promete ser cada vez mais recorrente: a SAF, sigla para Sociedade Anônima de Futebol.

A nova figura jurídica abriu caminho para que alguns dos mais tradicionais clubes do país, como Cruzeiro e Botafogo, atraíssem grandes investidores, alguns do exterior, dispostos a aportar recursos milionários. E há mais por vir.

A entrada de investidores nos clubes não é uma novidade, mas desta vez é diferente: as conexões mais profundas – com direito ao controle de toda a parte do futebol – e a abrangência têm o potencial de transformar o futebol dentro e fora de campo.

O movimento acontece em paralelo, não por acaso, com as negociações nos bastidores para a formação de uma liga do futebol brasileiro, nos moldes da Premier League inglesa ou da LaLiga do futebol espanhol, entre outros benchmarks.

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“É uma classe de ativos nova, principalmente para o mercado brasileiro, com alguns triggers [gatilhos] que ajudam na atratividade”, disse Christian Laloe, sócio e cofundador do Fig Venture Partners, o braço financeiro do Figer Group, à EXAME Invest.

“Trata-se de uma classe de ativos descorrelacionada da economia. E a formação da liga deve mudar completamente o patamar de valuation dos times. Na largada, já será uma das maiores do mundo”, afirmou o executivo. “E, com a liga, mudarão também os valores e, provavelmente, o modelo dos direitos de transmissão.”

Segundo fontes do futebol brasileiro e do mercado de capitais, as negociações para a formação de uma liga que reúna os grandes clubes estão avançando a tal ponto que um desfecho bem-sucedido pode ser anunciado até o fim deste ano.

Bancos de investimento já estão com propostas que incluem o interesse firme de empresas para se tornar o parceiro oficial da liga, a exemplo do que existe em países da Europa, como a LaLiga Santander, na Espanha.

Do lado do investidor estrangeiro, a concretização de dois deals [negócios] grandes — de Cruzeiro e Botafogo — em cerca de um mês chamou a atenção para esse ativo atraente no mercado local, avaliou o executivo.

O Fig Venture Partners está estruturando um fundo de private equity — na forma de um fundo de investimento em participações (FIP) — para captar recursos junto a investidores para assumir a SAF de um grande clube brasileiro. Há negociações com três a quatro clubes das séries A e B do futebol do país, o equivalente às duas primeiras divisões.

Não se trata de evento isolado. Segundo fontes do mercado, há interesse de investidores para clubes de diferentes tamanhos, o que desmistifica a visão de que apenas os mais tradicionais ou populares poderiam atrair investidores. “Tudo é uma questão de preço”, resumiu.

A SAF é uma figura jurídica que se tornou possível em agosto do ano passado com a nova Lei do Clube-Empresa, cujo projeto foi aprovado no Congresso em julho.

Cruzeiro e Botafogo saíram na frente com a aprovação da criação de SAFs pelos respectivos conselhos e associados do clubes. Eles atraíram, respectivamente, o ex-jogador e hoje empresário Ronaldo e a americana Eagle Holding, do empresário John Textor, principal acionista do inglês Crystal Palace.

O Vasco da Gama, com o interesse do 777 Partners, grupo de private equity que já investiu em clubes europeus como o Genoa, da Itália, e o Sevilla, da Espanha, é o mais forte candidato a ser o próximo, mas a SAF ainda não foi aprovada pelos sócios.

Com a SAF constituída, vem o trabalho de due dilligence por bancos de investimento e escritórios de advogados, a exemplo de operações tradicionais do mercado de capitais, como as de M&A, até que o processo acabe resultando em uma proposta vinculante.

“Há um movimento mais evidente nos clubes mais endividados, mas há uma demanda potencial dos investidores por todos”, disse Laloe.

Segundo ele, trata-se de produto inicialmente voltado para investidores institucionais e qualificados, com perfil de longo prazo, de cinco a sete anos para eventual evento de saída por meio possivelmente de uma abertura de capital. Mas as possibilidades como ativo são mais abrangentes.

O executivo afirmou que, em sua avaliação, acabará sendo natural a abertura do produto para investidores de varejo no futuro próximo.

Como gerar receitas

Um dos principais efeitos esperados para os clubes será o ganho de eficiência na gestão financeira. Outros serão estímulos a boas práticas de governança e de transparência.

“Há dois grandes desafios, que são a gestão do futebol e a financeira, por meio de uma empresa, uma SA, que é a SAF, em que se consegue ‘trabalhar o balanço’.”

“Hoje, uma associação sem fins lucrativos não permite isso. Os clubes ‘vendem o almoço para pagar o jantar’ e vendem um jogador que vale R$ 10 milhões por R$ 2 milhões porque precisam de caixa”, afirmou Laloe, com a visão de quem trabalhou por 25 anos no mercado financeiro, dos quais 15 na América do Norte e na Europa, com expertise em crédito estruturado, private equity e venture capital.

É uma porta, portanto, que se abre e se torna mais atraente para outros profissionais do mercado de capitais.

O executivo apontou operações de alavancagem financeira do balanço e de estruturação do crédito de longo prazo como exemplos de “trabalhar o balanço”, algo que hoje não é permitido clubes que não optaram por aprovar SAFs para a gestão do futebol.

Outra mudança esperada é o aumento potencial de linhas de receitas, muitas das quais novas por meio de iniciativas de marketing que possam explorar de forma aprofundada e com perspectiva de médio e longo prazo o engajamento dos torcedores.

“Cada vez mais o futebol brasileiro vai ser movido a capital, pela injeção nos clubes.” Segundo ele, clubes tradicionais e com torcida numerosa podem ficar trás em termos de competitividade se não conseguirem ampliar as receitas.

O Figer Group tem longa tradição, de cinco décadas, no futebol mundial: seu fundador, Juan Figer, foi um pioneiro como agente profissional de negociação de jogadores do mundo. O grupo já representou ou intermediou a negociação de estrelas como Maradona, Romário, Dunga e Casagrande, nas décadas de 1980 e 1990.

O grupo foi também um dos pioneiros na gestão profissionalizada de clubes de futebol, com o Iraty Sport Club, do Paraná, em 1995. Mais recentemente, em 2010, assumiu a administração do futebol do Londrina Esporte Clube, posição que mantém até hoje.

Tags: #777#Cruzeiro#Investimento no Brasil#Vasco da GamaFutebol
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