Após a aprovação de novas regras pela World Athletics (WA), atletas do atletismo feminino enfrentam um cenário de incertezas.
A partir de 1º de setembro, quem quiser competir na categoria feminina em competições de elite deverá se submeter a um exame genético — realizado por swab bucal ou coleta de sangue — para identificar o gene SRY, marcador ligado ao cromossomo Y. A medida já está afastando diversas competidoras de alto rendimento. As informações são da CNN.
A corredora ugandense Docus Ajok, que desde 2014 representava seu país em eventos como os Jogos da Commonwealth e o Mundial de Atletismo, relata ter visto sua carreira ruir. Em 2019, foi submetida a um teste de testosterona pela federação nacional e, sem ter acesso aos resultados, recebeu a notícia de que não poderia mais competir nos 800 m e 1.500 m. “Depois do teste, fui restringida de competir. Começaram a surgir regras e regulamentos propondo etapas médicas”, afirmou. Sem poder competir, ela perdeu também a fonte de renda que sustentava sua família.
História semelhante viveu a queniana Maximila Imali, que despontava como promessa nos 800 m. Em 2014, um exame de sangue solicitado pela IAAF (atual WA) levou a sua exclusão das provas, sob alegação de níveis elevados de testosterona. “É muito doloroso alguém decidir quem você deve ser. Não estou doente. Então por que vêm me tratar?”, questiona Imali.
Especialistas explicam que o gene SRY, presente na maioria das pessoas com cromossomo Y, é determinante para o desenvolvimento sexual masculino, mas existem exceções em que indivíduos com SRY funcional se desenvolvem como mulheres. Essas variações — conhecidas como diferenças no desenvolvimento sexual (DSD) — podem afetar de 0,02% a 2% da população mundial.
As novas regras da WA definem que apenas “masculinos biológicos” que não passaram por puberdade masculina podem competir na categoria feminina, desde que mantenham os níveis de testosterona abaixo de 2,5 nmol/L. Para Payoshni Mitra, diretora da Humans of Sport, a política atinge de forma desproporcional atletas do Sul Global, que têm menos acesso a informações e suporte médico.
Os testes de verificação de sexo têm um histórico controverso no esporte. Na década de 1960, mulheres eram submetidas a “desfiles nus” e, mais tarde, a exames de Barr body, posteriormente criticados como imprecisos e discriminatórios. Hoje, a WA adota testes de PCR para identificar o gene SRY — prática que especialistas classificam como “absolutamente condenável”.
Ex-atletas e médicos alertam para os efeitos colaterais de tratamentos hormonais, que incluem dores corporais, insônia e desregulação do organismo. Ajok recusa qualquer intervenção: “Não é certo mudar meu corpo. Se quisessem que estivéssemos vivas, não poderiam nos obrigar a tomar remédio. Eles viram quem tomou e como está sofrendo.”
Críticos apontam que a exigência de um “teste único na vida” não é verdadeiramente voluntária, já que quem se recusar não poderá competir. “O impacto para essas pessoas é enorme. Precisa haver justificativa extrema que supere as consequências que mudam vidas”, avalia Arne Ljungqvist, ex-diretor da comissão médica do Comitê Olímpico Internacional.
Com o Mundial de Atletismo em andamento em Tóquio e os Jogos Olímpicos no horizonte, especialistas em direitos humanos alertam que atletas intersexo ou com DSD, sobretudo em países com menor proteção legal, correm o risco de serem expostas e sofrerem escrutínio público em um momento de máxima visibilidade.
Da Agência Fonte Exclusiva.








