Nunca uma Copa do Mundo ofereceu tantos jogos, recebeu tantas seleções e abriu tantas possibilidades de faturamento. Ao mesmo tempo, poucas edições concentraram tantos questionamentos sobre a relação entre futebol, dinheiro e poder político.
Realizado nos Estados Unidos, no México e no Canadá, o Mundial de 2026 transformou-se em uma gigantesca plataforma comercial. A competição ampliada para 48 seleções e 104 partidas fortaleceu contratos de transmissão, patrocínios, vendas de ingressos, hospitalidade corporativa e produtos licenciados.
A previsão é de que a FIFA encerre o ciclo comercial da competição com receitas próximas de US$ 13 bilhões. O resultado coloca a entidade em uma posição financeira privilegiada, com reservas acumuladas e capacidade para ampliar investimentos em suas associações filiadas.
A prosperidade, porém, não impediu o crescimento da desconfiança. Torcedores, organizações esportivas, autoridades e grupos de defesa de direitos passaram a questionar desde a política de preços dos bilhetes até a proximidade do presidente Gianni Infantino com lideranças políticas.
O debate ganhou força porque os benefícios e os custos do torneio não são distribuídos da mesma maneira. Enquanto a FIFA concentra grande parte das receitas comerciais, governos e administrações locais assumem despesas com segurança, transporte, controle migratório, organização urbana e adaptação das áreas próximas aos estádios.
Embora seja juridicamente uma organização sem fins lucrativos, a entidade administra um dos eventos mais rentáveis do planeta. Estimativas indicavam reservas de aproximadamente US$ 2,7 bilhões ao final de 2025.
O crescimento representa uma recuperação expressiva em comparação com o período de escândalos de corrupção que atingiu o futebol internacional há pouco mais de uma década. No entanto, o fortalecimento financeiro não solucionou os problemas de credibilidade.
Para os críticos, a Copa de 2026 mostrou que a FIFA conseguiu recuperar receitas e ampliar sua influência, mas ainda precisa demonstrar maior transparência na forma como toma decisões e conduz a principal competição do futebol mundial.
Mais jogos, mais receitas e custos públicos
A expansão de 32 para 48 seleções alterou profundamente o tamanho do Mundial. O número de partidas passou de 64 para 104, aumentando o conteúdo disponível para emissoras, anunciantes e plataformas digitais.
Cada jogo adicional representa novas possibilidades de venda de publicidade, direitos de transmissão, ingressos, alimentos, produtos oficiais e pacotes de hospitalidade.
A FIFA argumenta que as receitas sustentam projetos de desenvolvimento e programas distribuídos entre suas 211 associações nacionais. Também afirma que o novo formato permitiu a participação de países que dificilmente alcançavam uma vaga.
Apesar disso, a ampliação elevou as necessidades operacionais. A movimentação de delegações, torcedores, autoridades, jornalistas e prestadores de serviço exige grandes esquemas de segurança e mobilidade.
Boa parte dessa estrutura depende de recursos públicos e de serviços mantidos pelos países anfitriões. O modelo gerou críticas porque a entidade controla receitas importantes, enquanto administrações locais ficam responsáveis por despesas essenciais para a realização das partidas.
A diferença entre lucro comercial e investimento público passou a ocupar o centro das discussões sobre o legado da Copa.
Ingressos caros afastam torcedores
A venda de bilhetes tornou-se um dos principais focos de insatisfação. O sistema de preços dinâmicos permitiu que os valores variassem conforme a procura, a importância da partida, a fase do torneio e a localização dos assentos.
A consequência foi o aumento expressivo de determinadas entradas, especialmente nos jogos eliminatórios e nas áreas mais valorizadas dos estádios.
Torcedores relataram dificuldades para encontrar bilhetes nas categorias mais econômicas. Partidas decisivas chegaram a ter entradas comercializadas por milhares de dólares, enquanto acompanhar uma seleção durante toda a campanha passou a exigir um orçamento incompatível com a realidade de grande parte do público.
Grupos organizados de fãs acusaram a FIFA de explorar a fidelidade dos torcedores e transformar a Copa em um evento direcionado a clientes corporativos e consumidores de alta renda.
Também surgiram reclamações sobre mapas de assentos e setores entregues aos compradores. Alguns torcedores afirmaram que as características dos lugares recebidos eram diferentes das apresentadas durante a comercialização.
Autoridades de Nova York e Nova Jersey passaram a examinar o funcionamento do sistema, incluindo a divulgação de informações aos consumidores e a possível retenção de entradas. A existência da investigação não significa que qualquer irregularidade tenha sido comprovada.
Mesmo sem uma conclusão legal, a crise dos ingressos produziu um desgaste político. Para as organizações de torcedores, o problema representa uma mudança na própria identidade do torneio, cada vez menos acessível ao público tradicional.
Pausas, publicidade e decisões contestadas
As interrupções para hidratação foram adotadas diante das altas temperaturas registradas em diferentes cidades. A medida possui justificativa médica e esportiva, já que o calor extremo pode colocar em risco a saúde dos atletas.
Durante as paralisações, jogadores recebem água, tentam reduzir a temperatura corporal e podem ser avaliados pelas equipes médicas.
O problema surgiu quando emissoras passaram a utilizar esses períodos para exibir publicidade. A combinação entre uma decisão apresentada como proteção aos atletas e o aproveitamento comercial do intervalo alimentou críticas.
Infantino negou que os interesses financeiros tenham motivado a adoção das pausas. Segundo ele, a preocupação central foi preservar os jogadores diante das condições climáticas.
A explicação não encerrou a discussão. Além da presença dos anúncios, treinadores passaram a aproveitar as interrupções para reorganizar suas equipes, aproximando o momento de um tempo técnico.
Para os críticos, a mudança interfere na característica contínua do futebol e fragmenta a partida de uma maneira conveniente para transmissões e patrocinadores.
A maior crise institucional, entretanto, surgiu no caso do atacante norte-americano Folarin Balogun. Expulso, o jogador deveria cumprir suspensão automática no confronto seguinte.
Depois que Donald Trump procurou Gianni Infantino para pedir uma revisão da punição, o Comitê Disciplinar da FIFA decidiu suspender temporariamente a execução da pena. Balogun foi liberado para enfrentar a Bélgica, embora tenha recebido multa e continuado formalmente responsabilizado pela infração.
A sequência dos acontecimentos provocou questionamentos sobre a independência dos órgãos disciplinares. Representantes europeus argumentaram que a proximidade entre o pedido político e a mudança da punição afetou a confiança no processo.
Infantino afirmou não ter participado da decisão e defendeu a autonomia do comitê. Ainda assim, o episódio ampliou a percepção de que autoridades externas poderiam tentar influenciar assuntos esportivos.
Parlamentares europeus passaram a defender uma investigação sobre a conduta do presidente da FIFA. Organizações independentes também levantaram dúvidas sobre a relação de Infantino com Trump e sobre homenagens concedidas ao presidente norte-americano.
As acusações ainda dependem de avaliação pelos órgãos competentes. O impacto sobre a imagem da entidade, contudo, já ocorreu.
Imigração e ambiente aumentam pressão
A realização da Copa em três países também colocou políticas migratórias e impactos ambientais no centro das discussões.
Delegações, trabalhadores credenciados e pessoas consideradas indispensáveis ao torneio receberam autorizações específicas. Para os torcedores, o acesso aos Estados Unidos permaneceu sujeito às regras migratórias comuns e a controles adicionais.
Visitantes de alguns países enfrentaram processos demorados para obtenção de vistos, entrevistas detalhadas e verificações de segurança. Organizações de direitos humanos demonstraram preocupação com possíveis ações de fiscalização migratória próximas aos estádios e locais de concentração.
Não houve comprovação consistente de deportações generalizadas de integrantes de delegações com documentação válida. Ainda assim, a insegurança entre visitantes contrastou com o discurso da FIFA de que a Copa representa união e aproximação entre os povos.
A entidade não controla as leis migratórias dos anfitriões, mas a escolha das sedes faz com que essas políticas influenciem diretamente a experiência dos torcedores.
As longas distâncias entre os estádios também aumentaram a preocupação ambiental. As partidas foram distribuídas por 16 cidades, em três países e diferentes fusos horários.
O transporte aéreo tornou-se praticamente obrigatório para equipes, dirigentes, profissionais de imprensa e parte considerável do público. Estimativas apontam que o evento poderá produzir cerca de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente.
O uso de aeronave particular por Gianni Infantino intensificou as críticas. O dirigente adotou uma agenda de deslocamentos entre as sedes, algumas vezes tentando acompanhar mais de uma partida no mesmo dia.
Não existe confirmação segura sobre a quantidade exata de emissões atribuída apenas às viagens do presidente da FIFA. Ainda assim, os voos privados transformaram-se em símbolo das contradições entre o discurso ambiental e a prática observada durante o torneio.
O impacto não se limita ao comportamento de um dirigente. O formato ampliado, a dispersão das sedes e a dependência do transporte aéreo tornaram a Copa de 2026 uma competição de elevado custo ambiental.
A FIFA apresenta o Mundial como um sucesso de público, audiência e inclusão esportiva. A ampliação permitiu a participação de novas seleções e levou a competição a um número maior de mercados.
Os estádios cheios, as transmissões internacionais e a movimentação comercial demonstram a força global da Copa.
O êxito financeiro, entretanto, não garante confiança institucional. Quanto maior a arrecadação, maior se torna a cobrança por decisões transparentes, comitês independentes e compromissos sociais compatíveis com o poder econômico da entidade.
A política de ingressos, o caso Balogun, a utilização comercial das pausas, as restrições migratórias e o impacto ambiental formam um conjunto de controvérsias que pressiona Gianni Infantino.
Dentro de campo, a competição produziu partidas históricas e campanhas inesperadas. Fora dele, revelou um modelo cada vez mais dependente de grandes receitas, alianças políticas e estruturas públicas.
O legado do Mundial não será definido apenas pelo campeão. Também dependerá da forma como a FIFA responderá às investigações, às reclamações dos torcedores e às dúvidas sobre a independência de suas decisões.
A entidade nunca administrou uma Copa tão extensa nem projetou receitas tão elevadas. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de provar que o crescimento comercial não colocou a integridade esportiva em segundo plano.
A Copa de 2026 consolidou a FIFA como uma potência financeira, mas também mostrou que riqueza e credibilidade não avançam necessariamente na mesma direção.
*Da Agência Fonte Exclusiva








