Após ser chamado de “traidor” por Romário em virtude de razões políticas, Bebeto reagiu. A relação da dupla de atacantes do tetra sofreu abalos nas últimas eleições, primeiro pela troca de partido do ex-camisa 11 e, depois, em razão do apoio de Bebeto a André Ceciliano (PT), concorrente derrotado pelo Baixinho na corrida pelo Senado, no ano passado.
— Ele me chamou para o Podemos e fui o único eleito pelo partido. Depois, largou o partido, me deixou sozinho e nem me avisou, soube através da imprensa. Ele escolheu um lado e não me chamou. Tive que me mexer e buscar o meu lado. André Ceciliano foi um cara que sempre me ajudou na Alerj, e sou muito grato a pessoas assim — afirmou Bebeto ao GLOBO.
Em 2018, quando Romário concorreu ao governo do Rio pelo Podemos, Bebeto se filiou ao mesmo partido a convite do ex-companheiro de ataque e se elegeu para o terceiro mandato como deputado estadual. Três anos depois, porém, Romário decidiu deixar a sigla e se filiar ao PL, segundo Bebeto, sem avisá-lo.
Reeleito senador no ano passado pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, Romário disse que não chegou a brigar com Bebeto, mas frisou seu descontentamento com o ex-companheiro:
— Traidor. Foi (meu maior parceiro), mas não é mais. Me traiu na política. Pulou (de galho). Tem algumas coisas na vida que eu levo para sempre, dentro e fora da política. Quando é com um cara que você gosta, que você conviveu e tem uma relação de amizade em todos os sentidos, isso é triste — declarou o ex-jogador nesta segunda-feira em entrevista ao “Podcast do Garotinho”, do jornalista José Carlos Araújo.
‘Esclerosado, falando muita besteira’
Bebeto e Ceciliano se aproximaram quando o então deputado do PT presidia a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), entre 2019 e 2022, período em que o ex-jogador, à época deputado estadual, considerou ter sido “largado” por Romário. Em entrevista ao Uol, também nesta terça-feira, Bebeto subiu o tom:
— Quem é ele para me chamar de traidor? O Romário está ficando velho e acho que está ficando esclerosado, falando muita besteira. Tenho uma carreira íntegra no futebol e na política, nunca me envolvi em polêmicas. Não posso falar o mesmo dele, que é um egoísta, sempre pensou apenas nele — afirmou Bebeto ao site.
Incômodo extracampo
Além da irritação com o processo de troca partidária, Bebeto e Romário passaram a nutrir certo incômodo mútuo por declarações envolvendo a Copa do Mundo de 1994.
Para Bebeto, não caíram bem algumas entrevistas de Romário nos últimos anos, nas quais teria sugerido que ganhou “sozinho” o tetracampeonato — o que o Baixinho nega ter dito.
— Já ouvi alguns companheiros meus de 1994 dizerem que eu já falei que ganhei a Copa sozinho. Nunca falei isso. Até porque não sou leviano, nem imbecil. Eu tenho a consciência, e sei que eles também têm, de que eu me sobressaí – disse Romário em participação no podcast “Barbacast”, em agosto de 2022.
Bebeto, que já mostrou contrariedade publicamente com o discurso de que Romário ganhou “sozinho” a Copa de 1994, sinalizou a interlocutores que considera que o próprio Baixinho alimenta essa tese, ao sempre ressaltar seu papel preponderante na conquista.
Em entrevista à revista “Placar” em 2016, por exemplo, Romário frisou não ter jogado “sozinho”, mas afirmou também que “os outros jogadores sentiam que eu (Romário) era o mais importante”. Na mesma entrevista, o Baixinho disse ter sido o “único dos 23 jogadores, desde quando saímos do Brasil”, a manifestar certeza do título.
Em outra entrevista, no ano passado, ao podcast “Que papinho”, Romário disse ter 50% da responsabilidade pelo título de 1994: “Todo mundo tem que admitir que a probabilidade de o Brasil não ganhar se eu não tivesse era bem real”, afirmou.
A relação entre Romário e Bebeto, no entanto, não havia desandado até o fim do ano passado. Tanto que Bebeto topou gravar um longo depoimento para a série “Romário, o cara”, produzida por uma plataforma de streaming.
O primeiro sinal público de atrito veio numa entrevista de Romário ao youtuber Fred Desimpedidos, em novembro passado, na qual citou Bebeto como “decepção” por ter apoiado “outro senador” naquela campanha eleitoral. Na ocasião, Bebeto afirma ter tentado ligar para Romário para conversar sobre o assunto, mas o Baixinho não atendeu, nem retornou.
Idas e vindas na política
Entrosados nos tempos de futebol profissional, Romário e Bebeto buscaram manter a parceria também na política, mas nem sempre estiveram do mesmo lado. Em 2014, Romário se elegeu ao Senado fazendo críticas contundentes à organização da Copa do Mundo no Brasil, enquanto Bebeto integrava o Comitê Organizador Local do torneio.
Nas eleições municipais de 2016, Bebeto integrou o arco de alianças do então prefeito Eduardo Paes, que tentava emplacar o aliado Pedro Paulo como sucessor; Romário, por sua vez, apoiou Marcelo Crivella, que acabou eleito.
O alinhamento político veio em 2018, com a filiação de Bebeto ao Podemos, partido à época comandado por Romário no Rio. Bebeto se elegeu para o terceiro mandato consecutivo como deputado estadual naquele ano, enquanto Romário naufragou na eleição ao governo do Rio, vencida pelo ex-juiz Wilson Witzel.
Em 2020, embora o Podemos fizesse parte da coligação de Crivella no Rio, Romário e Bebeto optaram por apoiar a candidatura de Eduardo Paes à prefeitura e chegaram a participar juntos de um ato de campanha.
O apoio da dupla do tetra a Paes provocou um racha no Podemos, e Romário optou por se desfiliar da sigla em abril de 2021. Por ser senador, Romário não corre risco de perder o mandato por infidelidade partidária, situação distinta à de Bebeto, que precisaria continuar na sigla até a janela de desfiliação no início de 2022.
Com informações do Jornal O GLOBO.








